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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Só mais uma coisinha Sr Bastonário...


Depois de rever o último post, um dos mais visualizados desde sempre no PDDSE (agradeço à página "Enfermeiros" do Facebook), chego a conclusão que ainda ficou algo por dizer ao Sr Bastonário.
Além disso, parece que esta discussão sobre a Triagem de Manchester (TM), vai continuar.
No programa da manhã da TVI, ouvimos mais um médico a criticar a TM.
Pareceu-me não ser tão ignorante como o Sr Bastonário da Ordem dos médicos (OM), mas mesmo assim deixou claro que a TM seria melhor, se fosse feita por médicos. Seria uma TM onde, de uma forma muito rápida (!!!) o doutor conseguia perceber a história clínica e fazer uma avaliação geral do doente, para assim decidir para onde deveria encaminhá-lo! Fantástico! Apenas se esqueceu, o coitado, que tem 1 ou 2 minutos para triar e que tem 15 ou 20 pessoas lá fora à espera. Ia ser bonito. 
A resposta surgiu por parte de uma enfermeira convidada (peço desculpa, mas não anotei nomes de ninguém) e, apesar de não ter tido possibilidade de ouvir tudo o que disse, pelo menos achei que tinha mais argumentos do que o nosso Bastonário da OE. Só torci o nariz quando a senhora disse que as pessoas vão à Urgência para serem atendidas por médicos e não por enfermeiros. O que seria dos doentes se nós não os atendêssemos?... bom saiu-lhe mal, talvez fosse a pressão da situação.
A questão do desemprego dos médicos, como justificação para o ataque do Bastonário da OM, veio à baila e, de facto dou razão a um anónimo que dizia que, tal como os enfermeiros, os médicos estão a começar a sobrar em Portugal e agora procuram desesperadamente agarrar funções, que no passado não lhes interessavam para nada.

Finalizando então o Memorando, para o sr Bastonário e seus colegas,

O que o Sr. Bastonário da OM se esqueceu de referir é que há colegas seus que medicam e pedem exames sem ver o doente! Que medicam e pedem exames, apenas com a descrição da queixa efectuada pelo enfermeiro da TM! 
Questiono então, se a TM é mal feita pelos enfermeiros, como é que alguns dos seus colegas a valorizam de tal forma, ao ponto de nem olharem para o doente para decidir o que é que lhe vai ser feito!!??
Fazendo um pequeno desvio, o Sr Bastonário que me explique também, o que dizer a um doente que nos diz: "Vai-me dar uma medicação, Sr enfermeiro? Mas eu ainda não fui visto pelo medico! Só passei pelo enfermeiro da triagem!! Hilariante não? Mais uma vez, quem dá a cara a situações embaraçosas, são os enfermeiros

Sr Bastonário, Sr Ministro lanço-lhes um desafio: meio ano de TM feita por enfermeiros e outro meio ano feita por médicos.
No final vamos analisar detalhadamente os resultados, reclamações, intercorrências, tempos de espera, erros forçados e erros não forçados (como no ténis) e depois falámos.
Mais uma vez e para que fique claro, os enfermeiros não se opõem que os médicos façam TM, opõem-se é que a façam, enxovalhando e tentando correr com os enfermeiros.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Contrariedades na Manchester

Partilho inteiramente da ideia de que quando é necessário averiguar algo que terá corrido mal, deve-se começar, passando o pleonasmo, pelo início. Num serviço de urgência, esse início é na triagem de Manchester, o local onde se encaminham os doentes, estabelecem prioridades, é onde se efectua uma PRÉ-TRIAGEM.
Não partilho de todo da ideia de que quando algo terá corrido mal, se procure sistematicamente tentar responsabilizar o enfermeiro que faz a PRÉ-TRIAGEM, facto que por demasiadas vezes tenho verificado.
A triagem de Manchester não é um "mecanismo" perfeito, é falível e tem as suas lacunas, tal como já se comprovou. Não passa apenas de um algoritmo, de uma forma prática e rápida de fazer uma PRÉ-TRIAGEM, mediante sinais e queixas, que tanto podem estar exacerbados como contidos. Funciona muitas vezes dependendo da intuição do enfermeiro e está condicionada pela elevada pressão externa a que estamos sujeitos.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Curtas estapafúrdias Vol VIII - Demora muito???

Na triagem de Manchester (local do Serviço de Urgência onde o enfermeiro ouve a queixa do utente e de seguida encaminha-o)...



Mãe da criança – Bom dia, o meu filho tá com tosse há mais de uma semana… e não anda a comer muito bem.
Enfermeiro – Vamos ver a temperatura.
Mãe da criança – Não tem tido.
Enfermeiro – Confirma… 36,8ºc. Mais algum problema?
Mãe da criança – Não… de resto ta tudo.
Enfermeiro – Ok, pode ir. Aguarda na sala de espera de pediatria.
Mãe da criança – Vai demorar ??? É que ao meio-dia tenho lá gente em casa a almoçar.


Enfermeiro – Bom dia, então o que se passa?
Utente – Sr. Enfermeiro, estou com tosse, dor no estômago, só me apetece, desculpando o termo, vomitar.



Enfermeiro – Bom dia, de que se queixa o senhor?
Filha do senhor - O meu pai tem andado mal, tem convulsões na garganta.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Curtas estapafúrdias V - Distúrbios do aparelho genital


Na triagem...

Jovem - Tive com a minha namorada a hfbjfhiqi e forcei demais o blaqnec e agora tenho 2 talos no blaqnec e doí-me...
Enfermeiro - Quer dizer que teve relações com a sua namorada e agora tem uma lesão no pénis?!
Jovem - Nãaoo! É na piça mesmo!

É por isso que este país não anda pra frente, com tanta ignorância. Também alguém já mais velho queixou-se igualmente de distúrbios do aparelho genital.,

Alguém já mais velho - Sr. Enfermeiro, tenho dores (com sua licença) nos colhões

Ao menos foi educado... podia ser pior

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Institucionalizado



Há uns dias chegou uma senhora idosa à Urgência, a carta de referência dizia "problemas na institucionalização". Aparentava uma demência e não se sentia bem no lar, não estava no seu habitat natural, não estava "institucionalizada". Esta é uma das palavras que figura no meu top ten de palavras mais aterradoras. Uma outra é infanticídio... outras virão.

Quando surgiu este episódio da senhora que "não estava institucionalizada", veio-me logo à memória um dos filmes da minha vida, um filme de baixo orçamento que é considerado por muitos um dos melhores filmes de sempre - Os condenados de Shawshank. Isto porque lembrei-me de imediato daquele senhor que vivia há mais de 40 anos na prisão, este sim, estava "institucionalizado" acabando por se suicidar quando libertado. Morgan Freeman, temendo estar também a ficar "institucionalizado", demonstra aqui, nesta grandiosa cena, a sua total indiferença pela decisão de continuar preso ou ser solto. A meu ver uma das melhoras representações de sempre, que nunca esquecerei e que me fez ver o filme possivelmente e sem exagerar, umas 4 ou 5 vezes ( só é pena não ter encontrado legendado). Quem não viu recomendo, apenas contei uma pequena parte, que por acaso é previsivel, mas nada mais conto, vejam apenas, o que não acredito que ainda não o tenham feito.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O senhor que esperava por otorrino


Nota prévia: Convém mais uma vez relembrar que esta e todas as outras histórias/crónicas são baseadas em factos reais e que todos os nomes nelas contidos são fictícios. Isto para não se pôr em causa questões de sigilo profissional, como de forma injusta e injustificável se mencionou num anterior comentário. Será importante realçar que esta e todas as outras histórias nunca têm como objectivo denegrir a imagem de quem quer que seja, (muito menos a dos utentes). Apenas pretendem alertar e consciencializar o leitor para situações de funcionamento inadequado, neste caso, dos serviços de saúde. Todos sabemos que os mesmos dificilmente serão perfeitos, mas podemos tentar que sejam cada vez melhor. Se qualquer uma destas histórias contribuir de alguma forma para isso, tanto melhor.
Acabou o turno, saio desgastado após triar 207 utentes. Triar é um trabalho mecanizado, de rápida sistematização, comparável ao de um operário fabril. Às vezes, quando vejo chegar as “fichas” em catadupa, penso, maldita a hora que a triagem foi atribuída aos enfermeiros, mas tenho que reconhecer que é útil e que os enfermeiros serão os mais aptos para tal.
Foi um pequeno desabafo, o que me traz aqui nem é isso, voltando atrás.
Acabou o turno, passo em passo rápido pelo corredor, olho para o lado e reparo com surpresa e comoção no senhor que esperava por otorrino.
O senhor Jorge tinha chegado às 9h, tal como lhe tinha sido indicado no dia anterior. Nesse mesmo dia anterior também esperava por otorrino e esperou… todo o dia. Fazia parte daqueles doentes que são encostados, atirados para o esquecimento. Doentes que chegam para uma especialidade que não está presente ou até nem sequer escalada, ficando assim atribuídos a uma outra que está em presença física e que pouco ou nada se vai interessar. Justo será mencionar que o excessivo volume de doentes neste (e outros) Serviço de Urgência agrava esta situação, pois os profissionais de saúde dificilmente conseguem atender aqueles utentes que estão sob a sua responsabilidade directa, quanto mais os outros. Foi outro pequeno desabafo, continuarei com a história que me fez meditar.
O senhor Jorge tinha cancro da laringe, o que consequentemente lhe provocava uma alteração de imagem. O que me despertou atenção e o sentido de reflexão, foi a sua evidente serenidade, como vos disse, esperava por otorrino há já um total de 24 horas, eu repito, 24 horas de espera e continuava sentado no corredor apinhado, com o olhar distante e de aparente indiferença ao seu infortúnio e espera prolongada. Parecia esse mesmo pescador tranquilo no paredão sob o reconfortante pôr-do-sol, aguardando paciente, o morder do anzol.
Agora questiono-me, porque outros de saúde plena, chamam uma ambulância sem necessidade, exigem atendimento imediato e destabilizam o ambiente pelo gosto do protesto sem razão?!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Um dia na vida de um Enfermeiro da Admissão - Último episódio


Cenas do último capítulo,
(...) Tenho que render novamente a colega da Triagem que fica radiante por me ver. Começo a triar,
Episódio IV
Utente ySr Enfermeiro, desde a semana passada, enquanto estava a ver o festival Eurovisão da canção, que tenho um formigueiro neste braço e uma pontada nas costas…
Seguro a gargalhada, a Triagem às vezes também nos proporciona momentos deliciosos. À sexta triagem entra a vmer repentina para a sala de emergência, soa o alarme estridente, dirijo-me à sala e levo já na mão uma pulseira vermelha. Devido a esta hora crítica do jantar, apenas um colega se encontrava na sala, juntamente com a equipa do carro amarelo. Passados segundos tinham chegado os médicos. Senti-me no dever de ficar a ajudar, afinal de contas enfermeiros de urgência são para estas situações. Tratava-se de uma senhora de 80 anos, que de repente, em casa, tinha-se lembrado de deixar de respirar. Durante 20 minutos tentamos reverter o inevitável, o desfecho não tinha sido favorável. Volto à triagem, 20 minutos ausente, 20 utentes em espera.
E.ABoa noite! Então que se passa?
Utente XDoí-me a barriga.
E.ADesde quando?
Utente XDesde ontem, mas hoje já estou melhor.
ENTÃO QUE RAIO ESTÁ CÁ A FAZER??! Imaginei dizer. Aquele principio de que, quando temos uma dor, tentámos resolver em casa, se melhorarmos, tanto melhor, se as coisas piorarem é que começamos a pensar em ir ao médico, a esta (e a outras) pessoa(s) não se aplicava, ou melhor, aplicava-se ao inverso.
Mais umas queixas e regressa a colega da Triagem, não lhe deixo um panorâma muito agradável, explico que aconteceu algo (im)previsto. Preparo-me para o último sprint, 3 internamentos em espera, 2 folhas de terapêutica de doentes que iam ficar em OBS…Macas, ou seja, um “OBS” onde se encostam os doentes em maca a uma parede, que muitas vezes parecia interminável. A cada um destes é atribuída uma letra, seguindo o abecedário, já ia na H. Era comum a competição para ver quem tinha tido mais macas, havia uns tantos enfermeiros que já se gabavam, por ironia, de ter chegado a ter a Maca B’, ou seja, tinham dado a volta ao alfabeto.
Um dos internamentos tinha ficado esquecido na secretária dos cirurgiões somente há 5 horas. Bem achava estranho aquele doente que se encontrava na Twilight Zone, nem num lado, nem no outro, mas também, mea culpa talvez, não me tinha dado ao trabalho de ir ver o que é que se passava com ele, talvez por permanecer calmo, indiferente à confusão em seu redor, talvez fosse daquele tipo de doentes tão crivado de hospitais, que se tornara imune à impaciência da espera. Tratava-se de um doente reencaminhado do Hospital de S. João, nem se justificava por ali passar, nada foi feito por enfermagem, apenas uma nota de circunstância.
Seria uma sorte, com a quantidade de exames em espera, conseguir um maqueiro para levar pelo menos um internamento antes das 23h, hora de passagem de turno. O meu colega continuava tarefeiro, no trinómio análises/soro/medicação, ao mesmo tempo que barafustava com a lentidão dos computadores. Com a impaciência, clicava sucessivamente até que davam o tilt. Esta Admissão mais parecia uma mini-central de computadores arcaicos que bloqueavam sistematicamente devido ao uso ininterrupto, o ruído que emitiam era oco e desgastante. O sistema Alert (programa criado para coordenar todos os procedimentos num SU) anda a 100 rotações por minutos, os enfermeiros da Admissão andam a 200, claro que dariam o pifo.
E.AEntão leva-me este internamento, se faz favor? Está prontinho!
Maqueiro 2Está bem. Onde está o processo?
Uii, estarei a ouvir mal?! Entrego-lhe o processo surpreendido e digo adeus e as melhoras ao senhor que estava esquecido. E assim terminava o tempo dos internamentos, senão ouvíamos das boas dos colegas lá de cima. Pego numa das folhas de terapêutica, escolho a de baixo, provavelmente a primeira a ser deixada na banca. Um senhor que tinha tido um pós-operatório complicado, tinha estado nos Intensivos e depois terá tido uma alta precoce. Continuava a perder sangue sabe-se lá por onde. Onde iria ficar? “OBS” Macas.
Tentámos numa última arfada, deixar o painel menos cintilante. Conseguimos finalmente atingir a meta, desta feita seria um atraso de 20 minutos. Nada mau…
Chega o colega da noite para receber o turno.
E a história termina da mesma forma que tinha começado,
E.AComo é tão bom ver-te! Deixa-me passar o turno que já estou saturado.
Casa, banho, cama… para a minha princesa.
Princesa - Então amor trabalhaste muito?!
E.A - Trabalhei…
Princesa - Também respondes sempre o mesmo, e adormece no meu peito.
FIM
Retiro-me com a escolha do Dj, espero que gostem,

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Um dia na vida de um Enfermeiro da Admissão - Episódio I


Nota prévia,

Para quem não sabe, o enfermeiro da Admissão, actua numa sala minúscula, com 4 cadeirões, 1 marquesa, 4 macas mais o amontoado de macas e cadeiras que se emparelham numa parte de um corredor, que se estende talvez por 10 metros. Escusado será dizer que os cadeirões e macas são ocupados por utentes. Utentes que advêm das diversas especialidades médicas: Medicina, cirurgia, clínica geral e às vezes também Neurologia. Fazendo contas e alguém que me corrija se estiver enganado, passam pela admissão cerca de 60 a 70% dos utentes que fazem “ficha” no nosso serviço de urgência, isto para um enfermeiro e meio. Meio porque quase nunca estão lá dois enfermeiros permanentemente, pois têm que assegurar outras áreas e têm que comer… sim, porque ao contrário do que alguns médicos acham, os enfermeiros comem (mas comem no hospital, se houver uma catástrofe estão lá e não num Restaurante tipo Camelo).
Apetecia-me estender aqui em cálculos do número aproximado de utentes que passam pela admissão, para este 1,5 enfermeiro, mas convido alguém mais entendido em números a fazê-lo. Tenho ideia que diariamente fazem ficha de urgência 400 a 500 utentes, é só fazer as contas.
E agora a aventura propriamente dita,

15:40 Chego à Admissão
Que é isto?! Mais parece o Kosovo em tempo de crise.
Colega - Como é tão bom ver-vos! Deixem-me passar o turno que já estou saturada.
Enfermeiro da Admissão (E.A)Força!
ColegaCadeirão 1 temos o Sr. Costa, cadeirão 2 Sr. Fernando, dor abdominal, colheu, medicação, triagem, cadeirão 3 Susana, reacção alérgica, medicação…
E.AEi, ei, ei! Parou! Não nos vais passar 50 doentes, pois não?! Passa aquilo que está pendente.
ColegaPois… É capaz de ser melhor. Maca 3, Sr. Euclides aguarda urina, talvez seja preciso algaliar, maca 4 está pronta para subir para o internamento, espera um maqueiro há 2 horas. Passando para o corredor, ali na 3ª maca à esquerda à beira do carrinho está um senhor pronto para o Bloco. Sentada naquela cadeira à saída do wc está uma senhora que aguarda um enema, não se conseguiu, desculpem lá… temos um senhor no wc lá ao fundo que está a fazer um, chama-se Aníbal… quando sair… hoje temos feito fila prós enemas. Na 2ª maca à esquerda está a Dona Joaquina, por hemorragia digestiva, tem que ir a Gastro e depois OBS. Aqui esta maca em frente já devia ter ido para OBS, dor torácica, medicina, tudo feito, ainda faço uma nota antes de sair. Ali na 2ª maca à direita está um jovem, Pedro, por convulsões, consciente, assintomático, aguarda Neurologista. Na 3ª maca à direita está a Dona Prazeres, por febre e prostração, precisamos de um sítio para lhe fazer uma P.L. À entrada da Pediatria está o Jaime, e… acho que é tudo… Tudo o resto ou ainda não foi visto, ou espera. No painel chegamos a ter uma hora de atraso, agora temos 50 minutos, menos mal.
E.AOk… Bom descanso, vai lá. Bom, bora lá, vou tratando destas coisas pendentes, vais vendo o painel?! Dirigindo-me para o colega de turno.
Colega de turnoSim… Coragem, bora lá!
Ao telefone,
E.AOBS? Boa tarde! Vagas?
OBSTemos uma vaga, cama 13
Uii, azar… Vou ter seleccionar bem…
E.A - Sr. Maqueiro!! Chamo no corredor, Leve-me este senhor para OBS!
Maqueiro 1Estou de RX, tou com muito serviço.
E.AQuem pode então?
Maqueiro 1É o meu colega, mas foi à morgue com uma auxiliar.
Ok… começa bem. Bem vou algaliar ali o Sr Euclides que espera uma colheita há 3 horas. Auxiliar, onde estará?
E.ASr. Auxiliar?! Procuro pelo corredor
Maqueiro – Foi à morgue com o meu colega.
Óptimo! Bom, lá terei que algaliar sozinho… Algálias n.14?! Procuro na gaveta, não encontro, está aqui uma 12, siga. Água bidestilada? Não há, Sacos colectores?! Não há… lidocaína, compressas , ba lá temos aqui. Sigo para a Sala de Agudos, procuro o material em falta, não encontro água bidestilada, sigo para OBS, remexo no “armazém dos soros” Eureka! Encontrei um, finalmente vou conseguir algaliar! No caminho vejo um maqueiro,
E.A - Preciso que me leve aquele senhor para OBS!
Maqueiro 2Já me pediram aquele senhor pró Bloco, só tenho dois braços!
E.AOk! Não se enerve! Vá lá, depois não se esqueça.
Médico 1Sr. Enfermeiro, deixo aqui um internamento para Unidade AVC.
E.AOk… deixe ficar.

Vou mandar este jovem das convulsões pra frente. Maqueiro?! Não encontro… bom, levo eu senão fico sem espaço para por doentes. Passa por mim a voar o colega de OBS MACAS, passo-lhe o doente de soslaio. Regresso à base, vou preparar a senhora para a Unidade de AVC, vislumbro a Auxiliar, mudo de estratégia.
E.AVenha comigo, vamos ver um senhor que está a fazer um enema há x horas
Encontro o doente revoltado, indignado, queixava-se que já estava há mais de uma hora com a sonda no intestino.
E.APois… Tem toda a razão… tem que se queixar ao Administrador do Hospital a ver se contrata mais enfermeiros.

Volto e preparo a doente para o internamento, aproveitando a sorte de ter a Auxiliar comigo (encontrar uma auxiliar disponível é um achado nestes dias), vejo entretanto o meu colega da Admissão corado e já a bufar. Passados 5 minutos, consigo encontrar o maqueiro.
E.AEntão já me leva o senhor para OBS?!
Maqueiro 2Agora já não posso, pediram-me urgentemente a senhora para a Gastro, posso levar?!
E.ATou… ok vá lá, volte rápido, já começamos a ficar entupidos com internamentos.
Ajudo entretanto o colega nos cuidados que se multiplicam no painel do computador, parece uma árvore de Natal com tantas luzinhas vermelhas. O atraso voltou para uma hora.
Aparece de repente o médico 1 aos berros, à entrada da Sala de Admissão, perante todos os espectadores,
Médico 1 – ENTÃO O DOENTE AINDA NÃO ESTÁ EM OBS ???!!!
Final do Episódio I

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A estrutura dos Serviços de Urgência


Este post vai de encontro à sondagem lançada aqui mesmo ao lado. Consta que hoje aconteceu algo de extraordinário para a equipa de enfermagem do serviço de Urgência. As enumeras lamentações dos elementos da equipa foram finalmente ouvidas por quem tem o poder de decisão – a direcção de enfermagem. Esta, ao que parece, apresentou-se com um estilo inovador, baseado no diálogo, na cooperação e com uma ideia fundamental: MUDANÇA. Parece que todos estavam de acordo que a mudança na urgência é urgente, mas que não depende exclusivamente dos enfermeiros. Ideias interessantes foram debatidas, notou-se optimismo, pelo interesse dos órgãos de gestão de incluir a equipa na tomada de decisões, mas receio pela ideia chave que foi proposta: A equipa de enfermagem ser dividida em duas, OBS /Urgência geral. Este é o espaço para se reflectir sobre os prós e os contras dessa proposta. Pelo que percebi, o objectivo será potencializar cada unidade funcional, tornando OBS e Urgência Geral dois serviços distintos e independentes. Mas será esta uma das soluções?! Não será possível atingir os mesmos objectivos de outra forma?!
Não acredito que metade da equipa deseje ficar única e exclusivamente em OBS e outra metade na Urgência Geral. A equipa ficou de se pronunciar e apresentar projectos. Podem aqui começar a reflexão.
Ate já!
G.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Palavras mágicas


A educação assume um papel preponderante na vida das pessoas, com ela tudo se torna mais simples, mais acessível. Grande parte das vezes nem damos por ela, é algo natural. Podemos valorizar o facto de alguém ser demasiadamente bem-educada, há quem elogie, há quem torça o nariz (acho que há um dito popular sobre isso, mas não me ocorre).
Quando num primeiro contacto me abordam sem o mínimo desejável de boas maneiras, apertasse-me logo o estômago, faço o que me compete, mas sem a prontidão e simpatia com que devia. Penso que há na Bíblia um versículo qualquer que diz para tratar o próximo com amabilidade, independentemente de este te ter tratado com indiferença ou arrogância. Se não há, deveria haver. Nem sempre consigo, mas tenho treinado. Às vezes as pessoas percebem e aprendem.
Desabafo sobre este tema porque em muitos turnos, o meu trabalho consiste em escutar as queixas de várias dezenas ou mesmo a passar a centena de pessoas, mediante esta(s), determino uma prioridade e um encaminhamento, a conhecida triagem de Manchester, onde se vira à esquerda (outros queriam que se virasse à direita, não percebi porquê), mas também porque entre as relações profissionais, deparo-me enumeras vezes com falta de educação. Ainda há bem pouco tempo alguém comentava num post recente, “e como é que vós tratais/chamais os auxiliares?” da minha parte peço desculpa se alguma vez tratei mal, a má disposição que às vezes trazemos de casa, reflecte-se no comportamento, nas maneiras, por isso se diz que os problemas ficam em casa, mas muitas vezes não ficam.
Entre profissionais...
Surge repentina uma administrativa e diz-me no corredor, Preciso falar com a Dr. T, Não sei onde está, respondo. Ficamos por ali, resposta ou reacção perfeitamente normal. Boa tarde! Viu a Dr. T? Precisava falar com ela, Olhe que não sei onde está, mas espere um minuto e já a ajudo. E encontraria a Dr. T, como é costume nos enfermeiros, temos a capacidade de encontrar toda a gente, nos mais inesperados locais. Cá está! A administrativa resolveu o seu problema com apenas mais umas palavras! Simples..
Entre profissionais e utentes…
Na triagem, Bom dia Srº Enfermeiro, olhe dói-me a barriga e já não dou de corpo há 3 dias, Mas dói-lhe muito, pouco?… é uma dor branda, suporta-se. Pela sua simpatia e boas maneiras, até permitiria uma pequena mentira se tivesse dito muito. Teria levado a pulseira amarela, mas como era sincera e percebia facilmente que há quem venha pior, foi ela própria, correcta, levando a verde.

A minha atitude arrefece logo quando entram, sentam-se e dizem secamente, Tou com gripe, doe-me a cabeça! Algumas vezes procuro dar no instante, subtilmente, uma lição de boas maneiras, entoando com decibéis aumentados, BOM DIA! Algumas enxergam e rebobinam, apesar de não ser um bom dia, fica sempre bem. Outras vezes, deixo passar, atendendo à possível distracção ou dor que a provoque. Mas como está a dor? Dói-me muito! Aumentando ela desta vez os decibéis, Se não me doesse acha que vinha para aqui?! Já vi quase tudo, penso, Olhe eu tenho que lhe fazer perguntas para poder triar da melhor maneira, há quanto tempo lhe dói? Começou há pouco, E tomou alguma coisa? Não tenho nada em casa. De 0 a 10, como está a sua dor? Imagine que 0 é sem dor, 10 é a pior dor que alguma vez teve, uma dor insuportável. Eh pá, então é 9, 10. Tu queres ver.. cefaleias, laranja.. é pra medicina, raciocino irónico… vão-me comer vivo!

(APARTE: Por estatística mental, 95% dos utentes na triagem, quando questionados através da escala de dor, nunca responderam menos de 7. Seriam todos laranjas… mas não são, porque os enfermeiros têm um 6º sentido, não há ninguém melhor que nós para conhecer, avaliar a dor, diariamente lidamos com ela, conhecemos-lhe as manhas, os silêncios, as expressões.)
Assim se percebe a importância das palavras mágicas: Bom dia, Se faz favor, Obrigado… mas sem exageros, ora vejam



Abraço
G.