domingo, 26 de abril de 2015

Luís Gouveia Andrade: médicos e enfermeiros – quando 1 + 1 é maior do que dois


Circula na net, um excelente artigo do Jornal Médico.pt, cujo autor é o médico Luís Gouveia Andrade.
De seguida, selecciono alguns excertos, mas consultem aqui o link com o artigo na integra. No final faço o meu curto apontamento.
" (...) penso ser consensual que os dois grupos que mais interagem com os pacientes e entre si são os médicos e os enfermeiros.
A relação entre estes dois grupos tem sofrido evoluções ao longo do tempo mas pauta-se ainda por desequilíbrios diversos, com origens diversas, que geram uma percepção enviesada das competências de cada um e, por consequência, afectam toda a cascata de comunicação. Quem é o principal prejudicado neste processo? O doente.
Pessoalmente, nunca consegui compreender as dificuldades de relacionamento entre profissionais que exercem a sua função na saúde, que têm como missão central proporcionar bem-estar aos doentes (...).
Por um lado, vejo os médicos a encararem os enfermeiros como seus subordinados, a quem não devem explicações, exigindo somente a execução de gestos de enfermagem de uma forma acrítica e não modulada por critérios clínicos. Por outro lado, vejo na Enfermagem um sentimento de frustração e de revolta face aos médicos, por considerarem que estes dedicam menos tempo aos doentes, que não os envolvem nas decisões terapêuticas e por se sentirem menosprezados por eles. E pior do que isso, este clima de conflito é estimulado desde a Faculdade, onde os alunos são logo formatados para verem nos outros grupos não parceiros mas “seres” diferentes de quem se deve desconfiar…
As actividades exercidas por médicos e por enfermeiros são, obviamente, distintas mas são absolutamente complementares. Os gestos que cada um executa e o modo como são executados são centrais para o sucesso terapêutico. 
A transmissão desse calor humano deveria ser, deve ser, da responsabilidade de todos os que estabelecem contacto com os pacientes (...). Mas, pela maior frequência de contacto, é aos médicos e enfermeiros que cabe a maior “fatia” nessa corrente afectiva.
A ausência de uma eficiente cooperação entre estes dois grupos implica má comunicação, aumento do risco de erro e um ambiente global de desconforto que é facilmente captado pelos doentes, aumentando a sua ansiedade, diminuindo a sua confiança nas equipas e prejudicando a sua recuperação.
Os meios para se conseguir uma saudável colaboração entre enfermeiros e médicos são múltiplos: a participação conjunta em reuniões clínicas, a discussão em comum dos processos clínicos dos doentes, a manutenção de fichas clínicas devidamente preenchidas e organizadas por ambos e uma regular comunicação entre ambos. 
É igualmente importante que as respectivas competências sejam respeitadas e que cada um saiba qual o seu papel na prestação de cuidados de saúde. Contudo, essa compartimentação de funções não deve ser estanque e o espírito de entreajuda e de bom senso deve imperar. (...)
A comunicação em saúde assume um papel preponderante e, quando ela falha, os riscos que se correm são elevadíssimos. O número de mortes em ambiente hospitalar relacionadas com falhas de comunicação tem sido alvo de inúmeros relatórios e é significativo. E mais do que isso, são mortes facilmente evitáveis.
Provavelmente, o aspecto mais importante no que se refere à criação de um bom ambiente de colaboração entre médicos e enfermeiros passa apenas pelo respeito mútuo, pela saudável convivência entre todos, pela clara definição dos papéis e competências de cada membro da equipa, pela existência de uma liderança inequívoca, pela capacidade de assumir erros e definir estratégias para que não se repitam e, como referi, por uma comunicação constante, clara e eficaz. (...)
Enfermeiros e médicos, trabalhando em conjunto, respeitando o seu espaço, respeitando-se entre si e comunicando abertamente, serão capazes de oferecer aos seus doentes uma abordagem verdadeiramente holística, onde cabe o tratamento da doença, o conforto afectivo e o respeito que lhes é devido.
Para um doente pode ser tão importante a eficácia de um medicamento ou de uma intervenção cirúrgica como é uma palavra amiga, um gesto de carinho, alguns minutos de atenção. Enfermeiros e médicos podem e devem conjugar todo o seu saber técnico e o seu humanismo para proporcionarem aos pacientes tudo o que eles precisam e merecem.
Se o fizerem em conjunto, em equipa, num espírito de sã cooperação, os resultados serão excelentes e, seguramente, muito superiores aos obtidos individualmente.
A união faz a força: eis um chavão que aqui adquire a sua máxima verdade…"
Depois de ler este artigo, confesso que fiquei com aquela sensação de inveja... o artigo é tão verdadeiro, traduz tão bem aquilo que eu sinto, que queria ter sido eu a escrevê-lo! Fica também a sensação que muito do que aqui está escrito é uma utopia. A realidade, de facto, tal como pretende dizer o autor, não é esta. O que fazer então? Os indícios estão lá... começar por mudar a "formatação" nas Faculdades. 
Dessa forma, talvez daqui a 15, 20 anos chegaremos a essa utopia, que outros países mais avançados, já atingiram. 

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