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domingo, 19 de abril de 2015
Alcoolismo na saúde
Publicada por
Guilherme de Carmo
Não se compreende como é que um bar de um hospital vende bebidas alcoólicas.
Não se compreende como é possível um funcionário beber seis cervejas (33 cl) ao longo de um turno.
Também não se compreende como alguém é capaz de fumar num serviço de reparações de equipamentos, num serviço de componentes mecânicos e eléctricos. (Já tinha escrito sobre este assunto em particular, num post anterior, mas repito, porque a situação mantém-se)
Já várias vezes abordámos estas problemáticas (vide etiquetas alcoolismo, drogas), o que fazer então para combatê-las?
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Por 100 anos que viva, não me vou esquecer do que a doutora me disse
Publicada por
Guilherme de Carmo

O Nelinho tinha pouco mais de 20 anos e já era alcoólico. Bom rapaz, filho da terra e de gente boa e humilde.
De manhã já estava na tasca a entornar e à tarde a tombar.
Vários foram os episódios de urgência do Nelinho por convulsões no meio da rua e outros tantos no Centro de Saúde, a tratar as consequências das quedas.
Depois de assistir pessoalmente a novo espalhanço do Nelinho à porta do Centro de Saúde, onde ficou com a cara pior que um chapéu do pobre, a médica decide propor-lhe uma nova saída.
Nelinho, Se eu te arranjar uma consulta com o psiquiatra, tu vais?
Bou doutora! Quero curar este bício filho da puta..
A médica liga logo na hora pró especialista.
Nelinho ele vai ajudar-te mas tens que ficar internado!
Tá bem doutora, se tem que ser… Mas só na sexta-feira, porque na quinta tenho que tratar da baixa.
Assim foi… E hoje o Nelinho é presidente do rancho, ajuda idosos, conduz a carrinha da junta e só bebe água, porque o álcool é um bício filho da puta.
Naquele dia a vida do Nelinho mudou, tinha mudado mesmo antes do internamento, no momento em que a médica lhe disse algo.
Por 100 anos que viva não me vou esquecer do que a médica me disse naquela terça-feira! Tudo depende da nossa cabeça, se a cabeça não quer, não há volta a dar. Costumava repetir como resumo das maiores aprendizagens da sua vida.
Passados vários anos, durante a preparação de uma palestra, a médica precisava saber o que é que afinal naquela terça-feira, tinha dito de tão importante ao Nelinho, ao ponto de lhe mudar a vida.
Conseguiu encontrar forma de o rever na consulta e no meio de algumas recordações e boas noticias sobre a nova vida do Nelinho, finalmente questionou:
Então Nelinho, afinal o que é que eu te disse naquele dia, de tão importante?
Você não se lembra doutora? Por 100 anos que viva nunca me vou esquecer do que me disse.
Já não recordo Nelo, já faz muito tempo.
Disse-me, Nelo tu tens que deixar de beber!!
E deixou mesmo…
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Nervos à flor da pele
Publicada por
Guilherme de Carmo

Passou há dias uma reportagem na RTP 2 sobre um tema que eu acho que devemos estar atentos e que já por algumas vezes se falou no pddse - Burnout ou sindrome exaustão. Vejam a reportagem, está muito interessante, na minha opinião. Cliquem no seguinte link - Nervos à flor da pele
| Acho: |
quinta-feira, 12 de março de 2009
Chamem o 112 para os Bombeiros Voluntários de Viana
Publicada por
Guilherme de Carmo

Caro administrador do Blog, dado o seu apelo à escrita decidi usar o seu blog para expor um assunto que me doi na alma e que muito tem a ver com a nossa Cidade e com a "nossa Saúde" espero sinceramente que o publique
Cumprimentos
António Oliveira
Título:Chamem o 112 para os Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo
Não sendo eu profissional de saúde...fui obrigado pelas circunstancias da vida a entrar um pouco no vosso mundo...a doença da minha mulher, fez com que a minha vida passasse a ser: lidar com médicos, enfermeiros, maqueiros, bombeiros e toda a comunidade que gira em torno da saúde...nesta infelicidade da doença são muitas as vezes que recorro ao 112 para levar a minha mulher ao hospital quando a sua doença agrava...e meus caros amigos foi ver como anda o nosso socorro em Viana do Castelo que me fez ir procurar mais informação à cerca deste mundo que desconhecia totalmente...e foi nesta busca pelo abençoado mundo da Internet que no meio de muita coisa má tem a capacidade de nos abrir os olhos que cheguei a este maravilhoso blog e me vi tentado a contar as minhas peripécias com os Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo.
Longe vão os anos em que associamos às Corporações de Bombeiros Voluntários o estereótipo que os seus membros eram Homens humildes com pouca formação, mas com um dever de missão único associado à vontade em ajudar o próximo...talvez por isso era com orgulho que víamos a sua missão, pois sabíamos que o faziam sem pedir nada em troca...Hoje em dia as exigências da evolução dos cuidados associado à profissionalização do sector da Emergência fez esta filosofia mudar...e em muitos caso ainda bem, pois veio trazer qualidade ao socorro em Portugal...ou não! Portugal tem evoluído em muitos campos, nomeadamente nos sistemas de combate a Incêndios, quer em meio Rural quer em meio Urbano, no sistema de Emergência Médica, com a criação de meios mais diferenciados pondo equipas médicas a ir ao encontro das vítimas e não o velho conceito de levar rapidamente a vítima ao encontro dos meios médicos, apostando na formação dos elementos que tripulam ambulâncias, numa tentativa de unificar e criar uma só língua na emergência pré-hospitalar...ou não! Pois continuamos a assistir a dois tipos de socorro...o de Primeira classe, praticada nas grandes cidades, em que o próprio Instituto Nacional de Emergência Médica possui meios próprios de socorro, nomeadamente, ambulâncias de Suporte Básico de Vida tripuladas pelos Técnicos de Emergência Médica (TAE), Ambulâncias Suporte Imediato Vida (Medicalizadas) tripuladas por um TAE e um Enfermeiro e em fim de linha as Viaturas de Emergência Médica e Reanimação tripuladas por um Médico e Enfermeiro para os casos mais graves...No socorro de segunda classe temos o praticado nas regiões mais recondidas do nosso País em que apenas podemos contar com a boa vontade de pequenas Corporações de Bombeiros com escassos meios que prestam o socorro conforme podem...ou não!!!Pois aqui mesmo bem na nossa Cidade de Viana do Castelo, por sinal Capital de Distrito, por sinal à beira mar, por sinal inserido num meio urbano e industrial vasto, o nosso socorro está CAÓTICO!!!! A Ambulância do Instituto de Emergência Médica para a área de Viana do Castelo está entregue aos Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo...estes por sua vez são responsáveis por assegurar as tripulações 24h horas por dia, 365 dia por ano...para além disso são responsáveis por assegurar a formação dos seus tripulantes devendo estes possuir o curso de Tripulante de ambulância de Socorro...
Pelo que apurei o serviço de Ambulância de INEM dos Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo é assegurado de dia por dois elementos...e agora entendo porquê que sempre que chamava o 112 de dia eu pensava "Que azar calham-me sempre estes dois!" Pudera! Para começar por estes dois elementos um casal maravilha que a rapidez deve ser a alma do negócio, pois quer a minha mulher esteja bem o mal é sempre empurrada para ambulância dando a ideia que eles devem ganhar à peça e quantas mais pessoas socorrerem mais ganham...muitas vezes a minha esposa está aflita com falta de ar...sou obrigado a pedir por favor para lhe colocarem oxigénio...mas por incrível que pareça não são os piores...pois à noite e ao fim-de-semana a coisa complica...
Numa dada noite acordei sobressaltado com a minha esposa a dizer que não estava bem...lá rezei...e chamei o 112! Aparece-me dois elementos em que o Tripulante que vinha socorrer a minha mulher não sabia trabalhar com o Medidor de Pressão Arterial ( não sei se é assim que se chama), quando me cheguei junto dele para o ajudar é que entendi o porquê de tanta dificuldade...o senhor estava alcoolizado! É verdade! Para além de ter uma imagem física acabada com falta de alguns dentes e sujo...não estava sequer capaz de levar a minha esposa na maca....
Caros leitores deste blog...estava aqui horas a escrever as pripécias que já me aconteceram...eu pergunto-me é quem é que orienta, selecciona estes elementos?Os bombeiros?O INEM? Isto assim não pode ser! não é essa imagem que quero ter dos Bombeiros...mas sinceramente neste momento julgo que eles é que precisam de ajuda!!!!
Por António Oliveira
Cumprimentos
António Oliveira
Título:Chamem o 112 para os Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo
Não sendo eu profissional de saúde...fui obrigado pelas circunstancias da vida a entrar um pouco no vosso mundo...a doença da minha mulher, fez com que a minha vida passasse a ser: lidar com médicos, enfermeiros, maqueiros, bombeiros e toda a comunidade que gira em torno da saúde...nesta infelicidade da doença são muitas as vezes que recorro ao 112 para levar a minha mulher ao hospital quando a sua doença agrava...e meus caros amigos foi ver como anda o nosso socorro em Viana do Castelo que me fez ir procurar mais informação à cerca deste mundo que desconhecia totalmente...e foi nesta busca pelo abençoado mundo da Internet que no meio de muita coisa má tem a capacidade de nos abrir os olhos que cheguei a este maravilhoso blog e me vi tentado a contar as minhas peripécias com os Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo.
Longe vão os anos em que associamos às Corporações de Bombeiros Voluntários o estereótipo que os seus membros eram Homens humildes com pouca formação, mas com um dever de missão único associado à vontade em ajudar o próximo...talvez por isso era com orgulho que víamos a sua missão, pois sabíamos que o faziam sem pedir nada em troca...Hoje em dia as exigências da evolução dos cuidados associado à profissionalização do sector da Emergência fez esta filosofia mudar...e em muitos caso ainda bem, pois veio trazer qualidade ao socorro em Portugal...ou não! Portugal tem evoluído em muitos campos, nomeadamente nos sistemas de combate a Incêndios, quer em meio Rural quer em meio Urbano, no sistema de Emergência Médica, com a criação de meios mais diferenciados pondo equipas médicas a ir ao encontro das vítimas e não o velho conceito de levar rapidamente a vítima ao encontro dos meios médicos, apostando na formação dos elementos que tripulam ambulâncias, numa tentativa de unificar e criar uma só língua na emergência pré-hospitalar...ou não! Pois continuamos a assistir a dois tipos de socorro...o de Primeira classe, praticada nas grandes cidades, em que o próprio Instituto Nacional de Emergência Médica possui meios próprios de socorro, nomeadamente, ambulâncias de Suporte Básico de Vida tripuladas pelos Técnicos de Emergência Médica (TAE), Ambulâncias Suporte Imediato Vida (Medicalizadas) tripuladas por um TAE e um Enfermeiro e em fim de linha as Viaturas de Emergência Médica e Reanimação tripuladas por um Médico e Enfermeiro para os casos mais graves...No socorro de segunda classe temos o praticado nas regiões mais recondidas do nosso País em que apenas podemos contar com a boa vontade de pequenas Corporações de Bombeiros com escassos meios que prestam o socorro conforme podem...ou não!!!Pois aqui mesmo bem na nossa Cidade de Viana do Castelo, por sinal Capital de Distrito, por sinal à beira mar, por sinal inserido num meio urbano e industrial vasto, o nosso socorro está CAÓTICO!!!! A Ambulância do Instituto de Emergência Médica para a área de Viana do Castelo está entregue aos Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo...estes por sua vez são responsáveis por assegurar as tripulações 24h horas por dia, 365 dia por ano...para além disso são responsáveis por assegurar a formação dos seus tripulantes devendo estes possuir o curso de Tripulante de ambulância de Socorro...
Pelo que apurei o serviço de Ambulância de INEM dos Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo é assegurado de dia por dois elementos...e agora entendo porquê que sempre que chamava o 112 de dia eu pensava "Que azar calham-me sempre estes dois!" Pudera! Para começar por estes dois elementos um casal maravilha que a rapidez deve ser a alma do negócio, pois quer a minha mulher esteja bem o mal é sempre empurrada para ambulância dando a ideia que eles devem ganhar à peça e quantas mais pessoas socorrerem mais ganham...muitas vezes a minha esposa está aflita com falta de ar...sou obrigado a pedir por favor para lhe colocarem oxigénio...mas por incrível que pareça não são os piores...pois à noite e ao fim-de-semana a coisa complica...
Numa dada noite acordei sobressaltado com a minha esposa a dizer que não estava bem...lá rezei...e chamei o 112! Aparece-me dois elementos em que o Tripulante que vinha socorrer a minha mulher não sabia trabalhar com o Medidor de Pressão Arterial ( não sei se é assim que se chama), quando me cheguei junto dele para o ajudar é que entendi o porquê de tanta dificuldade...o senhor estava alcoolizado! É verdade! Para além de ter uma imagem física acabada com falta de alguns dentes e sujo...não estava sequer capaz de levar a minha esposa na maca....
Caros leitores deste blog...estava aqui horas a escrever as pripécias que já me aconteceram...eu pergunto-me é quem é que orienta, selecciona estes elementos?Os bombeiros?O INEM? Isto assim não pode ser! não é essa imagem que quero ter dos Bombeiros...mas sinceramente neste momento julgo que eles é que precisam de ajuda!!!!
Por António Oliveira
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Alcoolismo em profissionais de saúde - parte II
Publicada por
Guilherme de Carmo

NOTA PRÉVIA: Caros participantes, a síntese que vão ler de seguida trata-se de um artigo da revista SÁBADO nº 221, cujo título é: Médicos viciados. Para lerem o artigo completo, pesquisem, "revistas online" no google e solicitem a revista.
1. Não se trata da minha parte de nenhum "ataque" aos médicos, que fique bem claro! Como já referi nada tenho contra os médicos, apenas me incomoda a arrogância e elitismo de alguns. Tenho muito respeito e consideração pela classe médica. Ser médico, não é nada fácil. As recompensas são benéficas, os dissabores podem ser catastróficos.
2. Este é um trabalho de investigação da jornalista Isabel Lacerda, que descobri por conversa com uma amiga e que serve de complemento ao penúltimo post, Alcoolismo em profissionais de saúde.
3. É importante reforçar o "PROFISSIONAIS DE SAÚDE". Na minha opinião o artigo é muito completo, mas será injusto, pois retrata apenas a classe médica, quando a questão abrange todas as classes. Não serão apenas médicos, os profissionais de saúde com este problema. Claro que para efeitos de audiência, vende muito mais, MÉDICOS VICIADOS, do que enfermeiros viciados ou auxiliares viciados, etc. Sendo assim, mais uma vez, que fique claro que acho este artigo pertinente, completo e interessante, mas INJUSTO, não venham por aqui os anónimos azucrinar-me a cabeça.
«A médica era viciada em drogas duras e foi apanhada a roubar. Castigo: aposentação. (...) Atendia vários doentes ao mesmo tempo enquanto os tratava por "tu" e fumava cigarros, (...). Há vários anos que as pessoas da região lhe conheciam a dependência de drogas duras - heroína e cocaína. Muitos doentes recusavam ser atendidos por ela. Mais de 10 registaram as suas queixas no livro de reclamações. Já em 2005 os colegas do posto médico se tinham juntado para exigir que ela fizesse análises ao sangue. Recusou. (...) Há médicos dependentes de drogas pesadas. Mas ainda são mais os que abusam de outras substâncias como álcool e comprimidos, para relaxar ou ganhar energia. A maioria dos estudos comparativos conclui que a propensão para o abuso de substâncias aditivas lícitas (medicamentos) é mesmo superior nos médicos do que nas restantes profissões. Num trabalho sobre stresse e esgotamento na classe médica, Maria Antónia Frasquilho, psiquiatra e investigadora, afirma, baseada em estudos internacionais: constata-se que os médicos recorrem aos tóxicos para aliviarem o sofrimento emocional - 12% a 14% abusam do álcool ou dependem de tóxicos. (...) A dependência química alia-se à dependência de álcool e assume uma dimensão e gravidade superiores às de outras profissões com status sócio-económico equivalente.
(...) os médicos têm altas taxas de stresse, insónia, ansiedade, depressão e suicídio (...). A psiquiatra nomeia as longas horas de trabalho, a frustração com o declínio das condições técnicas e humanas para exercer a medicina e a desilusão (...). Conheço muitos médicos que me dizem: "Só aguentei a Urgência tomando pastilhas, porque a minha vontade era fugir."
Luís Santos (nome fictício), médico de um hospital de Lisboa (...). Começou a tomar comprimidos no fim da faculdade (1975/76): "havia matérias extremamente árduas e um colega desafiou-me a tomar uns estimulantes." (...), um delegado de informação médica abordou-o com uns novos comprimidos que dizia serem óptimos para quando se estava de banco: "Foram os melhores que alguma vez tomei. Acho que era anfetamina ou coisa do género" (...) Ao fim de muitos anos, o médico, (...), reconheceu que tinha um problema de adição a comprimidos e também ao álcool, (...). Procurou um psiquiatra. Mas ainda foi pior. "Ele insistiu que eu estava enganado, que o meu problema era depressão." Receitou-lhe antidepressivos - vários. (...) A dependência durou mais de 20 anos. Sendo médico, Luís tinha acesso fácil à substância em que era viciado: prescrevia-se a si próprio. (...) Ele próprio explica que doses altas de estimulantes podem provocar efeitos com os de doentes bipolares na fase eufórica: "A pessoa perde alguma noção dos limites e do bom senso, acha que é o super-homem. (...) Por sorte, a sua especialidade não é cirúrgica. (...) E diz que nunca foi trabalhar "com os copos". Porque nas alturas em que lhe dava para beber até adormecer, ou faltava no dia seguinte ou faltava durante semanas ou meses - metia baixa.
No Brasil, um estudo da Universidade de São Paulo sobre os hábitos de consumo de médicos em tratamento de toxicodependência ou uso nocivo de substâncias revela que o padrão mais frequente é a associação de álcool e drogas (36,8%), seguido do álcool isolado (34,3%) e das drogas (28,3%). Uma profissional de saúde aposentada conta à SÁBADO como, ao longo da sua carreira, sempre em Lisboa, se cruzou com médicos com os três problemas: " Um especialista em medicina interna, na casa dos 40 anos, assim que chegava ia direito a um armário de medicamentos e tomava um tranquilizante. Dizia que o acalmava a tarde toda." Noutro hospital, um cirurgião com mais de 50 anos que tinha dores provocadas por um traumatismo de guerra, enchia-se de analgésicos, especialmente antes de entrar no bloco operatório. Só que os tomava com whisky. Nos intervalos entre operações engolia mais comprimidos e bebia mais whisky. Chegava a esvaziar uma garrafa por dia. "Que eu saiba, nunca teve nenhum acidente cirúrgico", "E depois havia outro internista, com menos de 40 anos, completamente alcoólico. Chegou a estar duas vezes internado, em coma. Acabou por morrer em deterioração orgânica provocada pelo álcool." (...) Domingos Neto, ex-director do Centro Regional de Alcoologia do sul. O psiquiatra especializado em adições já tratou mais de uma dezena de médicos com problemas de alcoolismo: "Uns estão óptimos, com uma vida profissional excelente. Outros não estão assim tão bem." Um dos problemas do abuso do álcool (...): "É uma espécie de toxicodependência de estimação dos portugueses." Mesmo os médicos têm dificuldade em reconhecer o seu problema. (...), têm maior renitência do que a população em geral em procurar ajuda e são melhores a esconder os sintomas. (...) Mesmo quando percebem que alguma coisa está errada, o alheamento, o corporativismo ou o receio tornam a ajuda e a denúncia raras (nenhum dos profissionais de saúde que relataram situações à SÁBADO falou com superiores ou com os colegas). Muitos poucos processos originados por esses motivos chegam à Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS). E, destes, menos ainda terminam em sanções aos profissionais: as reacções, adianta fonte da IGAS, acabam quase sempre em recomendações de atenção às entidades. Além disso, a SÁBADO sabe que, nos últimos anos, os planos de actividade da Inspecção não tem previsto nenhuma acção de fiscalização a este tipo de situações. O Ministério da Saúde não quis comentar o assunto (...).
Em Lisboa, o hálito de um conhecido cirurgião não engana quem trabalha com ele. O seu comportamento muito menos. "É completamente irascível, anda sempre aos berros, maltrata toda a gente, ameaça os colegas de nunca mais operarem na vida", conta uma enfermeira. Com a perda de precisão, os erros, mesmo em cirurgias simples, apareceram. "Enganava-se e cortava artérias; numa operação a um quisto dermóide atrapalhou-se tanto que deixou a rapariga com uma cicatriz horrível (...). No momento em que percebia os enganos reagia quase sempre da mesma maneira: batia com os pés no chão, atirava com os instrumentos cirúrgicos, gritava: "Sou mesmo um estúpido, sou uma besta!" Há cerca de oito anos, numa cirurgia a uma hérnia, de repente o enfermeiro-instrumentista perguntou: " Mas isso não era o canal espermático?" Pausa. Gritos (do próprio cirurgião a chamar nomes a si próprio por ter cortado no sítio errado). Nova pausa, para se acalmar: "Cale-se! Não fale do que não sabe. Não era nada, está tudo bem." Mas era. Toda a gente que estava no Bloco percebeu que era. Só que ninguém disse nada. O rapaz de 20 e poucos anos nunca soube do erro que pôde eventualmente ter-lhe atrofiado um testículo. Formalmente, nunca nenhum colega fez queixa dos abusos do cirurgião, mas a SÁBADO sabe que foram várias as recomendações informais que chegaram à direcção de pelo menos um dos hospitais por onde passou para que ele fosse afastado dos blocos operatórios. Nunca nada foi feito. O médico continua com os seus excessos, verbais e de consumo, embora ultimamente se tenha dedicado mais a funções administrativas. "Pode haver tendência para proteger o colega, mas isso faz-lhe mal. Uma atitude firme da parte do superior ("Ou te tratas ou vais ter problemas connosco") é muito mais humana e benéfica do que a tolerância", sublinha o psiquiatra Domingos Neto. Até porque, se quase nenhum alcoólico procura ajuda sem pressão dos familiares, amigos ou colegas, nos médicos - está provado - os tratamentos têm taxas de sucesso superiores. Sobretudo se, como acontece nalguns países, a sua recuperação (de álcool e/ou drogas) for feita em centros de tratamento especializado só para profissionais clínicos. Nos Estados Unidos há pelo menos 40 instituições destas. Em Portugal a tentativa que houve em 2001, em Coimbra, acabou em menos de um ano: "Ainda atendemos cerca de 12 médicos, a maioria com problemas de álcool. Aquilo funcionava na base da boa vontade, por iniciativa da Ordem dos Médicos, mas necessitava de condições logísticas e financeiras para continuar", explica o psiquiatra mentor da iniciativa, Morgado Pereira.
O elevado estatuto social da classe médica e a própria natureza da profissão faz com que os próprios tenham renitência em recorrer aos serviços de saúde públicos, onde estão mais expostos e podem, inclusive, cruzar-se ou ficar internados ao lado de pacientes. A secção regional do sul da Ordem está a acompanhar o Programa de Atenção Integral ao médico Enfermo, de Barcelona (...): "Permite um internamento incógnito - a pessoa vai com um nome de código".
Em Portugal, os profissionais de saúde representam 3,2% dos Alcoólicos Anónimos (AA). (...) Carlos Ferreira (nome fictício) foi um deles. Começou a beber ainda durante o curso e só parou 20 anos mais tarde (...) o álcool estragou-lhe a carreira de gastroenterologista no IPO de Lisboa. Mas proporcionou-lhe outra: " Quando entrei nos AA comecei a ler tudo que havia sobre adições em Portugal. Depois fui para o Canadá estudar medicina de adição. Quando regressei tornei-me também psicoterapeuta." Há 15 anos que trata pessoas com os mesmos problemas pelos quais já passou. Deixa um recado: "Os médicos têm de perceber e aceitar que o alcoolismo é uma doença crónica como a hipertensão, a doença cardiovascular ou pulmonar (...) não se pode deixar que estejam a exercer - para o bem delas e para o bem dos doentes, porque esses é que não têm culpa nenhuma.
(...) O marido de Zélia Ferreira foi atendido por um médico visivelmente alcoolizado. Morreu poucas horas depois: "Tinha os botões da bata desencontrados e os sapatos a chinelar. Até pensei - raio de médico, parece que está a dormir" (...) Morreu a caminho do segundo hospital. Deixou duas filhas e uma viúva inconformada: Zélia Ferreira escreveu uma queixa no livro amarelo do hospital e iniciou um processo em tribunal contra o médico. A reclamação originou um inquérito na IGAS, que terminou com a mera recomendação para que as sub-regiões de saúde instaurem formas de monitorizar e prevenir este tipo de situações. O processo judicial não passou da instrução, em 2007. (...) De nada valeram as 11 testemunhas apresentadas pela viúva, todas a referir o habitual estado de embriaguez do clínico geral.
Paulo Agostinho (...) levou a filha de 8 anos, engripada e febril ao mesmo hospital (...) À saída perguntou na secretaria se era permitido ouvir música na urgência, (...) "Nisto aparece o médico a dizer que o rádio tinha desaparecido, como se eu o tivesse roubado." Levantou-se a confusão e Paulo chamou a PSP - insistia em ser revistado para desfazer as dúvidas. Mas quando a polícia chegou, o pedido das dezenas de utentes que lá estavam foi outro: "Ponham-no (o médico) a soprar ao balão!". A polícia não chegou a testar a alcoolemia, mas umas semanas depois Paulo Agostinho recebeu um telefonema do director do hospital e mais tarde alguém lhe disse que o médico tinha sido retirado das urgências nocturnas. Esse médico tem hoje 60 anos. Continua a exercer».
A minha opinião:
1. Por que é que as entidades competentes se escondem atrás do problema, por que é que não encontram soluções? "O Ministério não comenta? Porquê?
2. Todos sabemos que há médicos que têm pavor, detestam a Urgência, fazem-na por obrigação, daí vem os comprimidos para relaxar. Não há formas de se dedicarem àquilo que gostam e deixar a urgência para outros, aqueles que gostam (criar "urgencistas", p.e.).
3. A causa do problema também está no próprio SNS, alguns motivos que foram apontados no artigo são da exclusiva responsabilidade do SNS. Questões organizativas, condições de trabalho, melhoria infra-estruturas, aumento das equipas, ......
4. Médicos que se auto-prescrevem, como é possível?!
Obrigado Patrícia, este post não existiria sem a tua preciosa ajuda.
G.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Alcoolismo em profissionais de saúde
Publicada por
Guilherme de Carmo

Há uns tempos atrás, nos meus apontamentos, tinha anotado um tema que cada vez mais me parece tabu. Escândalos e notícias tristes depressa se propagam neste hospital e, vendo bem, em qualquer local de trabalho no nosso país. As boas notícias, excluindo o aumento de vencimentos, demoram mais um pouco a alcançar um destino, nesta corrente de propagação de informação.
Depois foi lançada a já tão badalada bomba pelo Sr. Tasqueiro (quem desconhece, recomendo consultar os comentários ao post “Crónicas estapafúrdias vol. IV – Ruídos”).
Pensei que seria o momento oportuno para abordar o tal tema tabu, o alcoolismo em profissionais de saúde.
Para ter um suporte científico, comecei por pesquisar no Google académico, trabalhos sobre o tema. Surpreendentemente encontrei zero. Inseri “alcoolismo em profissionais de saúde” no motor de busca e as centenas de trabalhos de investigação/artigos que surgiram, incidiam sobre alcoolismo numa amostra aleatória de pessoas e enfatizavam o papel dos profissionais de saúde, nomeadamente enfermeiros, no combate ao problema.
Outros trabalhos direccionavam-se para burnout. Duas premissas importantes: o burnout pode conduzir ao alcoolismo; Os profissionais de saúde são das classes mais propícias a desenvolver burnout. Associando-as, facilmente concluímos que os profissionais de saúde correm algum risco de consumir álcool em excesso. Porque é que não encontro então, estudos sobre isso??! Se calhar sou um nabo a pesquisar.
Ser profissional de saúde, tem as suas recompensas, as suas amarguras. Há um vasto leque de vantagens e inconvenientes, já por demais conhecidos. Lidar com o insucesso, fadiga, stress, sofrimento dos outros, problemas familiares associados à ausência ou não, etc, pode levar a angústia, depressão e por possível sucessão, a vícios, onde o álcool assume posições de liderança.
É problemático ser alcoólico, é ainda mais problemático ser um profissional de saúde alcoólico. Porém, na minha opinião, é muito mais que problemático, é gravíssimo, é ultra-condenável, permitir que estes profissionais estejam em trabalho, sem que haja vigilância, acompanhamento e tratamento.
Em grandes locais de trabalho como Portucel e Estaleiros Navais, onde os trabalhadores desempenham cargos de alta responsabilidade, há vigilância rigorosa dos níveis de alcoolemia nos trabalhadores. No nosso hospital, onde evidentemente os trabalhadores desempenham cargos de ainda maior responsabilidade, já vi testes de alcoolemia, mas foram aqueles que a GNR vem fazer aos traumatizados em acidentes de viação. Agora em funcionários??! Nunca vi, nem nunca ouvi falar. Posso estar enganado, mesmo que esteja, é impossível que este controle seja eficaz. O Sr. Tasqueiro lançou a bomba que toda a gente tem conhecimento, mas que finge não ter. É um problema de saúde pública, é um problema nosso, dos nossos gestores e responsáveis pelos departamentos de medicina no trabalho. Acordem senhores, qualquer dia pode ser tarde. Enfrentem o problema, não discriminem, encontrem saídas.
G.
Depois foi lançada a já tão badalada bomba pelo Sr. Tasqueiro (quem desconhece, recomendo consultar os comentários ao post “Crónicas estapafúrdias vol. IV – Ruídos”).
Pensei que seria o momento oportuno para abordar o tal tema tabu, o alcoolismo em profissionais de saúde.
Para ter um suporte científico, comecei por pesquisar no Google académico, trabalhos sobre o tema. Surpreendentemente encontrei zero. Inseri “alcoolismo em profissionais de saúde” no motor de busca e as centenas de trabalhos de investigação/artigos que surgiram, incidiam sobre alcoolismo numa amostra aleatória de pessoas e enfatizavam o papel dos profissionais de saúde, nomeadamente enfermeiros, no combate ao problema.
Outros trabalhos direccionavam-se para burnout. Duas premissas importantes: o burnout pode conduzir ao alcoolismo; Os profissionais de saúde são das classes mais propícias a desenvolver burnout. Associando-as, facilmente concluímos que os profissionais de saúde correm algum risco de consumir álcool em excesso. Porque é que não encontro então, estudos sobre isso??! Se calhar sou um nabo a pesquisar.
Ser profissional de saúde, tem as suas recompensas, as suas amarguras. Há um vasto leque de vantagens e inconvenientes, já por demais conhecidos. Lidar com o insucesso, fadiga, stress, sofrimento dos outros, problemas familiares associados à ausência ou não, etc, pode levar a angústia, depressão e por possível sucessão, a vícios, onde o álcool assume posições de liderança.
É problemático ser alcoólico, é ainda mais problemático ser um profissional de saúde alcoólico. Porém, na minha opinião, é muito mais que problemático, é gravíssimo, é ultra-condenável, permitir que estes profissionais estejam em trabalho, sem que haja vigilância, acompanhamento e tratamento.
Em grandes locais de trabalho como Portucel e Estaleiros Navais, onde os trabalhadores desempenham cargos de alta responsabilidade, há vigilância rigorosa dos níveis de alcoolemia nos trabalhadores. No nosso hospital, onde evidentemente os trabalhadores desempenham cargos de ainda maior responsabilidade, já vi testes de alcoolemia, mas foram aqueles que a GNR vem fazer aos traumatizados em acidentes de viação. Agora em funcionários??! Nunca vi, nem nunca ouvi falar. Posso estar enganado, mesmo que esteja, é impossível que este controle seja eficaz. O Sr. Tasqueiro lançou a bomba que toda a gente tem conhecimento, mas que finge não ter. É um problema de saúde pública, é um problema nosso, dos nossos gestores e responsáveis pelos departamentos de medicina no trabalho. Acordem senhores, qualquer dia pode ser tarde. Enfrentem o problema, não discriminem, encontrem saídas.
G.
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