sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O pingue-pongue de doentes


Nós enfermeiros temos que admitir que temos mau feitio. Mais cedo ou mais tarde, quem não o tem, há-de ter. Temos mau feitio, reclamámos, esbracejámos, mas o pior é que isto acontece entre nós próprios. Somos maus uns para os outros.
Por que razão um doente chega a um serviço de internamento, depois de subir uns tantos pisos e é recambiado para trás, porque, por exemplo, o enfermeiro da urgência não lhe pôs a tração cutânea??!
Da mesma forma que o enfermeiro receptor considera um abuso enviar o doente sem a tração, é legítimo o enfermeiro emissor considerar uma canalhice recambiar o doente, sem que antes se procure uma justificação para o sucedido.
Pior ainda é quando o enfermeiro emissor está cheio de trabalho e o receptor está a ler revistas.
E pior pior, é quando o doente chega lá cima com a tração, mas é retirada e recolocada ao jeito do receptor.
E pior pior pior é o dinheiro gasto em material.
E pior pior pior pior é o tempo que o maqueiro perde a levar, trazer e voltar a levar o doente.
E pior pior pior pior pior é o para o doente, que anda de um lado para o outro, quando deveria estar quietinho.
E pior pior pior pior pior pior é permitir que se tenha que colocar a tração na Urgência, procedimento este sem qualquer sentido naquele momento, já que os pesos (que é o que faz a tração propriamente dita) são colocados lá em cima.
É daquelas coisas que não fazem sentido nenhum, mas que persistem, porque sempre se fez assim.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O Cavaco respondeu-me


Quando vi o email pensei que fosse a Belém, uma amiga de longa data, mas não... era de Belém, residência oficial do Cavaco. Lembram-se quando há uns posts atrás publiquei a carta que lhe enviei?
Já me responderam, mas não disseram nada de jeito, apenas agradecem o envio da mensagem sobre os profissionais de enfermagem e dão-me os melhores cumprimentos. Show!
Eu à espera duma mensagem tipo "a Sr Ana Jorge e o sr Piçarro estão prestes abandonar os cargos" ou "o problema dos enfermeiros muito em breve vai ser resolvido e pedimos desculpa desde já pelos transtornos causados", mas não... 

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Crónicas estapafúrdias vol IX - Conversas de sala 5













Médico - Então o que lhe aconteceu?
Utente - Olhe Doutor, tive uma queda em Lisboa e parti o pé, fui observada no S. José e o médico, com o meu consentimento, achou que deveria pôr o gesso cá em Viana, por causa da viagem longa.
Médico - Esse filho da puta não quis foi trabalho!!
Utente - Como?! Olhe desculpe, mas foi com o meu consentimento e trago aqui o diagnóstico...
Médico - Pelo menos esse filho da puta podia ter escrito uma carta para eu lhe responder
Utente - Esses problemas entre vós, não me interessam para nada, quero é o meu problema resolvido...

Mais tarde...
Médico - Então a menina o que estava a fazer por Lisboa?
Utente - Em trabalho..
Médico - E o que faz?
Utente - Sou podologista
Médico - Então não sabe tratar da sua pata?
Utente - Se tivesse pata ia ao veterinário!!
Médico - Tou a ver que não se pode brincar com a menina!
Utente - Brincar é uma coisa, falta de educação é outra! Desde o início da consulta que está a ser malcriado!

E mais uma utente que abandona o serviço sem o seu problema resolvido
E mais uma no livro amarelo, para encher e nada se fazer... escusado será dizer que todas as crónicas estapafúrdias são baseadas em factos reais

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A erosão nos hospitais

Alcoolismo, burnout, problemas psíquicos, envelhecimento precoce, etc, etc, foram e são alguns dos problemas que me preocupam e sobre os quais dediquei já alguma reflexão aqui no pddse. E não foi porque fica bem falar nestes problemas num blog que pretende abordar alguns assuntos sérios relacionados com a saúde dos doentes e profissionais.
É porque de facto isto assusta-me.
Assusta-me o que vejo.
Assusta-me o desgaste psicológico que vejo em profissionais cada vez mais jovens.
Assustam-me os problemas de saúde graves de alguns profissionais de saúde.
Assusta-me a velhice que já aparentam em idade pré-reforma.
Assusta-me a pressão que é exercida… e que desgasta.
Assusta-me o meu, o nosso futuro.

Será que me imagino enfermeiro com 65 anos anos? Não me imagino e não imagino muitos de vós… Não há condições para desempenhar de forma saudável, pelo menos em quem se preocupa e incomoda com as merdas que acontecem. Ou o segredo está em não te preocupares?! Será esse “O segredo” da Rhonda Byrne?! Não sei, nem saberei tão cedo porque nunca tive lá muita curiosidade em lê-lo, mas isso também em nada interessa.

Sabem o que interessa?? É saber porque raio os enfermeiros têm de responder por toda a merda que acontece num hospital??!
Um doente teve mais de uma hora à espera para ser visto pelo médico, as coisas deram pró torto, Quem é apontado? O enfermeiro.
O doente caiu da maca, o enfermeiro estava na outra ponta a tratar um dos 30 que tinha à responsabilidade, de quem é a culpa? Do enfermeiro
O doente demorou a ser triado, porque há mais 10 em espera à frente, calhou de enfartar, correu mal, quem é o responsável? O mesmo

E não me venham com merdas de vitimização, enfermeiros “coitadinhos, só se sabem queixar”, de “é o vosso trabalho!”, “são as vossas responsabilidades!”.
Temos responsabilidades, assumimos responsabilidades, mas não podemos responder por aquilo que as ultrapassa por falta de condições.
Abram os olhos e vejam senhores administradores, vejam as condições de trabalho dos profissionais, visitem o serviço de urgência durante umas 6 horitas, não peço mais. Aproveitem e visitem agora, no tempo de Verão e deixem de apontar dedos e responsabilizar quem "faz das tripas coração".
Avaliem antes de julgar, pensem antes de apontar.

E é isto que desgasta e é isto que me assusta.
É isto a erosão nos hospitais

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O melro e as mensagens subliminares


No último post, recebi o seguinte comentário do meu fiél seguidor CAPITÃO:
"Os melros competem com os melros, embora tenham de ter muito cuidado com os gatos!" Tal como prometido e do mesmo jeito subliminar, dedico-lhe esta fabulosa ode de Guerra Junqueiro... Deliciem-se e aprendam

O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, dentre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre-cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro; dentre a horta,
Dizia-lhe: "Bons dias!"
E o velho padre-cura
não gostava daquelas cortesias.

O cura era um velhote conservado,
Malicioso, alegre, prazenteiro;
Não tinha pombas brancas no telhado,
Nem rosas no canteiro:
Andava às lebres pelo monte, a pé,
Livre de reumatismos,
Graças a Deus, e graças a Noé.
O melro desprezava os exorcismos
Que o padre lhe dizia:
Cantava, assobiava alegremente;
Até que ultimamente
O velho disse um dia:

"Nada, já não tem jeito!, este ladrão
Dá cabo dos trigais!
Qual seria a razão
Por que Deus fez os melros e os pardais?!"

E o melro entretanto,
Honesto como um santo,
Mal vinha no oriente
A madrugada clara,
Já ele andava jovial, inquieto,
Comendo alegremente, honradamente,
Todos os parasitas da seara
Desde a formiga ao mais pequeno insecto.
E apesar disto, o rude proletário,
O bom trabalhador,
Nunca exigiu aumento de salário.

Que grande tolo o padre confessor!

Foi para a eira o trigo;
E, armando uns espantalhos,
Disse o abade consigo:
"Acabaram-se as penas e os trabalhos."
Mas logo de manhã, maldito espanto!
O abade, inda na cama,
Ouvindo do melro o costumado canto,
Ficou ardendo em chama;
Pega na caçadeira,
Levanta-se dum salto,
E vê o melro, a assobiar, na eira,
Em cima do seu velho chapéu alto!

Chegou a coisa a termo
Que o bom do padre-cura andava enfermo;
Não falava nem ria,
Minado por tão íntimo desgosto;
E o vermelho oleoso do seu rosto
Tornava-se amarelo dia a dia.
E foi tal a paixão, a desventura
(Muito embora o leitor não me acredite),
Que o bom do padre-cura
Perdera o apetite!

Andando no quintal, um certo dia,
Lendo em voz alta o Velho Testamento,
Enxergou por acaso (que alegria!,
Que ditoso momento!)
Um ninho com seis melros, escondido
Entre uma carvalheira.

E ao vê-los exclamou enfurecido:

"A mãe comeu o fruto proibido;
Esse fruto era minha sementeira:
Era o pão, e era o milho;
Transmitiu-se o pecado.
E, se a mãe não pagou, que pague o filho.
É doutrina da Igreja. Estou vingado!"

E, engaiolando os pobres passaritos,
Soltava exclamações:
"É uma praga. Malditos!
Dão me cabo de tudo esses ladrões!
Raios os partam! Andai lá que enfim"

E deixando a gaiola pendurada,
Continuou a ler o seu latim,
Fungando uma pitada.

Vinha tombando a noite silenciosa;
E caía por sobre a natureza
Uma serena paz religiosa,
Uma bela tristeza
Harmónica, viril, indefinida.
A luz crepuscular
Infiltra-nos na alma dorida
Um misticismo heróico e salutar.
As árvores, de luz inda douradas,
Sobre os montes longínquos, solitários,
Tinham tomado as formas rendilhadas
Das plantas dos herbários.
Recolhiam-se a casa os lavradores.
Dormiam virginais as coisas mansas:
Os rebanhos e as flores,
As aves e as crianças.

Ia subindo a escada o velho abade;
A sua negra, atlética figura,
Destacava na frouxa claridade,
Como uma nódoa escura.
E, introduzindo a chave no portal,
Murmurou entre dentes:

"Tal e qual tal e qual!
Guisados com arroz são excelentes."

* * * * * *
Nasceu a Lua. As folhas dos arbustos
Tinham o brilho meigo, aveludado,
Do sorriso dos mártires, dos justos.
Um eflúvio dormente e perfumado
Embebedava as seivas luxuriantes.
Todas as forças vivas da matéria
Murmuravam diálogos gigantes
Pela amplidão etérea.
São precisos silêncios virginais,
Disposições simpáticas, nervosas,
Para ouvir falar estas falas silenciosas
Dos mundos vegetais.
As orvalhadas, frescas espessuras,
Pressentiam-se quase a germinar.
Desmaiavam-se as cândidas verduras
Nos magnetismos brancos do luar.
..................................................
..................................................

E nisto o melro foi direito ao ninho.
Para o agasalhar, andou buscando
Umas penugens doces como arminho,
Um feltrozito acetinado e brando.
Chegou lá, e viu tudo.
Partiu como uma frecha; e, louco e mudo,
Correu por todo o matagal; em vão!
Mas eis que solta de repente um grito
Indo encontrar os filhos na prisão.

"Quem vos meteu aqui?!" O mais velho,
Todo tremente, murmurou então:

"Foi aquele homem negro. Quando veio,
Chamei, chamei Andavas tu na horta
Ai que susto, que susto!, ele é tão feio!
Tive-lhe tanto medo! Abre esta porta
E esconde-nos debaixo da tua asa!
Olha, já vão florindo as açucenas;
Vamos a construir a nossa casa
Num bonito lugar
Ai! quem me dera, minha mãe, ter penas
Para voar, voar!"

E o melro alucinado
Clamou:

"Senhor! senhor!
É porventura crime ou é pecado
Que eu tenha muito amor
A estes inocentes?!
Ó natureza, ó Deus, como consentes
Que me roubem assim os meus filhinhos,
Os filhos que eu criei!
Quanta dor, quanto amor, quantos carinhos,
Quanta noite perdida
Nem eu sei...
E tudo, tudo em vão!
Filhos da minha vida
Filhos do coração!!!
Não bastaria a natureza inteira,
Não bastaria o Céu par voardes,
E prendem-vos assim desta maneira!
Covardes!
A luz, a luz, o movimento insano,
Eis o aguilhão, a fé que nos abrasa
Encarcerar a asa
É encarcerar o pensamento humano.
A culpa tive-a eu! Quase à noitinha
Parti, deixei-os sós
A culpa tive-a eu, a culpa é minha,
De mais ninguém! Que atroz!
E eu devia sabê-lo!
Eu tinha obrigação de adivinhar
Remorso eterno! eterno pesadelo!
.................................................

Falta-me a luz e o ar! Oh, quem me dera
Ser abutre ou fera
Para partir o cárcere maldito!
E como a noite é límpida e formosa!
Nem um ai, nem um grito
Que noite triste!, oh, noite silenciosa!"

E a natureza fresca, omnipotente,
Sorria castamente
Com o sorriso alegre dos heróis.
Nas sebes orvalhadas,
Entre folhas luzentes como espadas,
Cantavam rouxinóis.

Os vegetais felizes
Mergulhavam as sôfregas raízes
A procurar na terra as seivas boas,
Com a avidez e as raivas tenebrosas
Das pequeninas feras vigorosas
Sugando à noite os peitos das leoas.
A lua triste, a Lua merencória,
Desdémona marmórea,
Rolava pelo azul da imensidade,
Imersa numa luz serena e fria,
Branca como a harmonia,
Pura como a verdade.
E entre a luz do luar e os sons das flores,
Na atonia cruel das grandes dores,
O melro solitário
Jazia inerte, exânime, sereno,
Bem como outrora o Nazareno
Na noite do calvário!

Segundo o seu costume habitual,
Logo de madrugada
O padre-cura foi para o quintal,
Levando a Bíblia e sobraçando a enxada.
Antes de dizer missa,
O velho abade inevitavelmente
Tratava da hortaliça
E rezava a Deus-Padre Omnipotente
Vários trechos latinos,
Salvando desta forma, juntamente,
As ervilhas, as almas e os pepinos.

E já de longe ia bradando:

"Olé!
Dormiram bem? Estimo
Eu lhes darei o mimo,
Canalha vil, grandíssima ralé!
Então vocês, seus almas do Diabo,
Julgam que isto que era só dar cabo
Da horta e do pomar,
E o bico alegre e estômago contente,
E o camelo do cura que se aguente,
Que engrole o seu latim e vá bugiar!
Grandes larápios! Era o que faltava
Vocês irem ao milho,
E a mim mandar-me à fava!
Pois muito bem, agora que vos pilho
Eu vos ensinarei, meus safardanas!
Vocês são mariolões, são ratazanas,
Têm bico, é certo, mas não têm tonsura
E, nas manhas, um melro nunca chega
Às manhas naturais de um padre-cura.
O melhor vinho que encontrar na adega
É para hoje, olé! Que bambochata!
Que petisqueira! Melros com chouriço!
E então a Fortunata
Que tem um dedo e jeito para isso!
Hei-de comer-vos todos um a um,
Lambendo os beiços, com tal gana enfim,
Que comendo-vos todos, mesmo assim
Eu fico ainda quase em jejum!
E depois de vos ter dentro da pança,
Depois de vos jantar,
Vocês verão como o velhote dança,
Como ele é melro e sabe assobiar!"

Mas nisto o padre-cura, titubeante,
Quase desfalecendo,
Atónito de horror, parou diante
Deste drama estupendo:

O melro, ao ver aproximar o abade,
Despertou da atonia,
Lançando-se furioso contra a grade
Do cárcere. Torcia,
Para os partir os ferros da prisão,
Crispando as unhas convulsivamente
Com a fúria dum leão.
Batalha inútil, desespero ardente!
Quebrou as garras, depenou as asas
E alucinado, exangue,
Os olhos como brasas,
Herói febril, a gotejar em sangue,
Partiu num voo arrebatado e louco,
Trazendo, dentro em pouco,
Preso do bico, um ramo de veneno.
E belo e grande e trágico e sereno,
Disse:
"Meus filhos, a existência é boa
Só quando é livre. A liberdade é a lei,
Prende-se a asa mas a alma voa
Ó filhos, voemos pelo azul! Comei!" -

E mais sublime do que Cristo, quando
Morreu na Cruz, maior do que Catão,
Matou os quatro filhos, trespassando
Quatro vezes o próprio coração!
Soltou, fitando o abade, uma pungente
Gargalhada de lágrima, de dor,
E partiu pelo espaço heroicamente,
Indo cair, já morto, de repente
Num carcavão com silveiras em flor.

E o velho abade, lívido d'espanto,
Exclamou afinal:
"Tudo o que existe é imaculado e é santo!
Há em toda a miséria o mesmo pranto
E em todo o coração há um grito igual.
Deus semeou d'almas o universo todo.
Tudo que o vive ri e canta e chora
Tudo foi feito com o mesmo lodo,
Purificado com a mesma aurora.
Ó mistério sagrado da existência,
Só hoje te adivinho,
Ao ver que a alma tem a mesma essência,
Pela dor, pelo amor, pela inocência,
Quer guarde um berço, quer proteja um ninho!
Só hoje sei que em toda a criatura,
Desde a mais bela até à mais impura,
Ou numa pomba ou numa fera brava,
Deus habita, Deus sonha, Deus murmura!
............................................................
Ah, Deus é bem maior do que eu julgava"

E quedou silencioso. O velho mundo,
Das suas crenças antigas, num momento,
Viu-o sumir exausto, moribundo,
Nos abismos sem fundo
Do temeroso mar do Pensamento.
E chorou e chorou A Igreja, a Crença,
Rude montanha, pavorosa, escura,
Que enchia o globo com a sombra imensa
Dos seus setenta séculos d'altura;
O Himalaia de dogmas triunfantes,
Mais eternos que o bronze e que o granito,
Onde aos profetas Deus falava dantes,
Entre raios e nuvens trovejantes,
Lá dos confins sidérios do infinito;
Esse colosso enorme, em dois instantes
Viu-o tremer, fender-se e desabar
Numa ruína espantosa,
Só de tocar-lhe a asa vaporosa
Duma avezinha trémula, a expirar!
.................................................
.................................................
E, arremessando a Bíblia, o velho abade
Murmurou:
"Há mais fé e há mais verdade,
Há mais Deus concerteza
Nos cardos secos dum rochedo nu
Que nessa Bíblia antiga Ó Natureza,
A única Bíblia verdadeira és tu!..."

Guerra Junqueiro

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Irrrrra!

Muito trabalho, muito calor e muita desinspiraçao. Só passo mesmo por aqui para apontar mais algumas coisas que me tiram do sério sobre a classe.. Só pra me relembrar de nunca ser assim.
Irritam-me enfermeiros graxistas lambe-botas dos chefes.
Irritam-me enfermeiros que gostam de se armar em médicos.
Irritam-me enfermeiros que criticam persistentemente os senhores doutores, dizendo que não fazem um corno, mas depois são capazes de ocupar o seu curto tempo a executar técnicas que são da competência dos médicos.
Irritam-me enfermeiros que criticam os atrasos e demoras dos colegas, mas depois são os primeiros a atrasar-se e a demorar.
Irritam-me os enfermeiros que tratam doentes idosos por "Ó santinho(a)!". (bless you
Irritam-me os enfermeiros (e não só) que dizem "Aquele doente está todo mijado e cagado". (esta já tinha falado, mas é sempre de bom tom relembrar)
Irritam-me os enfermeiros que não sabem merda nenhuma e agem que se fossem os reis da sapiência.
Irritam-me os enfermeiros que defendem a merda da CIPE.
Irritam-me os enfermeiros que se contorcem para orientar alunos e depois lançam-nos às feras e nem se incomodam em investir na preparação da formação.
Irritam-me os enfermeiros que dizem que as especialidades são um absurdo.
Irritam-me os enfermeiros que dizem que a licenciatura foi um absurdo.
Irritam-me os enfermeiros que criticam sindicatos, mas que nunca fizeram um corno para lutar pela classe e nem sequer são sindicalizados.
Irritam-me os enfermeiros que pisam a classe, os colegas, para animar administrações e assim subir no poleiro. Tipo dispensar enfermeiros de turno, para manter rácios saudáveis para as administrações.
Irritam-me enfermeiros políticos.
Irritam-me enfermeiros que têm 127 empregos.
Irritam-me enfermeiros que tratam auxiliares da mesma forma que alguns lacaios médicos tratam enfermeiros.
Enfim, irrita-me muita merda, mas não sou um gajo irritado.
Só para terminar, irrita-me quem critique este post... agora foi para descomprimir, critiquem à vontade. E já agora, contem lá o que vos irrita. Mas não se irritem!!!

sábado, 10 de julho de 2010

A Novela do Sr Salomão


Recentemente enviaram, para um post antigo do blog, um "comentário", que tudo leva a querer que seja mais uma das façanhas incríveis do nosso sistema (laboral e judicial), embora não compreenda alguns lançes, que o autor poderá explicar posteriormente. Pelo seu conteúdo achei que seria importante dar-vos a conhecer. O Sr Salomão faz então a seguinte queixa:

"NENHUM FUNCIONARIO PUBLICO, ESTÁ LIVRE DE PASSAR POR UMA NOVELA COMO A MINHA.
ULSAM+ACSS+ESTADO NÃO QUEREM ASSUMIR ERRO DA LEI 53/2006 E TENTAM ENCOBRIR.
DURANTE 23 MESES ESTIVE ENGANADO NA MOBILIDADE ESPECIAL,SEM ME PAGAREM ORDENADO E A LEI A QUE ESTAVA AFECTO, NÃO ME PERMITIA TRABALHAR PARA O PRIVADO E SEM SUBSIDIOS.
QUEREM ABAFAR O ERRO
E AGORA QUEM PAGA O ERRO?

Sou funcionário público do ministério de saúde (ULSAM), estive em mobilidade especial (lei53/2206) involuntariamente, durante 23 meses. A secretaria-geral nunca me pagou nada, dizendo que o meu processo se encontrava em análise, a lei a que estava afecto (53/2006) não me permitia trabalhar para empresas privadas. Puseram-me na miséria total, vendi tudo para sobreviver e estou endividado, perdi a minha casa, pedi comida a porta do GAF, no meio de toxicodependentes e alcoólicos para marcar a vez de chegada, debaixo de chuva e frio, tinha que fazer 3 km por dia a pé para alimentar a minha família. No fim a secretaria-geral do ministério de saúde ( Dra. Sandra Cavaca) decretou nulidade, remetendo-me para a unidade local de saúde do alto Minho (hospital de Viana do Castelo) onde eu era auxiliar de apoio e vigilância, e todas os direitos de indemnização teriam que ser feitos ao hospital, que cometeu o erro de me enviar e publicação no diário da republica, a minha colocação em sme. Por sua vez o presidente da ULSAM Dr. Martins Alves, não assume o erro descartando-se de que o erro é cometido por a administração central do serviço de saúde (ACSS). Ando em tribunal administrativo de Braga e nada se resolve, está agendada nova audiència para dia 16 Novembro de 2010, que tenho que provar que passei fome, que vendi tudo para sobreviver e que estou cheio de dividas de prestaçoes que não pude cumprir e estou com medo que ainda vou perder o processo com o estado,em suma passei de funcionário publico a miserável. Fui admitido de urgência novamente no hospital e ao fim de 16 anos de quadro da função pública ganho 485 euros e ainda estou no 1º nível e estou com o ordenado penhorado em 320 euro mês, tudo por um engano que não foi meu, eu só queria regressar ao trabalho. Em 2600 casos em mobilidade especial, eu fui o unico desgraçado, tenho vergonha do meu país.
Bem hajam
Atenciosamente
Salomão Mário d'Almeida Santos e Vasconcelos Mendes
tlm 916346420
B.I. Português
Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga
PS: durante este periodo enviei vário emails a pedir ajuda ao Exmo sr Primeiro ministro José Socrates,e a Ministra da saúde

domingo, 27 de junho de 2010

Opiniões VI - A mãe Enfermagem




Deixo-vos com um comentário do João sobre o que é enfermagem. Uma observação perspicaz com uma comparação que para mim, faz todo o sentido.
"Sabem... a enfermagem é a mãe dos hospitais. Passo a explicar, lá em casa quem sabe sempre de tudo, que se desmultiplica em planos e limpezas, tem sempre tudo pronto a horas, é aquela que tem a papinha pronta, que dorme duas horas porque os filhos estão doentes, que tem 15 coisas na cabeça, que remenda, que apazigua os ânimos... no fundo, que é a alma lá de casa... sim é a mãe.
No hospital o enfermeiro tem as mesmas funções...
Vocês pagam á vossa mãe?
Eles também não."

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O (des)acordo do Ministério da Saúde com os enfermeiros

Acabo de ler um email do José Carlos Martins, sobre a novela das negociações...
Definitivamente parece-me que não vamos chegar a lado nenhum. A carreira de enfermagem vai continuar desvalorizada e os enfermeiros a serem licenciados de 2ª... os licenciados pior pagos no país! É para vermos o valor que os nossos governantes dão à enfermagem e saúde portuguesa.
A batalha foi ganha pelo MS, mas parece que já estava ganha desde o início, pois por mais reivindicações, manifestações, greves massivas, protestos e esforços dos enfermeiros e sindicatos, que se fizessem e tivessem, eles (MS) nunca iriam ceder em quase nada, isto porque têm a faca e o queijo na mão.
Têm o poder de fechar unilateralmente as negociações, têm o poder de chantagear, têm a defesa da crise (construída por eles próprios). Têm o poder de nos desunir, têm o poder de mentir, têm o poder de fazer aquilo que bem entendem, porque mandam e quem manda pode.
Temos colegas que sempre fizeram greve e lutaram por aquilo que acham justo, mas que agora ameaçam desistir, pondo em causa o trabalho dos sindicatos.
Temos colegas que continuam indiferentes a tudo isto, que criticam tudo e todos, mas nem greve fazem.
E teremos alguns resistentes que continuam a lutar em todos os sentidos.
Mas todos pensarão, será que vale a pena?
Os enfermeiros revoltam-se, culpam os sindicatos, desgastam-se, dispersam... e a greve ameaça ser um fiasco... e mais uma batalha ganha pelo MS.
O momento em que deveriamos demonstrar o nosso repúdio pelo fecho unilateral de negociações, pelo (des)acordo que o MS diz ter feito,  que pelos vistos não é acordo nenhum, porque simplesmente não houve acordo. O momento onde deveriamos mostrar ainda mais força, é o momento em que definitivamente fracassámos, prova disso é a adesão à manifestação de hoje... pouco mais de 100 enfermeiros estarão em Lisboa, quando as anteriores manifestações foram em número bem superior.... é outro sinal de saturação, desanimo, descrédito nos sindicatos. E mais uma batalha ganha pelo MS
O JCM do SEP bem tenta animar e revoltar as hostes, explicar os factos, o porquê da desconvocação de grande parte da greve, motivar para a importância da manifestação e deste dia de greve, mas não sei...
Eu cá continuarei a fazer o que posso e a lutar por aquilo que é justo!
E vocês?

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Greve anulada

A greve estava prevista para os dias 9, 11, 14, 15, 16, 17 e 18 de Junho.
Numa primeira fase desconvocaram a greve até ao dia 14 inclusive. Após a reunião com o MS desmarcaram também os dias 15, 16 e 17.
Ainda não sei exactamente o que pensar. Se é sinal de cobardia, se era aquilo que era mais viável, dadas as ameaças do MS, se é um retrocesso irreversível, se é um retrocesso prudente... bem, não sei mesmo o que pensar. Uma coisa é certa, se eu me considero um revolucionário nato, um lutador que estará sempre nas fileiras da frente na luta por causas justas e já estou farto desta merda, imagino como estarão os outros que nunca quiseram saber muito disto.
Em parte concordo com o Filipe... eles estão a dar-nos uma lição em processos negociais.
Mas por enquanto, aguardo as explicações do SEP. Só depois disso é que já saberei exactamente o que pensar.
E vocês, o que pensam disto??!

sábado, 12 de junho de 2010

Levas uma estalada nesse cú, que até te regalas!

Irrita-me a falta de educação de uma boa parte dos putos de hoje em dia. No meu tempo nem o maior rufia pensava sequer em tocar num prof e ai de quem lhe faltasse à educação, era logo conselho directivo, uns dias em exílio para reflectir e sopa de urso em casa. Actualmente é o que se vê... empurrões, murros, estaladas e insultos e se o prof se passa e dá um apertão ao puto, estão os pais cá fora à espera para acertar contas, ou fazem queixa à TVi.
No meu tempo, ai do filho que levantasse a mão ou falasse mal aos pais! Até andava de lado... Actualmente é o que se vê, putos malcriados, a fazer birras estúpidas e a bater nos pais... mas a culpa é dos pais, que dizem, Ohh Joazinho, então! Tá quietinho! Não sou a favor de violência, mas ficava bem uma "estalada nesse cú".
Irritam-me também estes novos ricos que tratam os filhos por você, Ohh Joazinho, não faça cocó na varanda! Eu cá sempre fui educado a tratar a minha família por tu e houve sempre respeito.
Agora vejam esta peça que trata a avó por você... É de chover chouriças

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Os desabafos de um enfermeiro açoriano


Recebi há uns tempos um email de um colega dos Açores, que achei que devia partilhar convosco. Dizia o seguinte:
Boas!
É com admiração que lhe envio este email... acabei de ler praticamente todos os posts do seu blog e traduziu por palavras tudo o que penso. Gostaria de desabafar exactamente com a mesma pinta que o faz... incrivel! Vou começar por me apresentar... chamo-me (retirado a pedido do autor) e sou enfermeiro há (retirado a pedido do autor) (jovem ainda nestas andanças e no entanto já "farto" da muita mer** que vejo todos os dias). Trabalho numa instituição privada, de assistência psiquiátrica há quase (retirado a pedido do autor) anos...
Residente nos Açores, natural de (retirado a pedido do autor). Tirei o meu curso cá e acabei por cá ficar por opção e necessidade. Na altura aqui, ainda haviam garantias, mas actualmente o quadro está idêntico ao do continente... EPE's, contratos precários, desemprego em enfermagem e a minha antiga escola continua a formar pessoal, como o padeiro às 3 da manhã... é só meter no forno!
Iniciei a minha actividade profissional numa (retirado a pedido do autor)
Vim para (retirado a pedido do autor) cheio de sonhos e ilusões, pensando que local igual ao anterior não existia e enganei-me! Estou no quadro, e dou me por muito "feliz" por estar numa situação que muitos invejam actualmente. No entanto, sinto me completamente frustrado!!
Estou a fazer Noite e estou sozinho como enfermeiro no serviço. Tenho aqui junto a mim, um AAM a passar pelas madornas e outro noutra unidade a fazer provavelmente o mesmo.
Tenho agora sobre a minha responsabilidade cerca de 170 utentes (ou clientes, como dizem agora), distribuidos por 2 Unidades ( Agudos e Crónicos), num edificio com 4 pisos distintos (o edificio está estruturado quase como um labirinto), 1 deles sem acesso por elevador, apenas escadarias. Grande parte dos utentes são idosos, com patologias associadas à idade, além da doença psiquiátrica que os votou à institucionalização. Estou sozinho... rezando para que tudo corra bem!
Os turnos da Manhã, são assegurados por 2 enfermeiros em cada unidade, os turnos da tarde por 1 enfermeiro por unidade e o turno da noite, apenas 1 enfermeiro para as 2 unidades (Segundo a perspectiva de quem só vê papeis, à noite os doentes dormem, pelo que não se justifica estar a pagar a 2 enfermeiros, no minimo, para assegurar o serviço). Há uns meses, fizemos pressão ao nosso director de enfermagem para colocar mais um enfermeiro à noite, e a resposta foi negativa, pois não havia orçamento para admitir mais um enfermeiro. Justificamos o porquê da nossa exigencia, não só baseados no rácio, mas nas necessidades especificas dos utentes e rotinas associadas ao turno da noite... mas não valeu de nada... não havia dinheiro. Mas houve dinheiro para colocar uma senhora licenciada em recursos humanos (que deve ganhar o mesmo ou mais que eu), sentada no seu gabinete (com melhores condições que o nosso - que nem uma janela tem para arejar), para tratar das férias do pessoal e burocracias associadas, das quais nada percebo. Com certeza que é muito mais importante garantir que o pessoal pica o ponto a horas certas, tira os dias certos de férias (sem prejuizo para a instituição), do que garantir bons cuidados de enfermagem aos utentes internados nesta casa.
A minha rotina nas noites, é sempre a mesma: Entrar a rezar para que tudo corra bem e que nenhum utente passe mal ou morra no meu turno, ir às 2 da manha fazer ronda, mudar 30 fraldas com um auxiliar que quer despachar serviço, pois tem que ir dormir, assim, não posso tar cá com caganças de posicionar correctamente, esticar devidamente os lençois, e ficam lixados se peço ajuda para algo que não seja o habitual (só e estritamente mudar fraldas de qualquer jeito e feitio). Rondas aos utentes "independentes" faço sozinho se quiser. Nas rondas piso "escarros" de doentes, urina, fezes... faço acrobacias para me manter de pé e não partir a cabeça...
Às 6:30 começam as higienes dos utentes. Os pobres coitados que no fundo são acamados, são arrastados para o WC sem condições, e lavados à pressão, pois às 7 horas quando entram mais dois auxiliares, os 8 "utentes de cadeira de rodas" já tem que estar aprumadinhos, senão temos o caldo entornado. Às 7h entram uns quantos utentes despidos para os balneários (os considerados "independentes", mas apenas porque se seguram de pé) e lá estou eu a levar uma esfrega até ás 7:30. Durante essa hora, não há enfermeira para ninguém (foi-nos imposto auxiliar-mos nos banhos durante a noite... nós é que auxiliamos o AAM e não o contrário), só e apenas no balneário. Se estiverem a morrer, venham ter comigo!! Como já só tenho meia hora, e se não houver nenhuma complicação, tenho que ver Sinais Vitais necessários, administrar terapêutica, posicionar e mudar fralda a quem fica na cama, fazer notas para com sorte sair antes das 8:30 do serviço com o turno passado. Sinto me orgulhoso?! NÃO!!!! Tenho vergonha de ter tirado uma licenciatura para trabalhar nestas condições, para ganhar uns trocos no fim do mês... sim uns trocos!! Não há dinheiro que pague a minha preocupação por estar sozinho e a responsabilidade que carrego nos meus ombros de 170 pessoas... sim, 170 pessoas!!! Presto cuidados de qualidade ?? NÃO!!! simplesmente não é possivel... faço o que posso!
E isto é só o fio da meada... Agora tenho que ir dar banhos...
Muito obrigada pela disponibilidade... ler o seu blog inspirou me. Abri a boca e não me calei... desculpe!
Continuação de um bom trabalho!!
Enf. xyzxyz

NOTA: Alguns elementos foram retirados deste post a pedido do autor. Além de tudo isto que acabaram de ler, parece que naquele local há perseguição tipo PIDE, pois o colega manifestou-me o seu receio em ser despedido, pois o meio é pequeno e facilmente identificariam o autor. O seu discurso em nada foi modificado. Peço que reflitam no que acabam de ler. A minha vontade era fazer uma denuncia à Ordem, mas só o colega é que se deve pronunciar quanto a isso.
Recuamos 2 séculos no tempo.. a foto que imaginei logo para este post seria uma dos judeus nos campo de concentração, mas depois reconsiderei 

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A vergonha das horas extraordinárias

Um (grande) colaborador do pddse enviou-me o seguinte artigo:

Segundo a agência LUSA, A Unidade Local de Saúde de Viana do Castelo (ULSAM) pagou, em 2009, mais de 5,8 milhões de euros de horas extraordinárias a médicos.
Quanto aos enfermeiros, o custo do trabalho extraordinário ascendeu a 800 mil euros.
A ULSAM tem 2621 funcionários, dos quais 528 são médicos e 861 enfermeiros.
Os números constam do Relatório de Contas da ULSAM, entidade que em 2009 teve resultados operacionais de 1,69 milhões de euros positivos e resultados líquidos de 1,49 milhões de euros positivos.

Consultem este artigo completo clicando aqui

É por estas e por outras que o lema deste blog faz todo o sentido...
Como já foi dito num post anterior, os enfermeiros deixaram de receber, já há uns tempos, a remuneração correspondente às horas extraordinárias efectuadas. Agora percebo porquê! É que eram precisos esses milhares de euros para pagar os MILHÕES aos médicos...
Os médicos ganham mais. É um facto.
O hospital precisava de contenção económica. É um facto.
O hospital foi dos poucos que apresentou contas positivas. É um facto.

Agora o que não é de facto aceitável, é deverem dinheiro aos enfermeiros.
Mas que raio de sistema é este?!
Ninguém ouve os médicos a queixarem-se por falta de pagamento, isto porque foram pagos os 5,8 MILHÕES DE EUROS correspondentes a horas extraordinárias.
Quanto aos enfermeiros... pagaram 800 mil euritos e... e... (isto tendo em conta que os enfermeiros são o dobro do número de médicos, até porque não acredito que aqueles dados estejam correctos, mas isso também não interessa muito).
Já entraram os sindicatos ao barulho, a frustração é a diária, a pressão aos chefes é contínua. Mas continua tudo na mesma e promete piorar.
É este o triste país que temos, os mais pobres é que levam sempre com a fava. Não se mexam, não...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Intermete nojo


No hospital onde eu trabalho, alguém terá tomado a seguinte decisão vergonhosa:
Os médicos, os enfermeiros chefes, os enfermeiros da vmer e outros funcionários têm acesso a internet e os ENFERMEIROS NÃO TÊM ACESSO A INTERNET !!! Ou melhor, OS ENFERMEIROS NÃO TÊM DIREITO A INTERNET !!!.
1º ponto - Eu e muitos como eu, estamo-nos pouco a incomodar pelo facto de não termos internet. Temos o tempo demasiadamente ocupado, por isso dificilmente iriamos ter tempo para navegar.
2º ponto - Eu e muitos como eu, estamos indignados, pelo facto de uns terem direito a internet e outros não. Chama-se a isto DISCRIMINAÇÃO !!!
3º ponto - A internet não é um "bem essencial", mas poderá ser útil para pesquisa no âmbito da saúde, tanto para médicos como enfermeiros. Ou só os médicos é que terão necessidade de pesquisar??!!
4º ponto - Todos sabemos que a internet é muitas vezes utilizada (em trabalho) para fins pouco próprios (como ver o site do jornal "A Bola", ir ao facebook, etc etc). Questiono: Terão, tomado esta decisão, com receio que sejam os enfermeiros os únicos que poderiam navegar por estes sites proibidos??!! É que, não sei se sabem, mas toda a gente o faz (o que está mal!), excluindo os ENFERMEIROS QUE NÃO TÊM DIREITO A INTERNET !!!.
5º ponto - Também vos garanto que se os ENFERMEIROS TIVESSEM DIREITO A INTERNET !!!, iriam visitar estes sites pouco próprios (o que está mal!), mas acredito que se o fizessem, sendo pessoas responsáveis, só o fariam quando não tivessem trabalho que fazer
SOLUÇÃO: limitar o acesso apenas a sites relacionados com saúde e interdir todos os outros.. é uma ideia, ou entao acabar de vez com a Internet, porque OU É PARA TODOS OU NÃO É PARA NENHUM!!! OU VIVEMOS NALGUM REINADO??!!

sábado, 22 de maio de 2010

Deixarei de pagar Quotas!


A classe de enfermagem é certamente aquela que mais petições cria. E quando isso acontece, é porque as coisas não andam bem. Desta vez criou-se uma petição contra o aumento das quotas na Ordem dos Enfermeiros.
Acho que é um insulto aumentarem a quota desta forma, por isso eu vou assinar. Se me dissessem que a Ordem estava a defender a classe, a defender e exigir cuidados de enfermagem de qualidade, a pressionar as administrações que persistentemente atacam a classe, a resolver o problemas das especialidades, etc, etc, etc, eu até pagaria o valor que se fala, ou mais.
Mas porque vejo muita inércia, muito esbanjamento em viagens e instalações palaciais, garanto-vos aqui que deixarei de pagar quotas. Já todos os meses me/nos levam perto de 8 euros e cada vez que transfiro dinheiro para a Ordem sinto um amargo de boca, porque sinto que é o dinheiro mais mal empregue...
Não brinquem comigo/connosco, tenho mais que fazer ao pouco dinheiro que ganho!! Estamos em crise?! É a inflação?! É do PEC?! Não gozem... esta deve ser a Ordem mais rica do país!!
Assinem a petição aqui

terça-feira, 18 de maio de 2010

Des(arranjos) no SU


Recentemente notaram-se algumas reviravoltas físicas no serviço de Urgência.
PRIMEIRA: Os utentes da triagem geral passam todos a ser observados no antigo SAG (Serviço atendimento gripe) e com eles foram 2 médicos de clínica geral, 1 ENFERMEIRO E 1/2 AUXILIAR DE ACÇÃO MÉDICA.
SEGUNDA: Os médicos ortopedistas mudaram de gabinete.
Hoje vou apenas dedicar-me a reflectir sobre a segunda reviravolta, porque a primeira vai dar-me muitas dores de cabeça e já é tarde, quero ver se durmo.
Os médicos ortopedistas reclamaram ao serviço de higiene e segurança no trabalho problemas por causa da temperatura do gabinete e conseguiram a mudar de gabinete. Com esta mudança, ficam crianças a aguardar consulta, no corredor da urgência, onde volta e meia estão doentes a despirem-se na maca em frente. Caros senhores gestores, quando se faz uma mudança é preciso analisar todo o contexto envolvente!
Os enfermeiros também se queixam das péssimas condições de trabalho na sala de tratamentos de curta duração, mas possivelmente não estão a ser tão inteligentes como os ortopedistas, porque (penso eu) ainda não se queixaram ao tal serviço de segurança no trabalho. Será que se o fizessemos, iria haver mudança? Nada custa tentar...
Por algumas vezes referi as fracas condições de trabalho nesta sala em posts anteriores. Vejamos mais uma vez:
1. WC minúsculo, sem material de apoio, sem ajudas técnicas (para deficientes físicos) já para não falar na sanita continuamente entupida. Trata-se do primeiro wc do hospital para o utente, o que dá a imagem da higiene no hospital e possivelmente é o que tem as piores condições.
2. Espaço geral reduzidíssimo, onde são precisas várias "ginásticas" para fazer passar uma maca e uma cadeira de rodas.
3. Espaço e distribuição de lixos péssima! Um hospital que deveria dar o exemplo na reciclagem e ideias práticas no depósito de lixo constata-se, pela falta de espaço, uma improvisação ineficaz.
4. 3 computadores numa secretária de 1,5mt, todos amontoados e estupidamente lentos.
5. Impossibilidade de um profissional sentar-se e escrever no computador, isto porque a abertura de armários e o facto de se retirar material debaixo da tal secretária, o impede. O que leva a que os profissionais escrevam de pé, com as costas curvadas, levando a médio longo prazo, baixas por lombalgias
6. Ar (des)condicionado 
7. Sistema de portas ineficaz
8. Sistema de cortinas que separam os doentes ineficaz, levando a que, nem os profissionais tenham espaço para prestar cuidados, nem os doentes tenham privacidade.
Quem quiser que continue...

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Allez up, allez up! Força papa faz o goool!


A (absurda) tolerância dada pela vinda do papa, afinal parece que é só para alguns. Os profissionais de um tipo de hospital, podem retirar o dia para visitar Sua Santidade ou meditar sobre os problemas mundiais, enquanto que os profissionais de outro tipo de hospital não têm o mesmo direito. Se já é um erro dar esta tolerância, erro a dobrar é discriminar... parece-me que isso não vá de encontro aos princípios da igreja!
Por falar em igreja e em papa, não me cai muito bem que tirem dias de escola aos míudos, para prepararem a visita ao papa e ainda por cima que os obriguem a dizer que amam um senhor que nem conhecem. É tanta a euforia que depois começam a gritar Olé Olé papa Oléeee! Como se tivessem no estádio a ver o Benfica... por pouco não começavam, E quem não salta, não é do papa!
Eu cá diria, Allez up, allez up! Força papa faz o goool!
Curiosa também foi a ideia do Xico esperto do Sócrates lançar as medidas de austeridade do PEC, no dia em que os portugueses estão pacíficos e compenetrados no 13 de Maio, dia da Nossa Senhora de Fátima. Pra ver se as medidas passam despercebidas... finório o gajo! Aperta o cintooo!!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Por pouco não ia ao Você na TV!












Os mais atentos sabem que não costumo andar muito atento à minha caixa de correio e por isso faço desde já um apelo, caso me enviem um email pessoal, notifiquem-me no próprio blog.
Há uns dias o pddse foi contactado pela TVI! Tanto insisti, aqui no blog, na realidade e gravidade burnout em prof. de saúde, que fui convidado a falar. Mas já cheguei tarde... Este era o email:

Boa noite Guilherme(?),
O meu nome é Rosário Mendonça e sou editora do programa Você na TV, o programa da manhã da TVI. Estou, desesperadamente, à procura de profissionais de Saúde que sofram, ou tenham sofrido, de Síndrome de Burnout. A ideia é que, amanhã, nos possa relatar com um testemunho do processo pelo qual passou, ou está a passar. Este testemunho pode ser presencial, ou ao telefone. Em qualquer dos casos, garantimos anonimato se assim o desejarem. As nossas instalações são em Queluz de Baixo, as despesas de deslocação são da nossa responsabilidade e hora da participação é entre as 12h00 e as 13h00. O meu contacto, para além deste e-mail ou do (retirado pelo autor)@tvi.pt é (retirado pelo autor)

A minha resposta:
Muito boa noite,
Lamento imenso não ter respondido a tempo. Não tenho andado muito atento a esta caixa de correio. O Guilherme de Carmo é um nome fictício de um enfermeiro que tem como objectivo reflectir e discutir sobre os graves problemas da enfermagem portuguesa, mas que por motivos maiores necessita manter anonimato.
Sinto extrema desilusão por não ter assistido e participado nessa discussão. Muito haveria por dizer de facto. O burnout em profissionais de saúde é um problema que tem aumentado exponencialmente. Em trabalhos de investigação aponta-se a medicina e enfermagem, como os principais alvos de stress prolongado, que levam ao sindrome burnout.
Esta semana pôs termo à vida um jovem médico, causa PROVÁVEL - problemas laborais.
A nível pessoal, felizmente, não direi que me encontro em "burnout". Contudo existe uma série de factores como:
Fracas condições de trabalho;
Injusta valorização da "carreira" de enfermagem, "carreira" esta que está congelada há (salvo erro) 8 anos, daí as aspas, é uma carreira fantasma;
Desrespeito, humilhação remuneratória;
Atitudes discriminatórias, ofensivas das administrações hospitalares;
Falha na segurança física dos profissionais de saúde;
Não pagamento de trabalho extraordinário;
Desvalorização substancial das horas de valor (nocturnas, feriados, fins de semana);
Indefenição, desvalorização das especialidades de enfermagem, etc etc,
que desgastam TODOS os enfermeiros, profissionais que, como calcula, deverão estar o máximo possível "em paz", para melhor cuidar o doente.

Fico inteiramente disponível, caso surjam futuros programas, debates, sobre este problema. Pode contactar-me caso deseje, via email, ou preferencialmente através do próprio blog porquedeixeideserenfermeiro.blogspot.com, clicando em "comentários"
Com os melhores cumprimentos
G.

terça-feira, 4 de maio de 2010

O dia das luvas cor de rosa



Podíamos sugerir este dia para os hospitais portugueses! Era de valor! Empregados de limpeza a dançar com administradores, enfermeiros com técnicos de laboratório, auxiliares com médicos, todos juntos, com os doentes também, por uma causa! Bahh já estou a sonhar... somos um povo muito frio, sisudo e que não gosta de misturas nem confianças, seria impensável... ou não..

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Curtas estapafúrdias vol VI - Baratas tontas

Enfª directora para os enfermeiros do Serviço urgência - Vocès são muito desorganizados, parecem umas baratas tontas!

Ora, o que se entende por barata tonta?! É um "bicho" que tem muitas patas, logo anda demasiadamente rápido, mas é tonta porque às vezes parece que não sabe para onde vai.
Neste caso do SU tem alguma lógica, de facto andamos demasiadamente rápido e às vezes parece que não sabemos para onde vamos porque temos 3 ou 4 coisas da nossa competência para fazer, mais 2 ou 3 que não são da nossa competência e depois temos que decidir rapidamente entre 3 ou 4 coisas, qual delas é a mais prioritária! São muitas coisas para uma barata!!! Ó Melga desaparecido! Ajuda aí por favor!
Portanto eu como sou uma pessoa de bem, depreendo que quando a senhora directora disse (mais ou menos) isso que vos acabo de dizer, estava a referir-se a "baratas tontas" neste sentido de que temos tanto trabalho, num serviço tão desorganizado, que às vezes andamos tontos... Ou então sou mesmo parvo e ingénuo.

Agora uma coisa que não compreendo é como é que a senhora directora conseguiu chegar a esta conclusão, se nunca (ou quase nunca) por lá é vista.... acho que tem a extraordinária capacidade de omnipresença... Ou então sou mesmo parvo e cínico.
Parvo tá visto que sou...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Curtas estapafúrdias V - Distúrbios do aparelho genital


Na triagem...

Jovem - Tive com a minha namorada a hfbjfhiqi e forcei demais o blaqnec e agora tenho 2 talos no blaqnec e doí-me...
Enfermeiro - Quer dizer que teve relações com a sua namorada e agora tem uma lesão no pénis?!
Jovem - Nãaoo! É na piça mesmo!

É por isso que este país não anda pra frente, com tanta ignorância. Também alguém já mais velho queixou-se igualmente de distúrbios do aparelho genital.,

Alguém já mais velho - Sr. Enfermeiro, tenho dores (com sua licença) nos colhões

Ao menos foi educado... podia ser pior

sábado, 17 de abril de 2010

O senhor que esperava por otorrino, parte II

















Recordam-se daquele senhor que esperava por otorrino? (ver post)

Reconhecio-o apenas pelo olhar.
Olhos verdes de cor e cinzentos de expressão.
Expressão absorta e triste,
daquela tristeza que mexe com o menos sensível.
A barba baça e farta enchia-lhe o rosto,
comia-lhe a boca a disfarçar a ausência de sorriso
Não encontrava motivo para sorrir,
talvez não sorrisse há meses.
Agora já não esperava por otorrino,
esperava a morte

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Ele há cada um...

Há uns tempos atrás, um dito "jornalista" do Expresso, escreveu um "artigo" sobre a greve de enfermagem, que penso que tenha sido do vosso conhecimento, pois foi muito badalado. As palavras entre-aspas, traduzem a minha natural ironia. Quem me conhece, sabe como é. Por isso, esse senhor é tudo menos "jornalista", ou seja, insulta a sua classe e escreveu tudo menos um "artigo", pois chegei ao 2º paragrafo e decidi parar, porque achei que não valia a pena perder o meu tempo com alguém tão ignorante e vazio de pensamento. É como quando eramos putos e eramos pressionados e ofendidos pelos mauzões e alguém nos dizia, "deixa lá não ligues, que não vale a pena, não merece". Para quem não conhece, fica então o "artigo" do Senhor Henrique Raposo, no Jornal Expresso, que também perdeu toda a credibilidade. Já não se fazem jornais e jornalistas como antigamente, qualquer dia o Expresso torna-se no 24 horas.
Agora talvez não conheçam a resposta do sindicato ao mesmo senhor Raposo. Apesar de extensa vale bem a pena, tem algumas passagens que me fizeram rir (no bom sentido)
Aqui fica:
"Os Enfermeiros SÓ EXIGEM O QUE LHES É, JUSTO!
Entendeu o Jornalista Henrique Raposo escrever sobre os enfermeiros e a luta que desenvolvemos
entre as 12 horas do dia 29 de Março e as 8 do dia 1 de Abril. Escrever sobre a profissão de outros
não é problemático ; mas escrever como foi o caso, sem qualquer rigor mais do que colocar em
causa os enfermeiros e a profissão de enfermagem, põe em causa o trabalho dos restantes colegas
jornalistas que, sobre a greve dos enfermeiros, fizeram um trabalho exemplar.
Porque o seu desconhecimento sobre a profissão de enfermagem é por demais evidente e para
que, no futuro, no respeito pelo que é obrigado a fazer ‐ informar os seus leitores – importa que
saiba:
I. A greve dos enfermeiros iniciou‐se às 14 horas de segunda‐feira e apenas no horário
programa da tarde, o que significa que na maior parte dos hospitais a greve só se
iniciou às 16 horas e, na generalidade dos centros de saúde porque os horários
programa só incluem o período da manhã, ainda que assim o quisessem, os
enfermeiros estiveram impossibilitados de aderir à greve. E perguntar‐se‐á o Sr.
Jornalista, agora, a razão pela qual a greve foi convocada desta forma. A resposta é
simples. Porque com o sentido de responsabilidade que sempre temos, decidimos que
depois de um fim‐de‐semana deveríamos permitir a existência de um período de
tempo em que os serviços pudessem se reorganizar, restabelecer stocks de
medicação, de roupa, etc. Com o mesmo objectivo a greve terminou às 8 horas de
Quinta‐feira. Neste contexto, cai por terra a sua apreciação leviana de que os
enfermeiros iriam ter “uma semana” de férias como ousou escrever ainda que saiba
(espero) que os enfermeiros trabalham por turnos e PRESTAM SERVIÇOS MINIMOS
quando em greve.
II. “Fazer reivindicações sem sentido é o desporto do nosso sindicalismo”. Não sei que
sindicalismo é que o sr. professa mas não será certamente o sindicalismo que o
Sindicato dos Enfermeiros Portugueses desenvolve e, mais uma vez, a sua
argumentação revela tanto de desconhecimento como de falacioso. Importa que saiba
que o vencimento que invoca de 1500 euros para um jovem médico, em pré‐carreira,
que não desenvolve exercício autónomo…. não toma decisões, ou seja, está a
concretizar mais uma parte da sua aprendizagem, é na realidade, de 1850 euros. O
contraponto disto são os enfermeiros que quando iniciam as suas funções já o fazem
de forma autónoma, são capazes de decidir e de assumir a responsabilidade pelas
decisões que tomam. O Regulamento do Exercício Profissional dos Enfermeiros –
Decreto de Lei nº 161/96 de 4 de Setembro ‐ é muito claro: “Enfermeiro é o
profissional habilitado com um curso de enfermagem legalmente reconhecido, a quem
foi atribuído um título profissional que lhe reconhece competência científica, técnica e
humana para a prestação de cuidados de enfermagem gerais ao indivíduo, família,
grupos e comunidade, aos níveis da prevenção primária, secundária e terciária.”
Afirma ainda o Sr. Jornalista que “um licenciado na função pública não pode ganhar
1200 logo à partida (se ganhar o país enlouqueceu).” Parto do pressuposto que não é
licenciado e infelizmente fico com a certeza que enquanto cidadão desconhece as leis
do país (sabe que tem o dever de as saber) mas pior é ser jornalista e… não as saber.
Que informação fidedigna poderão esperar os leitores do Jornal Expresso, vindas de
si? Sr. Jornalista, o início da Carreira Técnica Superior da Administração Pública são
1201,48 e o Governo anterior legislou – Lei 12‐A/2008 de 27 de Fevereiro – e
reafirmou na Lei do Orçamento (2009) que “nenhuma entidade empregadora pública
pode oferecer menos que aquele valor a um licenciado”. Sr. Jornalista, o “país só está
louco” porque se permitiu que o valor da Carreira Técnica Superior diminuísse dos
1360 euros para estes míseros 1201 euros. O País está louco porque permitimos,
TODOS, que o valor do trabalho diminua de forma administrativa… O País está louco
porque temos pessoas que se julgam competentes para escrever o que pensam, sem
saberem o que estão a pensar… Escusado será dizer que, se é licenciado, e no mínimo
não está a ganhar 1201,46 então, lute por isso.
III. “Ressentimento classista contra os médicos”. Porque razão haveriam os enfermeiros de
terem ressentimentos contra os seus colegas de trabalho??? Os enfermeiros
desenvolvem intervenções autónomas ou interdependentes no âmbito das suas
qualificações. Prescrevem cuidados de enfermagem e são os únicos responsáveis por
eles. Ainda, os “enfermeiros têm uma actuação de complementaridade funcional
relativamente aos demais profissionais de saúde, MAS dotada de idêntico nível de
dignidade e autonomia de exercício Profissional “(artº 8º, ponto 3, Dec‐Lei nº161/96).
Significa isto, que nas equipas pluridisciplinares existe campos de intervenção dos
diferentes profissionais com um único objectivo: reabilitar a pessoa doente. Mas mais,
os enfermeiros têm uma visão da pessoa doente de forma holística, no seu todo,
integrado na família e na comunidade. Nós não nos limitamos a olhar para a situação
patológica que levou ao internamento de uma pessoa. Por isso, importa falar com o
doente e com os seus familiares. Importa conhecer os seus hábitos de vida e tentar
minimizar o seu desconforto e fragilidade enquanto internado. Por isso os enfermeiros
estabelecem contacto com os seus colegas, nos centros de saúde quando há
previsibilidade de alta de um doente. Porque importa saber quais as condições das
famílias para receberem um familiar doente e para que os cuidados de enfermagem
possam ter continuidade, independentemente, do local onde são prestados. Por isso,
a maioria das visitas domiciliárias deste país são feitas por enfermeiros, apesar da
ausência de quaisquer condições, na maior parte dos casos. Mas os enfermeiros VÃO
e ESTÃO e FAZEM e SABEM FAZER! O único ressentimento que poderíamos ter é a
subvalorização de todas as carreiras do sector da saúde e o ressentimento de ainda
haver, em pleno século XXI, pessoas como o sr. Jornalista cuja concepção das
profissões e dos seus profissionais é feita à luz de valores culturais há muito
ultrapassados.
IV. Finalmente, caro sr. jornalista existem a trabalhar no Serviço Nacional de Saúde 39600
enfermeiros. No 1º Congresso de Enfermagem, em 1972, dizia o Dr. Adelino Amaro da
Costa, em representação do governo de então, que Portugal deveria fazer um esforço
para em 1980 ter cerca de 40.000 enfermeiros no SNS (Serviço Nacional de Saúde).
Sugestivo não? Saberá o sr. uma das razões de tal afirmação? Certamente que não
mas com uma ajuda na reflexão será fácil: os enfermeiros são os que, por estarem
mais próximos das pessoas e por desenvolverem o que acima descrevi – têm uma
visão holística da pessoa, intervindo durante todo o seu ciclo vital, do nascimento até
à morte – significa que cuidam das pessoas ainda que saudáveis, ensinando‐as a terem
hábitos de vida saudável, ou seja, actuam na prevenção. Esta intervenção autónoma e
fundamental dos enfermeiros permitiu, também, que todos os indicadores do nosso
Serviço Nacional de Saúde melhorassem significativamente colocando‐o entre os
melhores do mundo. Isto mesmo foi reafirmado pelo responsável da OMS‐Europa,
aquando da sua visita a Portugal há três semanas a mais. Também disse que para a
sustentabilidade do SNS era necessário admitir mais enfermeiros e isto, por um lado,
Portugal continua a apresentar a média mais baixa da Europa a 15 de 1
enfermeiro/1000 Habitantes e por outro, porque a orientação major da Organização
Mundial de Saúde para as próximas décadas é… a prevenção!
V. Neste contexto, Sr. Henrique Raposo uma pergunta terei que lhe fazer tendo em conta
que a sua preocupação apenas se prendeu com o valor salarial dos enfermeiros,
comparando‐os com outros: SE EM PORTUGAL CONTINUA A EXISTIR UMA CARÊNCIA
ESTRUTURAL DE ENFERMEIROS; SE OS ENFERMEIROS QUE EXERCEM FUNÇÕES NOS
HOSPITAIS, nomeadamente nos serviços de internamento de Medicina, Cirurgias e
Ortopedias, ESTÃO A SER UTILIZADOS A 153% e em alguns casos a 200% (dados do
Ministério da Saúde); SE na rede dos Cuidados Continuados, na maior parte dos casos,
existe 1 enfermeiro por turno, para 10, 20 doentes totalmente dependentes (na sua
maioria); SE NOS CENTROS DE SAÚDE FALTAM CERCA DE 5000 ENFERMEIROS (de
acordo com a orientação da OMS de 1 enfermeiro para 200 famílias);
VI. Se ainda assim, o nosso SNS está entre os melhores do mundo apenas poderá tirar uma
conclusão: que os enfermeiros sendo o maior grupo profissional do sector da saúde,
ainda que a carência exista, são também os que mais concorrem para a obtenção de
ganhos em saúde da população portuguesa e… por isso os maiores geradores de
riqueza.
VII. Neste contexto, só exigimos o que é justo e, neste caso que a riqueza que produzimos nos
seja redistribuída e, para que registe, sob a forma da valorização do nosso trabalho de
acordo com as qualificações que temos desde 2000 – LICENCIATURA – à semelhança
com o que já aconteceu com outros sectores profissionais
VIII.OS ENFERMEIROS têm o DIREITO de exigir e CONSEGUIR que a sua CARREIRA, Especial e
de GRAU DE COMPLEXIDADE 3 (o mais alto da Administração Pública) se inicie ao nível
remuneratório de outras carreiras semelhantes, não só pelo atrás expresso mas
também porque têm uma profissão cuja natureza é de risco e penosidade. Não será
do seu conhecimento mas há evidência escrita e publicada que os enfermeiros são de
entre todos os profissionais da saúde, aqueles que, em média, não atingem os 65 anos
de idade, MORREM ANTES; são os que apresentam mais problemas osteo‐articulartes;
maior incidência de abortos espontâneos; maior incidência de infertilidade masculina
e feminina; problemas gástricos; problemas relacionados com o sono; depressões;
saberá, por acaso, que é dos cursos onde existe maior taxa se abandono no primeiro
ano devido ao confronto com a morte, na maior parte das vezes, o 1º confronto de um
jovem com a morte
A Direcção Nacional do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses

Lisboa, 5 de Abril de 10

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A era da PSP, SMS, PS, HI5

Cada vez mais a palavra instituição assume um papel mais importante do que a palavra família. É moda as crianças serem institucionalizadas na creche, no infantário, na escola, na piscina, na música, no OTL... São tantas que não se admirem que as crianças nem cheguem a aprender a viver em familia e pior de que isso, não se admirem que nos enfiem num lar mal tenhamos 65 anos e mais de três medicamentos para tomar por dia...
Assusta ver todos os dias as famílias a tentar inventar doenças para justificar o internamento dos idosos. Acho que se agora é assim, daqui a vinte anos quando esta nova era da "playsation" for adulta... estes jovens "autistas" que mal chegam aos cafés, aos restaurantes, só se calam quando os pais lhes enfiam a PSP à frente... é assustador. As crianças de hoje socializam, ou por SMS ou através das redes sociais...
Onde será que vamos parar...

Por Enf Warchild

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Institucionalizado



Há uns dias chegou uma senhora idosa à Urgência, a carta de referência dizia "problemas na institucionalização". Aparentava uma demência e não se sentia bem no lar, não estava no seu habitat natural, não estava "institucionalizada". Esta é uma das palavras que figura no meu top ten de palavras mais aterradoras. Uma outra é infanticídio... outras virão.

Quando surgiu este episódio da senhora que "não estava institucionalizada", veio-me logo à memória um dos filmes da minha vida, um filme de baixo orçamento que é considerado por muitos um dos melhores filmes de sempre - Os condenados de Shawshank. Isto porque lembrei-me de imediato daquele senhor que vivia há mais de 40 anos na prisão, este sim, estava "institucionalizado" acabando por se suicidar quando libertado. Morgan Freeman, temendo estar também a ficar "institucionalizado", demonstra aqui, nesta grandiosa cena, a sua total indiferença pela decisão de continuar preso ou ser solto. A meu ver uma das melhoras representações de sempre, que nunca esquecerei e que me fez ver o filme possivelmente e sem exagerar, umas 4 ou 5 vezes ( só é pena não ter encontrado legendado). Quem não viu recomendo, apenas contei uma pequena parte, que por acaso é previsivel, mas nada mais conto, vejam apenas, o que não acredito que ainda não o tenham feito.