
Estou radiante! Recebi até agora poucas, mas estupendas "crónicas estapafúrdias", enviadas pela "formiguinha", pelo "Nel", "shadow chronicles", "bla....bla.."; "Glosa" e uma última de uma colega anónima que decerto vos terá sensibilizado.
Enquanto lia a história da "formiguinha" (Não, não é uma fábula, pelo contrário) dei por mim a imaginar o cenário, começando de certa forma a inventar. Espero que ninguém me leve a mal, sem querer de forma alguma distorcê-las, permitam-me que às vezes comece a divagar sobre elas..
Era um domingo de manhã, a equipa estava toda preparada, nos seus rostos adivinhava-se o receio. O CODU tinha telefonado, "Atropelado, com aproximadamente 80 anos, quase amputação do membro inferior esquerdo e péssimo estado do membro inferior direito". Quando o CODU ligava, normalmente não era para dar boas notícias, desenvolto o enfermeiro da área de trauma\reanimação apressou-se a reunir o anestesista, o cirurgião e o ortopedista. O Enf. P tinha telefonado ao seu colega da equipa da vmer para saber mais detalhes, A vítima é trazida pelos bombeiros, a vmer está noutro acidente, acrescentou. Além do velhinho vir sem os cuidados da vmer, ainda lá vem outro acidente, desabafava alguém. É a lei de Murphy, quando algo está mal, só tem tendência a piorar!
Lá vêm eles! Entram em passo de corrida, 3 bombeiros ainda jovens, suados e descorados. " Foi atropelado por um carro que fugiu", informa um.
A Sala de Emergência já estava aberta, a passagem entre macas foi rápida. O Sr. João estava obnubilado, pálido, muito provavelmente hipotenso pelo volume de sangue perdido. Ambas pernas com ligaduras colocadas à pressa, tingidas de sangue e coágulos. Foi o que conseguimos fazer, lamentava o bombeiro que aparentava mais experiência, ao reparar no descrédito do enfermeiro que as cortava. A perna esquerda estava de facto desfeita, teria que ser amputada, na direita via-se uma fractura (muito) exposta. O Sr. João começava a acordar e com ele as dores que se tornavam lancinantes. Tinha a perfeita noção de onde estava, o TCE deveria ter sido ligeiro. Num ápice tinha um expansor plasmático e sangue em perfusão, as tensões estavam a subir, a morfina começou a fazer efeito. O stress começava a atenuar, a anestesista mantinha-se à cabeça dando indicações sobre as drogas e tentando tranquilizar dentro do possível o Sr. João, o cirurgião ocupava-se fundamentalmente do tórax, os enfermeiros tinham iniciado as perfusões e já iam adiantando registos de sinais vitais. O Sr. João estava calmo, sabia a gravidade da situação, mas era uma pessoa forte, habituada aos dissabores e imprevistos da vida.
Eis que surge em cena o Dr. E, médico ortopedista, médico dos "ossos" como frequentemente se auto-apelidam, "Ó avózinho, umas das pernas já se foi e a outra....vamos lá ver!!!!" na altura a formiguinha ficou sem palavras, o ambiente tinha sido abalado, ficaram todos sem palavras... incluindo o Sr. João.
nota: porque pra meu agrado, este blog não é lido apenas por profissionias de saúde, aqui vai: CODU - centro de orientação de doentes urgentes; VMER - viatura médica emergência e reanimação; TCE - traumatismo crâneo-encefálico
Espero ansiosamente as vossas crónicas estapafúrdias!!!