domingo, 23 de agosto de 2009

Porque deixei de ser português


Ontem, como sabem, aconteceu uma tragédia numa praia do Algarve, 5 pessoas perderam a vida depois de uma derrocada. É muito provável qualquer um de nós pensar que estes 5 infelizes não deveriam estar naquela zona, pois havia um sinal a avisar o perigo. Muito mais provável será, qualquer um de nós, indo a uma praia no Algarve, nem sequer reparar no sinal, pois o que quer é desfrutar de uma sombra, lá vai imaginar que aquela semi-falésia ou aglomerado de terra e pedras vai ruir.
Decerto que todos nós já fomos às praias do Algarve, não sei se repararam, mas grande parte delas são minúsculas, têm um areal muito limitado e estão repletas daquelas semi-falésias, género aquela que vitimou estas 5 pessoas. Para mim a culpa, ao contrário do que muitos devem pensar, não é destas 5 pessoas, a culpa é das entidades responsáveis!
Por que é que nesta treta de país só se tomam medidas depois das merdas acontecerem??!! Agora já veio pra aí um iluminado qualquer dizer que se vai fazer uma vistoria às praias todas da costa Algarvia. Quer dizer, sabiam do risco, mas estavam à espera que alguém morresse para agir. Porra! Doa a quem doer é mesmo assim!! Faz-me lembrar o episódio da ponte de Entre-os-Rios, em que dezenas de pessoas morreram, quando todos sabiam que aquela ponte estava por um fio. Depois todos se apressaram a remendar a de Viana e outras que tais.
Mas há tantos outros exemplos por esse país fora que me deixam fo#?&do e a desejar "Porque deixei de ser português, ou melhor por que é que às vezes gostaria de deixar de o ser".
Quem é que nunca ouviu nas notícias qualquer coisa deste género: "Criança morre atropelada, após atravessar estrada sem semáforo, junto à escola", "População fartou-se de exigir passadeira e semáforo no local onde idosa foi atropelada", " 3 pessoas morrem em acidente de viação no IP9 numa curva onde os acidentes são comuns", "Casal de idosos é colhido por comboio numa passagem de nível", etc, etc, etc, etc e etc
Vivemos no país da tolerância 0 e já agora da prevenção 0.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Ameaça de Bomba no piso 6


Aconteceu mesmo! Não é brincadeira! Ontem, dia 17, ameaça de Bomba no piso 6, serviço Medicina 1, 2ª fase.
Parece que a notícia foi abafada, mas deixo-vos aqui os pormenores em 1º mão,
Será que foi o Sr. Antunes que se fartou da comida do refeitório e decidiu por uma bomba no hall de entrada?! Ou será que a Al Quaeda anda por ai?! Deve ser o Ulsam Said...
Agora a sério...
A Brigada de Minas e Armadilhas foi chamada, após uma denúncia telefónica anónima. Com eles veio o Rex, o cão polícia (fonix não consigo parar de gozar... é que isto dá-me vontade de rir, desculpem...). Consta que levaram um embrulho e o assunto foi resolvido.
A ver se não é preciso chamar o CSI (lá estou eu...).

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Eduardo, uma criança anorética


Ao longo da nossa curta/longa experiência como enfermeiros decerto que já nos deparamos com situações que mexeram connosco de alguma forma. Umas deitam-nos abaixo, outras engrandecem-nos, umas deixam-nos enfurecidos, outras fortalecem-nos. Mas acima de tudo há situações que marcam, que sensibilizam. Esta é uma delas,
A mãe do Eduardo já o teve fora de tempo, mas não seria por isso que seria indesejado, muito pelo contrário. A mãe teve uma gravidez de risco, o período fértil tinha sido ligeiramente ultrapassado. O Eduardo nasceu prematuro e de saúde débil. Foi a partir desse momento que se tornou o protegido da família. Era o menino querido dos olhos da mãe. Também era o único macho de três irmãos. Tinha os olhos doces, cor de mel, de um sorriso fino e meigo. Tinha 14 anos e costumava ser titular nos juvenis do Fão, jogava a central com número 5 às costas, o do seu ídolo, Fernando Couto. Nos últimos tempos tinha perdido a titularidade, passava os tempos mais nos hospitais. Tinha perdido 12 quilos em 9 meses, sofria de anorexia.
A sua fragilidade e superprotecção tinham alimentado o distúrbio.
Permanecia sereno, deitado numa maca, com sua mãe em pé, a seu lado. O seu coração trabalhava lentamente, era a forma do seu corpo responder ao défice de proteínas. Tinha alturas que batia a 30 pulsações por minuto, mas com o estímulo da conversa que com ele mantínhamos, logo subia para valores razoáveis. A Pediatra adoptou uma postura radical logo desde o início, o que eu não condenei, achei que podia funcionar esta terapia abrupta, Eduardo, tu podes morrer, se o teu coração continua a bater desta forma, podes morrer. Sua mãe chorou de imediato e eu engoli em seco. Ele apenas comunicava com os olhos, dando a entender que percebia a gravidade da situação. A médica também se comoveu e moderou o discurso, Tu não tens amigos? Sim, respondeu. E então não queres continuar a ter?! Olha o mundo lá fora, tens tanta coisa a tua espera. O dia ajudou, amanhecia lá fora, e mesmo dali dava para saborear aquele dia de Verão perfeito.
Os raios de sol penetravam timidamente pela vidraça e o silêncio da manhã reinava quando o Eduardo também chorou. As lágrimas deslizavam pela sua face esguia, a sua expressão permanecia quase inalterável. Aquelas lágrimas poderiam ser a sua salvação, senti-as como o sinal de mudança.

Assim o espero Eduardo, o mundo espera por ti.

Enfermeiros atirados aos leões


Quando comecei a trabalhar recordo que o tempo de integração era sagrado. Aquele mês, mês e meio, ou até mais, consoante o serviço, era cumprido à risca. Nessa altura os tempos eram outros, de certa forma valorizava-se o bem-estar e adaptação do enfermeiro.
Depois chegou a crise, as EPE´s, as perdas de autonomia e poder dos chefes e a gestão anárquica de recursos humanos, porque afinal de contas o que interessa é o $$$$.
Eu quero lá saber que aquele enfermeiro esteja ou não integrado, tem é que começar a trabalhar apartir do momento que eu o contrato, tem o curso, é porque já sabe fazer tudo, preciso dele é agora e não daqui a um mês, (isto sou eu a imaginar o que deve ir na cabeça dos gestores quando atiram um enfermeiro para os leões).
Os leões não são só os doentes, são: os protocolos, os circuitos, os programas, as rotinas, os materiais, os arrumos, as características, as patologias, as terapêuticas, as equipas, a logística etc etc etc, de todo um serviço.
Como é possível alguém estar em integração 2 ou 3 turnos e no seguinte ficar responsável por 20 doentes e uma área de Reanimação?!! De quem é a culpa? Será dos gestores, será dos chefes?! Ou não será de ninguém... é o mais provável, é não ser de ninguém.
Nota: Este post nasce da sugestão de um colega do S.U, não interessa quem.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Crónicas estapafúrdias Vol. VIII - O Cunólogo


As luzes do corredor já tinham sido desligadas, a urgência já andava a meio gás. Pouco passava das 4h da manhã, hora de relativa paz, quando um jovem nos visita com uma ferida feia. Tinha-se zangado com a namorada e decidiu concentrar a sua fúria num copo, partindo-o com a mão. Dr.Q, ortopedista (não sei se se recordam) foi chamado, pois o flexor tinha sido atingido. Acompanhado pelo Dr. J, assiste o jovem azarado. Mais fo#$-se , menos ca%&lho, a história foi mais ou menos assim,
Dr.Q - Então, ca#$lho! Que é que você faz aqui a estas horas?! Questiona enfurecido.
Jovem azarado - Ahh.. Doutor, responde acanhado, Parti um copo com a mão.
Dr. Q - Fo#&da-se... e que é andavas a fazer com o copo, ca&$lho?!
Jovem azarado - Zanguei-me com a namorada.

Dr.J, explorava a ferida, enquanto Dr.Q continuava o interrogatório, cada vez mais minucioso. A revolta de ter sido acordado tinha-se atenuado devido aos contornos interessantes do infeliz episódio.

Dr. Q - A tua namorada deve ser fo%$da! O que é que ela faz?

Jovem azarado - Ahh... Tem um estabelecimento em Valença...

Dr. Q - Um estabelecimento em Valença?! Não me digas que tem uma casa de putas?!

Dr. J e o enfermeiro hesitaram entre a gargalhada e o silêncio, mas não aguentaram. Até o próprio interrogado esboça um sorriso, talvez fosse melhor não levar a mal, afinal de contas era a sua mão que estava em jogo. Responde, por fim, após a risota geral,

Jovem azarado - Ahh.. não.. É uma casa de meninas.

Dr. Q - Meninas... pois. Então o que é que tu fazes lá?

Jovem Azarado - Humm... estou lá...

Dr. Q - Estás lá?! returque pouco convencido. Não me digas que és o cunólogo.

E a gargalhada foi ainda maior... e a história fica por aqui... é melhor

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Crónicas estapafúrdias vol. VII - Às vezes perco-me a tentar perceber a mente humana.


Nota prévia: Há já algum tempo que não editava as crónicas, por isso convém relembrar que todas as crónicas estapafúrdias são histórias reais, com personagens inventadas, para não ferir susceptibilidades.
O Enfº Y tinha recebido a informação, estava prestes a chegar ao SU um doente com o diagnóstico de tuberculose pulmonar, com alto risco de contágio. As medidas de precaução possíveis foram asseguradas e o senhor infectado seguiu directamente para o pseudo-isolamento do SU. Aqui , caros leitores, surge a primeira parte estapafúrdia.
Desde que se ergueu esta Urgência, há mais ou menos 30 anos, que existe uma sala que denominarei de pseudo-isolamento/sala de tratamentos/sala de espera de doentes para PSIQ-ORL-OFT. Tanto funciona para instalar doentes com tuberculose, como para, (em alturas distintas) deixar doentes à espera do psiquiatra ou, por exemplo, fazer um enema de limpeza a um doente ou ainda, mais recentemente, para deixar suspeitas de gripe A. É uma sala multi-usos!
Foi necessário a chegada do H1N1 para se começar a pensar em fazer umas obras a este pseudo-isolamento/sala de tratamentos/sala de espera de doentes para PSIQ-ORL-OFT, para que se torne unicamente (?) um isolamento à seria.
Para que tenham uma melhor ideia do que vos estou a falar, descrever-vos-ei o pseudo-isolamento/sala de tratamentos/sala de espera de doentes para PSIQ-ORL-OFT:
Dirigindo-se pelo corredor principal, encontra na 8ª porta à sua esquerda , a entrada para o pseudo-isolamento/sala de tratamentos/sala de espera de doentes para PSIQ-ORL-OFT, abre a porta, e vê um compartimento talvez do tamanho de um quarto de casal (de um apartamento modesto), no topo superior da parede de fundo, temos umas janelinhas, género as de uma garagem (do mesmo apartamento). Depois temos um lavatório dos anos 20 e um saco branco, e para terminar temos o ar condicionado ou incondicionado, pois mal funciona. Finalmente está em obras! Agora vamos ver é como vai ficar, pelo menos já estão a deitar paredes abaixo. Há males que vêm por bem.
Agora a segunda parte estapafúrdia,
O enfº Z equipa-se segundo as normas estabelecidas, para ir ter com o tal senhor que tinha uma tuberculose. Eis que entra em cena Dr X, (não sei se se recordam) e questiona enfurecido o Enfº Y: Quem é o responsável de turno? Quem é o responsável pelo enfº Z? Recebe a resposta e comenta, de forma a que acompanhantes, doentes e quem estivesse no seu raio de acção ouvisse, qualquer coisa do género: Só lhe falta levar o preservativo! Será que também leva preservativo?! A história foi difundida e pelo que se constou, a intenção não era ter piada, era mesmo criticar e condenar (o que está certo), mas se fosse para ter piada, não teve nenhuma, digo eu.. é por isso que às vezes perco-me a tentar perceber a mente humana.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Factor C ?!


Tenho recebido alguns comentários (que reencaminharei para este post), que mencionam dados estranhos acerca do concurso para entrada de novos enfermeiros na ULSAM. Sinceramente não tenho conhecimento real do que se está a passar, apenas ouvi uns rumores, por isso a exclamação e interrogação.
Convidei um anónimo, que abriu aqui neste blog esta discussão, para criar o post sobre este tema, mas ele(a) desapareceu. Os comentários que se seguem são da responsabilidade dos intervenientes... e minha, mas só acredita quem quer.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Aos meus colegas do SU


Esta é uma carta destinada para a caixa de reclamações/sugestões do SU. Gostava que os enfermeiros do SU a lessem e manifestassem aqui neste blog a sua aprovação ou reprovação. Caso aprovem, refiram se, tal como eu, a assinam. Caso assinem, ela há-de chegar às vossas mãos. (ainda não sei é como, porque eu não vos a posso entregar)

Em qualquer local de trabalho torna-se essencial um ambiente minimamente saudável. Num serviço de prestação de cuidados ao utente mais ainda se tornará, por razões evidentes. Com um ambiente cordial e harmonioso a eficiência será potencializada, assim como o atendimento e bem-estar do utente.
É sabido que o conflito é comum nas relações inter-pessoais, devido à complexidade das diversas situações com que diariamente nos deparamos, o que não é compreensível é o conflito criado sem sentido.
Enumeras foram as vezes em que os enfermeiros desta equipa relataram no seu seio, como forma de descomprimir, situações lamentáveis e evitáveis, criadas nas tais relações inter-pessoais. Quase nunca estas situações, muitas vezes com graves contornos, são expostas a quem de direito, por receio de que o ambiente de trabalho se deteriore ainda mais, ou até porque as pessoas não se querem incomodar ainda mais.
Os enfermeiros encontram-se no meio de uma cadeia de classes, por conseguinte, estabelecem um maior volume de interacções profissionais. Consequentemente, são os que mais sentem a pressão do possível conflito, são os que mais o vivenciam e são os que mais sentem necessidade de uma intervenção exterior.
No nosso meio, a relação médico enfermeiro será indubitavelmente a mais decisiva, porém, lamentavelmente, é a que mais atritos gera. Não se pretende denunciar esta ou aquela situação lamentável, nem se pretende denunciar este ou aquele médico que tiveram atitudes infelizes. Pretende-se alertar as pessoas que têm a capacidade de mudar o rumo da situação, para evitar que estes episódios sejam frequentes e que evoluam para desfechos ainda mais infelizes, como por exemplo, possíveis agressões físicas, (como já aconteceu).
Sendo assim sugerimos:
Formação obrigatória para todos os profissionais, com o tema (p.e.) – “Saber estar, saber respeitar em trabalho em equipa”, ou consulta de psicologia obrigatória para todos os funcionários de (p.e) 5 em 5 anos, ou sempre que o profissional achasse importante.
Poderia ser uma medida inovadora e quiçá pioneira no nosso sistema nacional de saúde.

Os signatários,

Guilherme de Carmo

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Agora é convosco.. leiam, discutam, sugiram, cá vos espero..

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Polémica no Hospital de S. João

Após a controvérsia causada pelo enfermeiro que decidiu, e bem, escrever uma carta ao P.R, queixando-se de injustiça, perseguição e discriminação por parte da chefia de um serviço do Hospital São João, nova polémica acontece nesta imponente instituição de saúde.
Gilson Alves, interno de cirurgia cardio-torácica, está, desde esta 2ª feira, em greve de fome, num gabinete no próprio hospital.
Tal como todo o interno que quer dar mostras da sua dedicação e interesse, pediu inicialmente para assistir a cirurgias, mesmo após longas horas de urgência. A adrenalina, a vontade desmesurada de aprender, falavam mais alto que o bom senso. Depressa estes horários absurdos e desumanos se tornaram um hábito. Gilson Alves começou a ficar saturado, cansado de ser explorado. Ao contrário de muitos, não se calou. Manifestou a sua indignação, apontou os culpados e por isso foi castigado. Permanece desde Março confinado a um gabinete, onde nada mais fez do que magicar o plano que o poderia salvar deste precipício, idealizou a greve de fome, criou um blog onde movimenta todas as suas emoções, através de textos e vídeos. É aqui que recebe as centenas de comentários, maioritariamente a aprovar a sua causa. Poderão visitá-lo clicando neste link. Fiquem a conhecer a discriminação e calúnia a que foi sujeito.
Poderão vos surgir algumas dúvidas quanto à veracidade de tudo o que afirma, só estamos a conhecer a sua versão. Porém, a magnitude dos seus actos merecem no mínimo a nossa atenção. isto não se trata de um problema de um indivíduo, de uma classe, mas sim de um problema geral, que atinge muitos portugueses, das mais variadíssimas classe laborais. Despertem porque amanhã podem ser vós, ou um dos vossos, ou todos vós.

terça-feira, 23 de junho de 2009

O ciclo vicioso


Ainda não tinha feito o meu dever como enfermeiro, colega e blogista - divulgar esta grandiosa petição, (é que às vezes gosto de fazer umas pausas introspectivas).
Duvido que ainda haja alguém que desconheça a Petição das Petições, a Nº 1 e que chega mesmo a ultrapassar a da conhecida menina russa, mas poderá haver um ou outro mais distraído, por isso, se achas que este governo desrespeita os enfermeiros, visita e assina Petição - Todos pela carreira de Enfermagem, se achas que gostas de ser explorado, então não assines.
A ideia foi brilhante, a abrangência está a ser fantástica (últimos dados com 7115 signatários), quanto às repercussões falarei adiante. Na minha opinião, no seu texto de intervenção, há ali apenas um parágrafozito (o antepenúltimo) que não foi muito feliz, acho que está um pouco confuso, a rasar a ameaça, mas também são pormenores.
Confesso que estou um pouco saturado e pessimista, este longo processo tem sido mais troca, menos troca, da seguinte forma:
... Adiamento, adiamento, reunião, retrocesso, impasse, manifestação, adiamento, reunião, avanço, retrocesso, reunião, impasse, adiamento, reunião, impasse, greve, avanço, retrocesso, manifestação, impasse, adiamento, adiamento, reunião, impasse, impasse, greve, retrocesso e depois aconteceu algo fora do normal, que foi um... adiamento, seguido de manifestação, reunião, impasse, avanço, reunião, retrocesso, impasse, manifestação, impasse, reunião, impasse, reunião, greve, e depois se não me falha a memória, acho que houve um impasse, que me corrijam se estiver enganado, a seguir uma manifestação, greve, reunião, reunião, impasse, impasse e... Ah! Foi um impasse, seguido de adiamento, reunião, greve, greve, avanço, avanço (Ui! 2 avanços seguidos!) Retrocesso, retrocesso (bem me parecia...) e depois ou houve uma greve, ou uma reunião, é que já estou um pouco baralhado. Neste momento estamos a atravessar um impasse, aproximando-se uma reunião ou adiamento, ainda não se sabe.
Agora abro aqui um espaço de debate ou reflexão, como quiserem. Depois de tudo isto, quais são as tuas expectativas? Depois de todos os esforços, uns bem, outros menos bem conseguidos, será que vamos cair novamente no buraco da indiferença? Será que a petição vai funcionar? Será que estamos próximos de um final feliz, ou infeliz?
Para terminar, deixo-vos com a não menos importante petição sobre o problema que se passa em Ponte de Lima, visitem e assinem, se assim o acharem, fica aqui o link Hospital Conde Bertiandos, garanto-vos que os motivos são muito legítimos, e tal como na outra fazem a subscrição em 1 minuto.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Musicoterapia



Nina Simone - Ain’t Got No… I Got Life

Ain’t got no home, ain’t got no shoesAin’t got no money, ain’t got no classAin’t got no skirts, ain’t got no sweatersAin’t got no faith, ain’t got no beardAin’t got no mind
Ain’t got no mother, ain’t got no cultureAin’t got no friends, ain’t got no schoolingAin’t got no name, ain’t got no loveAin’t got no ticket, ain’t got no tokenAin’t got no God
What have I got?Why am I alive anyway?Yeah, what have I got?Nobody can take away
I got my hair, I got my headI got my brains, I got my earsI got my eyes, I got my noseI got my mouth, I got my smile
I got my tongue, I got my chinI got my neck, I got my boobsI got my heart, I got my soulI got my back, I got my sex
I got my arms, I got my handsI got my fingers, Got my legsI got my feet, I got my toesI got my liver, Got my blood
I’ve got life, I’ve got my freedomI’ve got the life
I got a headache, and toothache,And bad times too like you,I got my hair, I got my headI got my brains, I got my earsI got my eyes, I got my noseI got my mouth, I got my smile
I got my tongue, I got my chinI got my neck, I got my boobiesI got my heart, I got my soulI got my back, I got my sex
I got my arms, I got my handsI got my fingers, Got my legsI got my feet, I got my toesI got my liver, Got my blood
I’ve got life, I’ve got my freedomI’ve got life, I’m gonna keep itI’ve got life, I’m gonna keep it

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Um dia na vida de um Enfermeiro da Admissão - Último episódio


Cenas do último capítulo,
(...) Tenho que render novamente a colega da Triagem que fica radiante por me ver. Começo a triar,
Episódio IV
Utente ySr Enfermeiro, desde a semana passada, enquanto estava a ver o festival Eurovisão da canção, que tenho um formigueiro neste braço e uma pontada nas costas…
Seguro a gargalhada, a Triagem às vezes também nos proporciona momentos deliciosos. À sexta triagem entra a vmer repentina para a sala de emergência, soa o alarme estridente, dirijo-me à sala e levo já na mão uma pulseira vermelha. Devido a esta hora crítica do jantar, apenas um colega se encontrava na sala, juntamente com a equipa do carro amarelo. Passados segundos tinham chegado os médicos. Senti-me no dever de ficar a ajudar, afinal de contas enfermeiros de urgência são para estas situações. Tratava-se de uma senhora de 80 anos, que de repente, em casa, tinha-se lembrado de deixar de respirar. Durante 20 minutos tentamos reverter o inevitável, o desfecho não tinha sido favorável. Volto à triagem, 20 minutos ausente, 20 utentes em espera.
E.ABoa noite! Então que se passa?
Utente XDoí-me a barriga.
E.ADesde quando?
Utente XDesde ontem, mas hoje já estou melhor.
ENTÃO QUE RAIO ESTÁ CÁ A FAZER??! Imaginei dizer. Aquele principio de que, quando temos uma dor, tentámos resolver em casa, se melhorarmos, tanto melhor, se as coisas piorarem é que começamos a pensar em ir ao médico, a esta (e a outras) pessoa(s) não se aplicava, ou melhor, aplicava-se ao inverso.
Mais umas queixas e regressa a colega da Triagem, não lhe deixo um panorâma muito agradável, explico que aconteceu algo (im)previsto. Preparo-me para o último sprint, 3 internamentos em espera, 2 folhas de terapêutica de doentes que iam ficar em OBS…Macas, ou seja, um “OBS” onde se encostam os doentes em maca a uma parede, que muitas vezes parecia interminável. A cada um destes é atribuída uma letra, seguindo o abecedário, já ia na H. Era comum a competição para ver quem tinha tido mais macas, havia uns tantos enfermeiros que já se gabavam, por ironia, de ter chegado a ter a Maca B’, ou seja, tinham dado a volta ao alfabeto.
Um dos internamentos tinha ficado esquecido na secretária dos cirurgiões somente há 5 horas. Bem achava estranho aquele doente que se encontrava na Twilight Zone, nem num lado, nem no outro, mas também, mea culpa talvez, não me tinha dado ao trabalho de ir ver o que é que se passava com ele, talvez por permanecer calmo, indiferente à confusão em seu redor, talvez fosse daquele tipo de doentes tão crivado de hospitais, que se tornara imune à impaciência da espera. Tratava-se de um doente reencaminhado do Hospital de S. João, nem se justificava por ali passar, nada foi feito por enfermagem, apenas uma nota de circunstância.
Seria uma sorte, com a quantidade de exames em espera, conseguir um maqueiro para levar pelo menos um internamento antes das 23h, hora de passagem de turno. O meu colega continuava tarefeiro, no trinómio análises/soro/medicação, ao mesmo tempo que barafustava com a lentidão dos computadores. Com a impaciência, clicava sucessivamente até que davam o tilt. Esta Admissão mais parecia uma mini-central de computadores arcaicos que bloqueavam sistematicamente devido ao uso ininterrupto, o ruído que emitiam era oco e desgastante. O sistema Alert (programa criado para coordenar todos os procedimentos num SU) anda a 100 rotações por minutos, os enfermeiros da Admissão andam a 200, claro que dariam o pifo.
E.AEntão leva-me este internamento, se faz favor? Está prontinho!
Maqueiro 2Está bem. Onde está o processo?
Uii, estarei a ouvir mal?! Entrego-lhe o processo surpreendido e digo adeus e as melhoras ao senhor que estava esquecido. E assim terminava o tempo dos internamentos, senão ouvíamos das boas dos colegas lá de cima. Pego numa das folhas de terapêutica, escolho a de baixo, provavelmente a primeira a ser deixada na banca. Um senhor que tinha tido um pós-operatório complicado, tinha estado nos Intensivos e depois terá tido uma alta precoce. Continuava a perder sangue sabe-se lá por onde. Onde iria ficar? “OBS” Macas.
Tentámos numa última arfada, deixar o painel menos cintilante. Conseguimos finalmente atingir a meta, desta feita seria um atraso de 20 minutos. Nada mau…
Chega o colega da noite para receber o turno.
E a história termina da mesma forma que tinha começado,
E.AComo é tão bom ver-te! Deixa-me passar o turno que já estou saturado.
Casa, banho, cama… para a minha princesa.
Princesa - Então amor trabalhaste muito?!
E.A - Trabalhei…
Princesa - Também respondes sempre o mesmo, e adormece no meu peito.
FIM
Retiro-me com a escolha do Dj, espero que gostem,

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Um dia na vida de um Enfermeiro da Admissão - Episódio III


Cenas do último Capítulo,
(...) Vejo o Colega de turno com cara de poucos amigos
E.A - Então que se passa?
Episódio III
Colega de turnoAli a tua amiga (médico 1), entrou aí a mandar vir por o doente do AVC ainda ai estar.
Respiro fundo e relembro os ensinamentos do yoga, utilizar as energias negativas, convertendo-as em positivas.
E.ADeixa lá isso, eu vejo a doente, continua tu no painel.
Doente 1Sr. Enfermeiro já chegaram as minhas análises?
E.AIsso é com o médico, respondo áspero.
Volto ao AVC, planeio ver temperatura, tensões e glicemia capilar, só encontro o termómetro, mais uma volta ao serviço para encontrar o aparelho para ver tensões e a maquineta para a picada no dedo, resultado 5 minutos perdidos. Mais 5 a corrigir as alterações, febre, hipertensão e hiperglicemia, ou seja tudo. Deixo a senhora pronta para o internamento, mais uma volta para encontrar maqueiro, desta vez com sucesso.
E.ASr. Maqueiro leve-me aquela senhora ao internamento.
Maqueiro 3Não posso, estou nas fichas.
E.APode, pode, eu falo com o enfermeiro das fichas.
E lá vai ele contrariado, remoendo umas palavras pouco agradáveis. É por isso que nunca se deve dizer “Não posso”, poder, podemos sempre, agora, “Não devo” é mais correcto, de facto não deve, mas pode. Tal como há falta de enfermeiros, também faltam maqueiros, já para não falar de auxiliares. Muitos são aqueles que dizem,
“Seria bom que aqueles que mandam, estivessem cá neste dias, talvez colocassem mais pessoal”.
Pois é caro cidadão (e esta é para ti Ângelo Miguel!) o enfermeiro não se queixa exclusivamente por ser mal pago, queixa-se, entre inúmeros aspectos, das más condições de trabalho, muito devido à falta de pessoal e que têm implicações directas no seu atendimento. Avaliem bem, Senhores gestores, os sítios onde não se faz nenhum – onde o pessoal poderia ser reduzido e transferido para onde efectivamente se faz. Bom… isto era um pequeno desabafo, já me estava a perder… voltando à série,
Nem tudo era mau na Admissão, este era o momento em que efectivamente estavam dois enfermeiros, onde se conseguia ter um pouco mais de controle da situação.
Colega de turno - Só análises, só análises!... A todos os doentes pedem análises.
E.AÉ mesmo! É impressionante!
Qualquer utente que queira uma análise de rotina, basta ir ao Serviço de Urgência e dizer que sente… qualquer coisa, é garantido que faça umas análises ao sangue, até mesmo que diga que sente que o futuro dos portugueses vai melhorar! Bom… aí é mesmo melhor pedir umas análises, pesquisa a opiáceos..
Várias são as vezes em que vejo esta urgência como um laboratório de análises. Por falar nisso, colho sangue a mais dois utentes, é melhor deixar um cateter, o mais provável é daqui a pouco estarem a pedir medicação.
Já não há macas para deitar doentes, nem muito menos cadeiras. Uma equipa de bombeiros espera há largos minutos, à entrada do corredor, uma vaga para deixar um doente. Mais duas corporações estão lá fora, se esses doentes precisarem de maca, vai haver engarrafamento, ou melhor, já há.
E.ASr. Amílcar, não se importa de levantar um pouco, para sentar esta senhora, para fazer umas análises? O Sr Amílcar era um velhote todo janota, marido da Dona Zulmira, tinham vindo à urgência por razões pouco específicas.
Sr. AmílcarCom certeza, com certeza, Sr. Enfermeiro .
Finalmente subia para o internamento a senhora do lenço na cabeça, não sei se recordam, pelo menos era paciente. Volto-me para um doente que estava sob a responsabilidade de Neurologia, estava suado, com o pulso oscilante. Reúno o material, abro o armário, já não havia o soro pretendido, mais uma volta ao outro extremo para buscar. Tenho que falar com o médico sobre este doente. Onde está?! Não está… Neurologia tinha saído às 20h. Vou ter com o médico de Medicina interna.
E.ADoutor, está ali um doente de Neurologia que está mal.
Médico 3 – NÃO QUERO SABER! SE É DE NEUROLOGIA! Responde, mais uma vez aos berros, como se eu fosse o culpado.
E.A – Pois, mas Neurologia não está.. Só lhe estou a comunicar, faça o que entender.
Médico 3 – ISTO É INSUPORTÁVEL, AMANHÃ VOU FALAR COM O DIRECTOR CLÍNICO! Desabafa, um pouco menos irritado.
E.AMeta-lhe uma cunha para ver se metem mais enfermeiros, acrescento, a tentar descongestionar o ambiente.
E lá foi ele, a ferver, ver o doente…
Aproximava-se a hora do jantar e com ela o tormento da colega de Pediatria que teria que se tornar omnipresente, estando em dois sítios ao mesmo tempo – Pediatria e Admissão. Em dias de caos, dificilmente alguma área escapava, como é habitual Pediatria estava recheada, para passar por lá era preciso fazer uma gincana. Encontro a colega no meio de uma miscelânea de brufens, brinquedos, sondas, pais, seringas, tabuleiros, biberons, desenhos, enfim numa encruzilhada. Digo-lhe com lamento,
E.ATemos que dividir para ir jantar…
Colega da PediatriaPodem ir, é certo que não vá lá, isto está impossível.
Volto costas e com o colega da Admissão, tentamos limpar um pouco mais o painel, ao fim de 5 minutos percebemos que era impossível, tínhamos que ir, continuavam a chover pedidos.
Fomos jantar, desta vez não numa hora, mas em meia. O tema de conversa eram as aventuras e dissabores durante este e outros turnos, o costume, conversa de enfermeiro.
Voltamos ao Vietname, país muitas vezes designado em tempos de crise. Passo uma olhadela pelo painel, atraso superior a uma hora, 3 painéis repletos de pedidos, podia ser pior, naturalmente a colega de Pediatria mal tinha conseguido vir à Admissão, ou seja, 37 doentes tinham sido vigiados por uma equipa de… fantasmas. Tenho que render novamente a colega da Triagem que fica radiante por me ver. Começo a triar,
Final do episódio III

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A quebra de confiança


Parece que circulou pelos lados do reino ULSAM, uma Circular, passando o pleonasmo, que destituía um certo enfermeiro chefe do seu cargo devido a quebra de confiança perante os elementos da Direcção. Parece também que esta reforçou bem a ideia de que a Direcção de Enfermagem está em 2º plano, numa posição subalternizada.
Este novo nome para o nosso hospital - ULSAM, só me faz lembrar o nome de um Sultão árabe ULSAM SAID, por exemplo. Na maioria dos países árabes, ou reinos/monarquias/ditaduras, como lhe queiram chamar, não impera a democracia, o diálogo, nem muito menos o bom senso.
Bom senso foi o que faltou ao senhor que teve a brilhante ideia de distribuir esta circular pelo hospital. Como é possível?!
Não estou aqui a defender chefes, não faz parte das minhas prioridades, estou a atacar a falta de respeito e a falta de consideração entre indivíduos.
Enfermagem cada vez mais perde a sua autonomia. Vejo nos chefes autênticas marionetas que dançam pelos serviços ao dispor das direcções, mediante pressões exercidas por médicos, que não vão com a cara de determinado enfermeiro. Onde é que chegamos?!
Vou mas é escrever o 3º episódio de um dia na vida de um enf. na admissão, para me acalmar...

domingo, 17 de maio de 2009

Um dia na vida de um Enfermeiro da Admissão - Episódio II


Cenas do último capítulo,
Médico 1 – ENTÃO O DOENTE AINDA NÃO ESTÁ EM OBS ???!!!
Final do Episódio I

Episódio II (O post anterior é o 1º episódio)

E.AJá comuniquei ao maqueiro, mas está ocupado.
Médico 1Não quero saber, quero o doente em OBS já!
Ouvindo a gritaria, lá aparece outro maqueiro para levar o senhor. E assim se ocupa a única vaga em OBS, com mais 2 ou 3 candidatos.
Colega de turnoSão 18 horas, convém lanchar, já tou a desfalecer.
E.AVai lá, rápido, e pede pra me reservarem 2 croissants e uma empada de marisco.
Colega de turnoA sério?!
E.ANão! Tou a brincar! Duas empadas antes.
Familiar 1Sr. Enfermeiro, já chegaram as análises do meu pai?
E.AVá ao gabinete do médico e pergunte, as análises são com ele.
NeurologistaSr Enfermeiro preciso fazer não uma, mas duas P.L’s.
E.ADoutor, estou sozinho aqui, quando puder…
NeurologistaEu fico à espera na sala do chefe de equipa.
Vai ser bonito… Vou adiantando o painel, atraso passa uma hora.
Avio 5 utentes, lombalgias, cólicas abdominais, dor de garganta, etc.. poderei dizer aviar, porque actuo em série, como nas fábricas, mal dá pra falar com as pessoas. Chega a senhora da Gastro, não tenho lugar para ela em OBS, não está muito estável, e agora?! Tenho que passá-la para a frente, os colegas vão me comer vivo. Vejo uns sinais vitais, confirma-se. Faço uma nota à pressa, ponho o soro mais pingado, inicio uma transfusão de sangue e levo eu mesmo a senhora para a frente, pois tinha conseguido finalmente o maqueiro para me fazer o internamento que agora já deveria estar pronto há 4 horas, o da peixeira terá que esperar. Rezo para que o doente não leve nenhuma surpresa desagradável para os colegas lá de cima, senão serei trucidado.
E Rezo, Avé Maria, cheia de graça, livrai-nos dos nossos pecados e fazei com que as onze horas cheguem depressa, obrigado e Amén!
Durante a reza, chega mais um internamento, este de cirurgia, tratava-se de uma senhora que estava apenas há 9 horas na admissão, vestida de negro, lenço à cabeça, permanecia sentada, imóvel, num cadeirão. Tinha pedra na vesícula.
NeurologistaEntão enfermeiro! As minhas PL’s?! Não posso esperar mais!
E.AOlhe vamos lá… Seja o que Deus quiser, Ele Olhará por os doentes que cá ficam!
Começamos a P.L, não era fácil. Estávamos na Sala de Agudos (fora da Admissão), até que alguém interrompe,
Médico 2Onde está o enfermeiro da Admissão?
E.A Está a olhar para ele.
Médico 2Preciso de um enfermeiro na Admissão!! O seu colega?
E.AFoi lanchar.
Médico 2Então vocês entram às 16h e vão lanchar!?
Pensei em fazer ao senhor um ensino sobre a necessidade de uma alimentação saudável e intervalada, a importância do lanche na dieta do indivíduo, designadamente naqueles que trabalham a sério, mas apenas respondi,
E.ANão Doutor, entrámos às 15:30. O meu colega já deve estar na Admissão.
Lá se conseguiu a P.L, corro pró lanche, já estou atrasado, engulo as empadas em dois minutos e sigo para cima. Ao contrário da fama conhecida, os enfermeiros da urgência também comem em dois minutos.
Regresso, tenho que ir prá Manchester, apenas 1 utente para triar. A colega que lá estava ainda não tinha parado de atender pessoas, foge num ápice e em silêncio, talvez tivesse em transe.
Trio dois, trio três, tiro liro, . Aproveito e levo um doente para Ortopedia, o maqueiro das fichas estava a fazer outro serviço, ou não. Passo pela Admissão, o colega continuava na correria, o atraso surpreendentemente era de 30 minutos. Vou picar um jovem, tinha dores de cabeça. Plano tipo: Análises, paracetamol na veia e soro. Dilema: perco o meu precioso tempo a questionar o médico sobre a necessidade das análises, paracetamol na veia e soro, ou seja, todo o plano?! Para isso teria que questioná-lo 40 vezes, não podia ser… Se calhar tem tido vómitos, será esse o motivo.
E.AVou-lhe dar uma pica, tiro um pouco de sangue para análises e ao mesmo tempo deixo um soro, pode ser?
JovemSim, responde franzindo o sobrolho, como que a estranhar a necessidade.
E.AEntão também tem vómitos?
JovemEu não… Só me dói a cabeça… há dois dias.
Questiono-me, revoltado, se este e outros médicos saberão da existência da “circular” que diz que neste tipo de situações, sem que o doente tenha tido vómitos, é preconizado dar paracetamol comprimidos. Abro a gaveta, já não há sistemas de soro, vejo o maqueiro, peço delicadamente para me ir buscar. Espero 10, 20, 30 segundos, como diria a minha mãe, “manda e faz serás servido”, lá vou eu então procurá-los. Volto a Manchester, mais valia Londres, cinco doentes em espera. Ao terceiro regressa a colega, volto para a frente da batalha. Vejo o meu colega da admissão com cara de pouco amigos,
E.AEntão que se passa?
Final do episódio II

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Um dia na vida de um Enfermeiro da Admissão - Episódio I


Nota prévia,

Para quem não sabe, o enfermeiro da Admissão, actua numa sala minúscula, com 4 cadeirões, 1 marquesa, 4 macas mais o amontoado de macas e cadeiras que se emparelham numa parte de um corredor, que se estende talvez por 10 metros. Escusado será dizer que os cadeirões e macas são ocupados por utentes. Utentes que advêm das diversas especialidades médicas: Medicina, cirurgia, clínica geral e às vezes também Neurologia. Fazendo contas e alguém que me corrija se estiver enganado, passam pela admissão cerca de 60 a 70% dos utentes que fazem “ficha” no nosso serviço de urgência, isto para um enfermeiro e meio. Meio porque quase nunca estão lá dois enfermeiros permanentemente, pois têm que assegurar outras áreas e têm que comer… sim, porque ao contrário do que alguns médicos acham, os enfermeiros comem (mas comem no hospital, se houver uma catástrofe estão lá e não num Restaurante tipo Camelo).
Apetecia-me estender aqui em cálculos do número aproximado de utentes que passam pela admissão, para este 1,5 enfermeiro, mas convido alguém mais entendido em números a fazê-lo. Tenho ideia que diariamente fazem ficha de urgência 400 a 500 utentes, é só fazer as contas.
E agora a aventura propriamente dita,

15:40 Chego à Admissão
Que é isto?! Mais parece o Kosovo em tempo de crise.
Colega - Como é tão bom ver-vos! Deixem-me passar o turno que já estou saturada.
Enfermeiro da Admissão (E.A)Força!
ColegaCadeirão 1 temos o Sr. Costa, cadeirão 2 Sr. Fernando, dor abdominal, colheu, medicação, triagem, cadeirão 3 Susana, reacção alérgica, medicação…
E.AEi, ei, ei! Parou! Não nos vais passar 50 doentes, pois não?! Passa aquilo que está pendente.
ColegaPois… É capaz de ser melhor. Maca 3, Sr. Euclides aguarda urina, talvez seja preciso algaliar, maca 4 está pronta para subir para o internamento, espera um maqueiro há 2 horas. Passando para o corredor, ali na 3ª maca à esquerda à beira do carrinho está um senhor pronto para o Bloco. Sentada naquela cadeira à saída do wc está uma senhora que aguarda um enema, não se conseguiu, desculpem lá… temos um senhor no wc lá ao fundo que está a fazer um, chama-se Aníbal… quando sair… hoje temos feito fila prós enemas. Na 2ª maca à esquerda está a Dona Joaquina, por hemorragia digestiva, tem que ir a Gastro e depois OBS. Aqui esta maca em frente já devia ter ido para OBS, dor torácica, medicina, tudo feito, ainda faço uma nota antes de sair. Ali na 2ª maca à direita está um jovem, Pedro, por convulsões, consciente, assintomático, aguarda Neurologista. Na 3ª maca à direita está a Dona Prazeres, por febre e prostração, precisamos de um sítio para lhe fazer uma P.L. À entrada da Pediatria está o Jaime, e… acho que é tudo… Tudo o resto ou ainda não foi visto, ou espera. No painel chegamos a ter uma hora de atraso, agora temos 50 minutos, menos mal.
E.AOk… Bom descanso, vai lá. Bom, bora lá, vou tratando destas coisas pendentes, vais vendo o painel?! Dirigindo-me para o colega de turno.
Colega de turnoSim… Coragem, bora lá!
Ao telefone,
E.AOBS? Boa tarde! Vagas?
OBSTemos uma vaga, cama 13
Uii, azar… Vou ter seleccionar bem…
E.A - Sr. Maqueiro!! Chamo no corredor, Leve-me este senhor para OBS!
Maqueiro 1Estou de RX, tou com muito serviço.
E.AQuem pode então?
Maqueiro 1É o meu colega, mas foi à morgue com uma auxiliar.
Ok… começa bem. Bem vou algaliar ali o Sr Euclides que espera uma colheita há 3 horas. Auxiliar, onde estará?
E.ASr. Auxiliar?! Procuro pelo corredor
Maqueiro – Foi à morgue com o meu colega.
Óptimo! Bom, lá terei que algaliar sozinho… Algálias n.14?! Procuro na gaveta, não encontro, está aqui uma 12, siga. Água bidestilada? Não há, Sacos colectores?! Não há… lidocaína, compressas , ba lá temos aqui. Sigo para a Sala de Agudos, procuro o material em falta, não encontro água bidestilada, sigo para OBS, remexo no “armazém dos soros” Eureka! Encontrei um, finalmente vou conseguir algaliar! No caminho vejo um maqueiro,
E.A - Preciso que me leve aquele senhor para OBS!
Maqueiro 2Já me pediram aquele senhor pró Bloco, só tenho dois braços!
E.AOk! Não se enerve! Vá lá, depois não se esqueça.
Médico 1Sr. Enfermeiro, deixo aqui um internamento para Unidade AVC.
E.AOk… deixe ficar.

Vou mandar este jovem das convulsões pra frente. Maqueiro?! Não encontro… bom, levo eu senão fico sem espaço para por doentes. Passa por mim a voar o colega de OBS MACAS, passo-lhe o doente de soslaio. Regresso à base, vou preparar a senhora para a Unidade de AVC, vislumbro a Auxiliar, mudo de estratégia.
E.AVenha comigo, vamos ver um senhor que está a fazer um enema há x horas
Encontro o doente revoltado, indignado, queixava-se que já estava há mais de uma hora com a sonda no intestino.
E.APois… Tem toda a razão… tem que se queixar ao Administrador do Hospital a ver se contrata mais enfermeiros.

Volto e preparo a doente para o internamento, aproveitando a sorte de ter a Auxiliar comigo (encontrar uma auxiliar disponível é um achado nestes dias), vejo entretanto o meu colega da Admissão corado e já a bufar. Passados 5 minutos, consigo encontrar o maqueiro.
E.AEntão já me leva o senhor para OBS?!
Maqueiro 2Agora já não posso, pediram-me urgentemente a senhora para a Gastro, posso levar?!
E.ATou… ok vá lá, volte rápido, já começamos a ficar entupidos com internamentos.
Ajudo entretanto o colega nos cuidados que se multiplicam no painel do computador, parece uma árvore de Natal com tantas luzinhas vermelhas. O atraso voltou para uma hora.
Aparece de repente o médico 1 aos berros, à entrada da Sala de Admissão, perante todos os espectadores,
Médico 1 – ENTÃO O DOENTE AINDA NÃO ESTÁ EM OBS ???!!!
Final do Episódio I

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Reunião negocial 7 de Maio - Um desastre!

Nota à Comunicação Social

Reunião negocial 7 de Maio “UM DESASTRE”!

Depois de na última reunião, tendo em conta a forma como decorreu e as aproximações registadas, que a CNESE publicamente valorizou, esperava-se que esta reunião seguisse o mesmo caminho. Pelo contrário, o Ministério da Saúde recuou relativamente a algumas questões:
. nomenclatura do Enfermeiro Gestor - pretende encontrar uma nomenclatura redutora da exigência das funções que estes enfermeiros vão exercer,
· volta a propor a introdução de um artigo sobre os deveres dos enfermeiros quando já tinha aceite retirar tendo em conta que os deveres dos enfermeiros decorrem do seu Código Deontológico e do Regulamento do Exercício Profissional,

Quanto ao âmbito da aplicação da Carreira apesar de se aplicar a todos os enfermeiros, independentemente do vínculo, retira a GRELHA SALARIAL QUE NÃO SE APLICARÁ AOS ENFERMEIROS COM CONTRATO INDIVIDUAL DE TRABALHO o que significa que o Ministério da Saúde pretende continuar a patrocinar a exploração de mão
de obra qualificada que já hoje existe nos Hospitais EPE’s.

Quanto à Grelha Salarial, apesar de afirmar que continua a ponderar, mantém tudo na mesma, ou seja:

· mantém o inicio na posição 15 = 1201, 48 sem que, até ao momento, apresente qualquer justificação para a discriminação a que pretendem sujeitar os enfermeiros quando comparados com outras carreiras especiais e de Licenciados, por exemplo, Carreira de Inspector o inicio é na posição 20 =
1458,94 e Professores na posição 21 = 1510,43 euros
· 10 posições remuneratórias na categoria de Enfermeiro - poucos serão os que o conseguirão atingir já que para isso são necessários 50 anos de exercício profissional;
· A proposta de topo desta categoria é a posição 44 = 2694,75 passível de atingir ao final de 50 anos de serviço quando na actual carreira, ao final de 27 anos se atinge os 2228,00, ou seja, apenas menos 442 euros;
· Para os actuais enfermeiros chefes e supervisores mantém a proposta de permanecerem na actual grelha até que atinjam a remuneração do inicio da categoria de Enfermeiro Gestor (posição 44 da futura grelha) QUE NA REALIDADE NUNCA IRÁ ACONTECER ou o concurso, o que é profundamente INJUSTO tendo em conta que estes enfermeiros já se sujeitaram a concursos para ter acesso a qualquer uma daquelas categorias. Esta proposta só pode ser qualificada como INTELECTUALMENTE DESONESTA.

Neste contexto, de indefinição, de recuo e de ponderação “sem fim à vista”, o apelo para que os enfermeiros participem, no próximo dia 12 de Maio na Greve e na Manifestação que se deslocará do Ministério da Saúde para a residência oficial do Primeiro-Ministro, vai ser reforçado.

Lisboa, 7 de Maio 2009
Contacto: Enfª Guadalupe Simões – 91 945 89 83

terça-feira, 28 de abril de 2009

Crónicas estapafúrdias vol. VI - intoxicação mental


A crónica seguinte é igual a tantas outras. A parte estapafúrdia não é assim tão habitual, mas é usual. Quando chegar à parte estafafúrdia eu aviso.
Mais uma noite atribulada como quase todas as outras. Pouco passava da 1h quando vem para a Sala de Agudos a jovem Alice. A Alice desde os 12 anos que, segundo a irmã que a acompanhava, tenta pôr fim à vida.
Tinha tomado mais de meia centena de comprimidos de um antipsicótico qualquer. Eram quase meia centena de episódios pelos mesmos motivos, já a reconhecia, não era a primeira vez que a recebia.
Por muito frenético e impaciente que me torne nos turnos da noite, nestes momentos atingue-se-me sempre uma aura de compaixão e compreensão. Há quem defenda a estratégia da "agressividade" moderada enquanto lidamos com este tipo de situações, para tentar evitar futuras recaídas e novas tentativas de suicídio. Dar uma liçãozita de moral, deixar ficar a sonda após a lavagem e o carvão, como uma forma de dizer, Não faças isto outra vez! Tás a ver como é dificil ter essa sonda do nariz, vê lá não repitas.
E depois há quem defenda a estupidez em bruto, como já vão perceber. Eu não defendo nem uma coisa nem outra, apenas faço o que me compete, explico com calma o que vou fazer e faço. Tudo o resto vem depois; perceber os motivos, encontrar alternativas, será mais fácil com a pessoa acordada.
E agora a parte estapafúrdia:
Eu já tinha saído da sala, mas soube mais tarde (já vão perceber como) o que se passou:
Entra o Dr I (de Imbecil) e pergunta Então o que é que aconteceu? A Alice estava em coma, quem respondeu foi a irmã, que segurava o choro,
A minha irmã tentou suicidar-se.
Aí foi?! Para se matar atira-se de uma ponte ou põe-se em frente de um comboio.
Como?! Está a brincar comigo?! Pergunta a irmã incrédula, Se fosse um familiar seu gostava que falassem assim consigo?
Não, respondeu ele. Fim da conversa.
Eu continuava no vai vem quando vejo a irmã a chorar fora da sala, afinal não tinha conseguido segurar o choro, ele era ininterrupto tal como todas as outras vezes que a Alice, quase da mesma idade, tentava matar-se. Ela pressentiu-me e virou o olhar escondendo as lágrimas, eu consternado, fingi que não notei a sua mágoa e passo ligeiro... talvez ela quisesse ficar sozinha.
Passados uns dias, vem ter comigo a irmã da Alice. Educada, pede desculpa por incomodar, relembra-me a situação e agradece-me desde logo os cuidados.
Reconhecia-a de imediato, senti-me feliz por aquele agradecimento e perguntei como estava a irmã.
Passou o dia a chorar, estão a dar-lhe medicamentos no soro, respondeu. Posso fazer-te uma pergunta, espero não trazer-te problemas com isso. Tratou-me por "tu", não levei a mal.
Sim, claro.
Quem era o maqueiro que a dada altura esteve comigo e com a minha irmã? Fez-me a descrição dele, contando depois o que se tinha passado, achei aquilo um pouco estranho, não fazia a mínima ideia a quem ela se estava a referir. Continuou com a descrição, até que eu percebi,
Esse senhor não é maqueiro, é médico.
Bem me parecia, observou, Achei estranho ele estar a registar tensões no computador.
Enquanto me contava tudo isto os seus olhos voltavam a segurar o choro, disse-me, Eu sei que para vós (profissionais de saúde) que lidam com estas situações enumeras vezes, isto se calhar não é nada, não é motivo para reclamação, mas é minha irmã, sangue do meu sangue.
Se no início talvez compreendesse minimamente a estupidez do Dr. I, talvez pelo cansaço das horas seguidas, pelo stress que leva à hipoxigenação cerebral e consequentemente a actos estapafúrdios, passei logo a condenar profundamente.
Ela foi para casa pensar a reclamação.
As melhoras Alice

Nota: Alice nome fictício, carvão (para não prof. de saúde) - neutraliza a acção dos medicamentos ingeridos em excesso em casos de intoxicação

G.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Carreira de enfermagem no Iraque/Portugal

É disto que eu gosto II


Tal como tinha prometido vou dar algumas indicações sobre o passeio a Serra Amarela, que se vai realizar no dia 1 de Maio. Fui abordado por alguns colegas que gostavam de ir, mas ficaram assustados porque eu classifiquei o passeio com grau de dificuldade Médio/Alto. É verdade que não é nada fácil para quem não está preparado, mas o percurso permite fazer um trajecto alternativo. Os menos preparados vão fazer 7.5KM a subir, bom piso com vistas fabulosas, e depois é sempre a descer (É mesmo verdade).
Os restantes vão continuar até ao cimo da montanha, é para sofrer um pouco, mas vale pela paisagem, que se o tempo estiver bom é extraordinária. Os que quiserem podem vir ter a minha casa às 7.45h, posso eventualmente ter lugar para duas pessoas e respectivas bicicletas.
O ponto de encontro vai ser às 8.30h na Aldeia de Entre Ambos-os-Rios.

Quem vai de Viana pela IC 28, até P. da Barca, passa a ponte sobre o Rio Lima, e no primeiro cruzamento à esquerda apanha a estrada Nº203 que dá para Lindoso, anda 7.100Km. Depois da ponte de Entre Ambos-os-Rios para no cruzamento que dá para a Ermida. Aqui vamos combinar com o restaurante o almoço lá para as 16 h. Depois seguimos para o castelo do Lindoso, e entre as 9h e as 9.30 h, vamos dar inicio ao passeio.

Algum material necessário:
  • Bicla para BTT devidamente afinada, principalmente travões
  • Capacete, e luvas
  • Uma câmara de ar
  • Roupa que não seja muito leve pois pode estar frio.
  • Se possível levar corta vento
  • Água, barras energéticas e umas sandes. Mas se alguém quiser lavar algum "mimo" que esteja à vontade que não vai faltar transporte
  • Uma toalha e muda de roupa (banho não há)
  • Maquina fotográfica
  • Alguns trocos para o Almoço, e combustível da carrinha (motorista é de borla) e para extras
  • Boa disposição, e algum sacrifício.
O Guilherme de Carmo já confirmou que vai estar presente, e vamos ter o apoio da carrinha do Grupo BTT Rampinhas de Viana, conduzida pelo Grande amigo SIMAS e que tem a amabilidade de nos aturar nestas andanças. Penso que estão reunidas as condições para se fazer um bom passeio e convívio. Quem tiver vontade de aparecer, não tenha medo, ninguém vai ficar pelo caminho.

M. Abreu
Nota: Lamentavelmente, para minha infelicidade, não deverei estar presente. Mas nunca se sabe.
Desejo profundamente que este seja o inicio das muitas iniciativas de camaradagem e aventura.
O inicio nem sempre é fácil, mas daqui a uns meses decerto haverá mais participantes
G.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Ehhh toiro lindo!!


Ontem vi o debate na sic sobre o direito dos animais e realmente confirmo que, numa discussão, quem está a perder é sempre aquele que aumenta desnecessariamente o tom de voz e ao mesmo tempo baixa o nível…
Gostei particularmente de um jovem toureiro da irmandade Ribeiro Telles, (esses nobres cavaleiros que veneram o touro bravo) quando disse que só vai à tourada quem quer, exemplificou iluminadamente, Eu também não gosto da praia e não vai ser por isso que a praia há-de acabar… Tem razão sim senhor, eu cá sou a favor do aborto e não gosto de francesinhas, mas não vai ser por isso que hão-de acabar com as francesinhas. E também não gosto de idiotas, mas não vai ser por isso que os idiotas vão acabar. Não tenho palavras para descrever tamanha estupidez comparativa deste jovem "artista".
Dizem que tratam o touro como um rei, questiono-me assim, se o D. Afonso Henriques era frequentemente torturado, humilhado e sacrificado… bom, talvez… pelos mouros… Adiante.
A vedeta sénior Ribeiro Telles também não prima muito pela inteligência, assegurava que o touro não tinha qualquer sofrimento ao ser espetado sucessivamente, mesmo depois da confirmação científica do veterinário convidado, de que, de facto aquele espigão dói. Justificava que, se infligisse dor, o touro virava as costas à luta. Realmente o touro não é tão inteligente como este senhor, senão mandava aqueles sujeitos em collants darem uma curva, mas também não fica muito atrás deste outro iluminado que se baseia que a dor não existe, porque uma tourada envolve muita adrenalina, suficientemente capaz de camuflar a dor e o trauma. Será que terá sido touro noutra vida?! Pena é que ainda ninguém lhe explicou que os animais normalmente atacam para se defenderem.
A Maria Vieira, talvez por ser pequenina, teve pouco tempo de antena, mas disse uma das coisas mais inteligentes que ouvi naquele debate, Então e o meu sofrimento quando por erro apanho uma tourada na TV e vejo aquela barbarie?! E o do cavalo?! Dizem que é tradição, mas para mim tradição é a evolução humana, como também alguém comentou.
Apesar dos infelizes monumentos, ao menos orgulho-me de ter um presidente de câmara corajoso ao ponto de acabar com as touradas. Só em Viana!


Por Robin dos Hospitais

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Desabafo de um Enfermeiro


Tomei a liberdade de publicar este texto que chegou à minha cx de correio electrónica. Desconhece-se o seu autor, decerto não levará a mal.

A UMA BOA CARTA PARA FAZER CHEGAR À MINISTRA DA SAÚDE.

Como Enfermeiro, estive hoje de greve assegurando cuidados mínimos. Revejo-me integralmente nas reivindicações da classe. Mas pergunto-me como as outras pessoas vêm a nossa classe, a nossa profissão, a nossa posição na sociedade. Será que não seremos o parente pobre de um sistema de saúde que só tem olhos para outros interesses…

Sou licenciado. Ganho como bacharel ou nem isso. Deveria fazer 140h por mês e trabalho 160 ou mais. Não recebo nada por essas horas a mais, acumulando horas. Tenho colegas com quase 200h positivas, ou seja, 200 horas que prestaram serviço de qualidade e que não viram compensado o esforço, e porque não dizê-lo, dedicação à causa pública, fazendo os possíveis todos os dias para não faltar nada em termos de cuidados de enfermagem. Essas 200 horas deveriam ser pagas como extraordinárias, ou melhor ainda, deveriam ser realizadas por um dos 5mil enfermeiros que actualmente não tem emprego. No meu serviço devem-se mais de 2000h. No meu hospital há umas dezenas de serviços e a média é nalguns casos superior. Devem-se no país, talvez um milhão de horas de cuidados. O que daria trabalho a mais 7000 Enfermeiros. E já nem estou a falar no aumento do numero de enfermeiros por cada turno, senão o número teria de ser ainda maior. No meu serviço, para 32 doentes, podem estar apenas 2 enfermeiros de serviço. E ao contrário do que por vezes pensamos (os enfermeiros pensam) só temos 2 mãos, 2 olhos, 2 pernas e 1 cabeça. E não somos omnipresentes.

Sou contratado há mais de 4 anos, trabalhando um pouco à margem da lei com contratos de 6 meses 'miraculosamente' renovados. Mas será que algum dia deixarão de precisar realmente dos enfermeiros para termos um contrato tipo 'hipermercado' ou pior? Depois, nestes 4 anos vi o meu ordenado ser aumentado pouco mais de 40€, ou seja 10€ ano. Não subi nenhum escalão, grau, etc, porque simplesmente não há carreira de enfermagem definida, e como contratado a coisa complica-se. Qual é o meu estímulo todos os dias? Apesar de ainda adorar o que faço, trabalho porque preciso do €€€€. É frustrante pensar que todos os anos ao contrário do que deveria ser, ganharei menos. Deveria ganhar como licenciado e ganhar horas extras se me fossem exigidas. Eu que ganho 6,5€ à hora, bem menos que alguns funcionárias da limpeza (sem desprimor para o seu trabalho), não me pagam horas extra. Mas pagar 2500€ por 24h de um médico, já é moralmente e legalmente aceite. Deixemos de ser hipócritas. Sou mal pago. Sinto todos os dias na pele, o peso e o risco desta profissão, que não é dar injecções e medir tensões. Está redondamente enganado quem dessa forma pensa. Somos um elo central nas relações clínicas, um peça chave. Quem esteve internado e já precisou de nós saberá a que me refiro. Formação adicional é sempre condicionada pelos serviços e instituições, num país que quer ter miúdos com computadores por todo o lado, num país em que se não formos doutores não somos ninguém, mas apelar a uma formação contínua, tendencialmente gratuita, é só para outras classes. A qualidade afinal é para outros verem. O doente que se trame.

Se tenho um curso de suporte básico de vida, devo-o a mim. 200€ e tem de ser renovado em 2-3 anos.
Se tenho um curso de suporte avançado de vida, devo-o a mim. 400€ e renovado em 2-3anos.
Se quero ser especialista, terei de ter pelo menos mais 6000€ de propinas para pagar. E depois, esperar que me aceitem numa instituição, que abram concursos, que se desbloqueiem verbas, etc. Um médico depois de médico torna-se especialista praticamente sem ir à escola em 6 anos. A prática é quase tudo. Nós seremos muito diferentes? Se quero tirar uma pós-graduação ou mestrado, arrisco-me a queimar as pestanas e tirar tempo à família, não esquecendo mais 3000€ ou 6000€ de propinas. Em troca recebo mais 0€ ao fim do mês. É isto um estímulo ao desenvolvimento? É assim que a profissão está. É assim que nos sentimos.

sábado, 11 de abril de 2009

terça-feira, 7 de abril de 2009

Voltei pelos piores motivos…


É por tudo isto que este blog surgiu… Por tudo o que vejo, por tudo o que sinto, por tudo isto que me revolta e faz pensar “porque é que às vezes gostaria de deixar de ser enfermeiro”. A temática, o ponto de partida seriam as nossas lamentações, no fundo tudo isto que por aqui se vê não passa disso… lamentações reprimidas de fúria, revolta, indignação, ódio. A mágoa, a desolação ocupa-me a alma quando penso na nossa “classe” que, com o passar dos tempos constato cada vez mais, de classe tem muito pouca.
Mas de quem será a culpa? Na minha opinião é da crise existencial que há já 6 ou 7 anos assola enfermagem, desde que estagnámos, e porquê?! Porque deixamos. Perdemos autonomia, perdemos poder, identidade, ganhámos desalento, desmotivação, desesperança e depois?!… Depois todos se atacam, todos se odeiam.
O post anterior é a verdadeira análise da enfermagem actual, poderia e deveria ser tema para tese: Quem “cuida” afinal dos enfermeiros?!
Por tudo isto faço um apelo, transformem toda esta vossa energia negativa, em energia positiva, para colaborar no processo de mudança em enfermagem, que tanto exigimos. Sei que é difícil e revoltante viver num meio que cada vez mais se assemelha a um armário de cozinha. Mas se pensarem, um dia o mundo poderá ser bem mais justo, evitem esforços em vão ao remar contra os poderes e lobbys instalados, basta canalizar essa tal energia para a luta certa, a luta por uma carreira digna e acima de tudo autónoma, o resto virá depois...

G.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Quem cuida quem

Caro G.
Há uns tempos, no meu hospital, Ponte de Lima existiu uma Enf.ª Directora de Enfermagem, que ainda hoje deixa saudades, pelo seu empenho em ir de encontro às necessidades dos enfermeiros e dos doentes e não da Administração e dos seus números.
Ela sempre disse o seguinte: "Os enfermeiros, cuidam dos doentes, As Direcções de Enfermagem cuidam dos Enfermeiros da Instituição, A Ordem e Sindicatos cuidam da carreira, da dignificação da profissão, da regulamentação da mesma."
Agora, Os enfermeiros continuam a cuidar dos doentes com a certeza que cuidam melhor hoje do que antes, e irão cuidar amanhã melhor do que hoje. A Ordem continua a "regulamentar" a Classe (discutível, dependendo das perspectivas e das expectativas de cada um). Os Sindicatos continuam a tentar, bem, (na minha opinião) ou menos bem, (dependendo das perspectivas e das expectativas de cada um), a Carreira de Enfermagem!
Agora, as Direcções de Enfermagem, essas deixaram de cuidar do enfermeiros e passaram a cuidar dos Números, dos Conselhos de administrações, pois agora são por nomeação politica e não por eleição, tal como sabemos. Assim têm que provar a sua competência em gerir uma classe perante o CA e não mostrar a sua competência perante uma classe de enfermagem que agora anda defraudada, enganada, desiludida, e com uma questão sempre na ponta da lingua! "Quem cuida dos enfermeiros?
À Ordem, que diz que "regulamenta" a enfermagem, pedia que apenas cuide de nós de foma holística, tal como nos pede que cuidemos o doente da mesma forma, mas bem vistas as coisas, o grosso dos elementos da ordem são docentes com a carreira definida e salvaguardada, ou pertencem às direcções de enfermagem ou chefias e estas apenas cuidam dos interesses dos conselhos de administrações, APESAR DOS NUMEROS DIZEREM O CONTRÁRIO, deixando de cuidar dos enfermeiros! Excluo aqui alguns colegas que são chefes e que lutam para cuidar da equipa de enfermagem que tem! Tenho a sorte de ter uma assim, (enquanto não for mobilizado ou ela ser mobilizada)! A classe de enfermagem sempre foi uma classe de alguém que cuida de alguém de forma holística! É e foi o que nos ensinaram nas escolas! Porque será que esses profissionais não cuidam da enfermagem de forma holística?
Por Mais um que Enfermeiro Não Vota PS.