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terça-feira, 18 de junho de 2013

Mais tristes notícias...


Dezenas de enfermeiros e assistentes operacionais despedidos do Curry Cabral em Lisboa (ver notícia aqui)



Tentativas de suicídios disparam 50% no Alto-Minho entre 2011 e 2012, onde a Unidade de referência é a ULSAM (reportagem SIC)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Problemas psiquiátricos aumentam nos enfermeiros


Tenho reparado num fenómeno muito preocupante para a enfermagem e por inerência, para a população em geral. Nos últimos anos aumentaram significativamente os "casos psiquiátricos" nos enfermeiros. Não é preciso muitas investigações e estatísticas para chegar a esta conclusão, está aos nossos olhos.
Vemos enfermeiros em estados de depressão, cabisbaixos e deprimidos, outros em estados de "negação crónica", onde tudo está sempre mal, onde um simples diálogo com quem quer que seja, será uma discussão, um conflito, outros em estados de loucura... loucura mesmo (*); vemos baixas prolongadas e recorrentes e eu questiono-me, quando é que chegará a minha vez?? Sim!... Não tenham dúvidas que há uma grande probabilidade de chegar a nossa vez, não tenham dúvidas que com o aumento dos anos de serviço, aumentam as probabilidades de enlouquecer-mos. Até aqueles que nós vemos como exemplo da pureza e integridade mental não escapam.
Temos uma profissão de desgaste rápido, de risco e absentismo elevados e todas estas más notícias para a profissão (desde há uns anos a esta parte), não ajudam em nada para a harmonia, paz de espírito, qualidade de trabalho, satisfação e motivação profissional que tanto se deseja e necessita, em enfermagem... e não só.
Fico preocupado porque penso demasiadas vezes que a minha sanidade mental enquanto profissional de saúde, não vai ser eterna. Fico preocupado porque custa-me ver estes enfermeiros doentes a "cuidarem" de outros doentes.

Vocês já pensaram por que é que rapidamente esgotam os stocks de comprimidos de diazepan no Serviço de Urgência??? Ok, o povo também anda a enlouquecer e muitos são prescritos, mas muitos outros vão para consumo da casa, para consumo próprio de enfermeiros e médicos. 
Posto isto, deixo-vos uma questão, 
Como anda a vossa sanidade mental? 


(*) loucura mesmo é quando não se bate mesmo nada bem da cabeça, com aqueles comportamentos a razar o  obsessivo-compulsivos e/ou paranóico, para ser mais científico.

sábado, 18 de setembro de 2010

A Saúde mental dos portugueses

Transcrição do artigo do médico psiquiatra Pedro Afonso, publicado no Público, 2010-06-21

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.
Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.
Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.
E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.

Pedro Afonso
Médico psiquiatra

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Os desabafos de um enfermeiro açoriano


Recebi há uns tempos um email de um colega dos Açores, que achei que devia partilhar convosco. Dizia o seguinte:
Boas!
É com admiração que lhe envio este email... acabei de ler praticamente todos os posts do seu blog e traduziu por palavras tudo o que penso. Gostaria de desabafar exactamente com a mesma pinta que o faz... incrivel! Vou começar por me apresentar... chamo-me (retirado a pedido do autor) e sou enfermeiro há (retirado a pedido do autor) (jovem ainda nestas andanças e no entanto já "farto" da muita mer** que vejo todos os dias). Trabalho numa instituição privada, de assistência psiquiátrica há quase (retirado a pedido do autor) anos...
Residente nos Açores, natural de (retirado a pedido do autor). Tirei o meu curso cá e acabei por cá ficar por opção e necessidade. Na altura aqui, ainda haviam garantias, mas actualmente o quadro está idêntico ao do continente... EPE's, contratos precários, desemprego em enfermagem e a minha antiga escola continua a formar pessoal, como o padeiro às 3 da manhã... é só meter no forno!
Iniciei a minha actividade profissional numa (retirado a pedido do autor)
Vim para (retirado a pedido do autor) cheio de sonhos e ilusões, pensando que local igual ao anterior não existia e enganei-me! Estou no quadro, e dou me por muito "feliz" por estar numa situação que muitos invejam actualmente. No entanto, sinto me completamente frustrado!!
Estou a fazer Noite e estou sozinho como enfermeiro no serviço. Tenho aqui junto a mim, um AAM a passar pelas madornas e outro noutra unidade a fazer provavelmente o mesmo.
Tenho agora sobre a minha responsabilidade cerca de 170 utentes (ou clientes, como dizem agora), distribuidos por 2 Unidades ( Agudos e Crónicos), num edificio com 4 pisos distintos (o edificio está estruturado quase como um labirinto), 1 deles sem acesso por elevador, apenas escadarias. Grande parte dos utentes são idosos, com patologias associadas à idade, além da doença psiquiátrica que os votou à institucionalização. Estou sozinho... rezando para que tudo corra bem!
Os turnos da Manhã, são assegurados por 2 enfermeiros em cada unidade, os turnos da tarde por 1 enfermeiro por unidade e o turno da noite, apenas 1 enfermeiro para as 2 unidades (Segundo a perspectiva de quem só vê papeis, à noite os doentes dormem, pelo que não se justifica estar a pagar a 2 enfermeiros, no minimo, para assegurar o serviço). Há uns meses, fizemos pressão ao nosso director de enfermagem para colocar mais um enfermeiro à noite, e a resposta foi negativa, pois não havia orçamento para admitir mais um enfermeiro. Justificamos o porquê da nossa exigencia, não só baseados no rácio, mas nas necessidades especificas dos utentes e rotinas associadas ao turno da noite... mas não valeu de nada... não havia dinheiro. Mas houve dinheiro para colocar uma senhora licenciada em recursos humanos (que deve ganhar o mesmo ou mais que eu), sentada no seu gabinete (com melhores condições que o nosso - que nem uma janela tem para arejar), para tratar das férias do pessoal e burocracias associadas, das quais nada percebo. Com certeza que é muito mais importante garantir que o pessoal pica o ponto a horas certas, tira os dias certos de férias (sem prejuizo para a instituição), do que garantir bons cuidados de enfermagem aos utentes internados nesta casa.
A minha rotina nas noites, é sempre a mesma: Entrar a rezar para que tudo corra bem e que nenhum utente passe mal ou morra no meu turno, ir às 2 da manha fazer ronda, mudar 30 fraldas com um auxiliar que quer despachar serviço, pois tem que ir dormir, assim, não posso tar cá com caganças de posicionar correctamente, esticar devidamente os lençois, e ficam lixados se peço ajuda para algo que não seja o habitual (só e estritamente mudar fraldas de qualquer jeito e feitio). Rondas aos utentes "independentes" faço sozinho se quiser. Nas rondas piso "escarros" de doentes, urina, fezes... faço acrobacias para me manter de pé e não partir a cabeça...
Às 6:30 começam as higienes dos utentes. Os pobres coitados que no fundo são acamados, são arrastados para o WC sem condições, e lavados à pressão, pois às 7 horas quando entram mais dois auxiliares, os 8 "utentes de cadeira de rodas" já tem que estar aprumadinhos, senão temos o caldo entornado. Às 7h entram uns quantos utentes despidos para os balneários (os considerados "independentes", mas apenas porque se seguram de pé) e lá estou eu a levar uma esfrega até ás 7:30. Durante essa hora, não há enfermeira para ninguém (foi-nos imposto auxiliar-mos nos banhos durante a noite... nós é que auxiliamos o AAM e não o contrário), só e apenas no balneário. Se estiverem a morrer, venham ter comigo!! Como já só tenho meia hora, e se não houver nenhuma complicação, tenho que ver Sinais Vitais necessários, administrar terapêutica, posicionar e mudar fralda a quem fica na cama, fazer notas para com sorte sair antes das 8:30 do serviço com o turno passado. Sinto me orgulhoso?! NÃO!!!! Tenho vergonha de ter tirado uma licenciatura para trabalhar nestas condições, para ganhar uns trocos no fim do mês... sim uns trocos!! Não há dinheiro que pague a minha preocupação por estar sozinho e a responsabilidade que carrego nos meus ombros de 170 pessoas... sim, 170 pessoas!!! Presto cuidados de qualidade ?? NÃO!!! simplesmente não é possivel... faço o que posso!
E isto é só o fio da meada... Agora tenho que ir dar banhos...
Muito obrigada pela disponibilidade... ler o seu blog inspirou me. Abri a boca e não me calei... desculpe!
Continuação de um bom trabalho!!
Enf. xyzxyz

NOTA: Alguns elementos foram retirados deste post a pedido do autor. Além de tudo isto que acabaram de ler, parece que naquele local há perseguição tipo PIDE, pois o colega manifestou-me o seu receio em ser despedido, pois o meio é pequeno e facilmente identificariam o autor. O seu discurso em nada foi modificado. Peço que reflitam no que acabam de ler. A minha vontade era fazer uma denuncia à Ordem, mas só o colega é que se deve pronunciar quanto a isso.
Recuamos 2 séculos no tempo.. a foto que imaginei logo para este post seria uma dos judeus nos campo de concentração, mas depois reconsiderei 

terça-feira, 28 de abril de 2009

Crónicas estapafúrdias vol. VI - intoxicação mental


A crónica seguinte é igual a tantas outras. A parte estapafúrdia não é assim tão habitual, mas é usual. Quando chegar à parte estafafúrdia eu aviso.
Mais uma noite atribulada como quase todas as outras. Pouco passava da 1h quando vem para a Sala de Agudos a jovem Alice. A Alice desde os 12 anos que, segundo a irmã que a acompanhava, tenta pôr fim à vida.
Tinha tomado mais de meia centena de comprimidos de um antipsicótico qualquer. Eram quase meia centena de episódios pelos mesmos motivos, já a reconhecia, não era a primeira vez que a recebia.
Por muito frenético e impaciente que me torne nos turnos da noite, nestes momentos atingue-se-me sempre uma aura de compaixão e compreensão. Há quem defenda a estratégia da "agressividade" moderada enquanto lidamos com este tipo de situações, para tentar evitar futuras recaídas e novas tentativas de suicídio. Dar uma liçãozita de moral, deixar ficar a sonda após a lavagem e o carvão, como uma forma de dizer, Não faças isto outra vez! Tás a ver como é dificil ter essa sonda do nariz, vê lá não repitas.
E depois há quem defenda a estupidez em bruto, como já vão perceber. Eu não defendo nem uma coisa nem outra, apenas faço o que me compete, explico com calma o que vou fazer e faço. Tudo o resto vem depois; perceber os motivos, encontrar alternativas, será mais fácil com a pessoa acordada.
E agora a parte estapafúrdia:
Eu já tinha saído da sala, mas soube mais tarde (já vão perceber como) o que se passou:
Entra o Dr I (de Imbecil) e pergunta Então o que é que aconteceu? A Alice estava em coma, quem respondeu foi a irmã, que segurava o choro,
A minha irmã tentou suicidar-se.
Aí foi?! Para se matar atira-se de uma ponte ou põe-se em frente de um comboio.
Como?! Está a brincar comigo?! Pergunta a irmã incrédula, Se fosse um familiar seu gostava que falassem assim consigo?
Não, respondeu ele. Fim da conversa.
Eu continuava no vai vem quando vejo a irmã a chorar fora da sala, afinal não tinha conseguido segurar o choro, ele era ininterrupto tal como todas as outras vezes que a Alice, quase da mesma idade, tentava matar-se. Ela pressentiu-me e virou o olhar escondendo as lágrimas, eu consternado, fingi que não notei a sua mágoa e passo ligeiro... talvez ela quisesse ficar sozinha.
Passados uns dias, vem ter comigo a irmã da Alice. Educada, pede desculpa por incomodar, relembra-me a situação e agradece-me desde logo os cuidados.
Reconhecia-a de imediato, senti-me feliz por aquele agradecimento e perguntei como estava a irmã.
Passou o dia a chorar, estão a dar-lhe medicamentos no soro, respondeu. Posso fazer-te uma pergunta, espero não trazer-te problemas com isso. Tratou-me por "tu", não levei a mal.
Sim, claro.
Quem era o maqueiro que a dada altura esteve comigo e com a minha irmã? Fez-me a descrição dele, contando depois o que se tinha passado, achei aquilo um pouco estranho, não fazia a mínima ideia a quem ela se estava a referir. Continuou com a descrição, até que eu percebi,
Esse senhor não é maqueiro, é médico.
Bem me parecia, observou, Achei estranho ele estar a registar tensões no computador.
Enquanto me contava tudo isto os seus olhos voltavam a segurar o choro, disse-me, Eu sei que para vós (profissionais de saúde) que lidam com estas situações enumeras vezes, isto se calhar não é nada, não é motivo para reclamação, mas é minha irmã, sangue do meu sangue.
Se no início talvez compreendesse minimamente a estupidez do Dr. I, talvez pelo cansaço das horas seguidas, pelo stress que leva à hipoxigenação cerebral e consequentemente a actos estapafúrdios, passei logo a condenar profundamente.
Ela foi para casa pensar a reclamação.
As melhoras Alice

Nota: Alice nome fictício, carvão (para não prof. de saúde) - neutraliza a acção dos medicamentos ingeridos em excesso em casos de intoxicação

G.