segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Faz-me espécie...


Às vezes penso que estamos a sofrer as consequências dos tempos das vacas gordas. Temos enfermeiros com anos consideráveis de serviço que ganham para cima de 4000 euros, por outro lado, temos enfermeiros com alguns anos de serviço que ganham para baixo de 900 euros, (tendo em conta que, na maioria dos casos, este último trabalha mais, tem mais responsabilidade e mais risco).
Outra coisa que me faz espécie são as ginásticas das chefias...
Ora agora vais chefiar o Bloco, depois, porque aquele senhor doutro quer, vais chefiar a Consulta externa, agora é melhor saíres da Consulta externa, porque parece mal, já lá há muitos chefes.
Ok boss..
Também há um serviço, se assim o poderei chamar, onde temos um enfermeiro chefe a chefiar um enfermeiro... imagino a complicação para fazer o horário e incutir dinâmicas de grupo. Depois temos a variante de um serviço com um enfermeiro chefe a chefiar zero enfermeiros. Ou seja, é um serviço onde o enfermeiro faz a coordenação... dele próprio. Também havia um célebre serviço onde coabitavam dois enfermeiros chefes para uma equipa, mas depois optaram pelo remendo mais acessível, dividir a equipa em duas, para assim encaixar as chefias. Por último, lá a beira lethes, temos o inverso, um enfermeiro chefe a chefiar duas equipas, constituindo-se assim um ser omnipresente. Tudo é possível, basta querer... e poder.

Chegou o Robin dos Hospitais!



Há um novo autor neste blog! Apelida-se de Robin dos Hospitais. Já alguns posts tinham sido publicados em seu nome, enviados para o meu email. Em jeito de comemoração do 1º aniversário do pddse, achei que devia torná-lo colaborador. Brevemente nas bancas um post da sua autoria. Promete...
Consulta o seu perfil na barra lateral "Quem é o Guilherme de Carmo, e já agora quem é o Robin dos Hospitais" e fica a conhecê-lo melhor. Não te esqueças... também tu poderás ser um colaborador, só é preciso originalidade, acutilância e pertinência.

sábado, 26 de setembro de 2009

Manifestação silenciosa - Enfº não vota PS


Os colegas de Ponte de Lima estão de parabéns. Foram poucos mas bons. Triste foi passarem por lá alguns e virarem a cara

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Carreira, manifestação e política


... e a história continua, adiamento, reunião, retrocesso, manifestação.... e por aí adiante. Está mais que comprovado que o MS goza com os enfermeiros e trata-os com uma indiferença desmesurada.
Dou uma passagem pelos diversos comentários do blog doutor enfermeiro e desacredito cada vez mais na nossa capacidade em encontrar saída para este buraco, onde enfermagem se está a afundar. Vejo a maioria revoltada, furiosa com sindicatos, contra as formas de luta, (neste caso manifestações) e questiono-me, Porquê? Por que se revoltam contra as formas de luta, contra os sindicatos e não se revoltam contra o governo, mostrando a indignação.

E como se mostra a indignação?! A história prova-nos que é com manifestações, com a revolta na rua, diante do povo. Mas não... os enfermeiros são finos de mais, são chiques de mais para irem a manifestações, fica mal andar a gritar e a levantar bandeiras.
Claro que as greves são fundamentais, mas, lembrem-se disto colegas, para o povo, que é aquele que devemos ter como aliado, a manifestação é o maior sinal de injustiça. Mais uma vez vejam os professores e tantos outros exemplos, neste e noutros países, onde as classes saíram para a rua em massa e os governos tremeram e até ruíram. Imaginem uma manifestação de enfermeiros em larga escala!
Já há semanas, houve uma "campanha" anti PS pela blogsfera: "Enfermeiro não vota PS". Eu não quero acreditar que haja enfermeiros que o façam, que continuem a confiar na política que pisou esta e outras classes de trabalhadores, mais concretamente dentro da FP.
Eu não iniciarei campanha nenhuma, cada qual votará conforme os seus ideais, mas se de alguma forma vos ajudar com a alguma suposta indecisão e se vos interessar, deixo a minha preferência.
Eu cá votarei Bloco de Esquerda, e faço-o porque acredito no seu líder. Claro que os políticos são um pouco como os bancários, aliciar é com eles, mas na hora do aperto são como lobos, é sempre preciso ter o pé atrás. Mesmo assim, vejo o Louça como alguém inteligente, justo e com coragem, o único que, para mim, poderá constituir a solução dentro do vazio que nos apresentam.
O BE será o único partido com referências concretas a enfermagem, nos seus programas: Gestão das unidades do SNS: administradores seleccionados por concurso e directores técnicos por eleição dos respectivos corpos profissionais (médicos, enfermeiros); gestão participada por utentes e autarquias, sujeita a avaliação periódica pág. 22-Um programa de emergência para a formação de profissionais de saúde e para responder ao risco de ruptura de médio prazo com o agravamento da falta de enfermeiros e médicos;(pág. 24)-Integração de todos os técnicos de saúde especializados (médicos, enfermeiros, auxiliares) nos mapas de pessoal em regime de contrato de funções públicas.(pág. 25)-Providenciar formação continuada e ao longo da vida, enquadrada dentro da carreira profissional (carreira médica, carreira de enfermagem), e que não seja dominada pela indústria farmacêutica ou com custos incomportáveis para quem dela pretende usufruir.(pág. 26)-A formação de técnicos tais como médicos do trabalho, enfermeiros do trabalho, psicólogos, técnicos de segurança e outros, de molde a criar um quadro técnico competente e em número suficiente para cobrir as necessidades. (pág. 33)-O Bloco de Esquerda defende o princípio fundamental da separação entre o exercício de actividades privadas e públicas, criando-se uma carreira específica para profissionais de saúde dedicados em exclusivo ao SNS.
Estes são os temas, carreira, manifestação e política, quem quiser mande a sua posta e já agora vote na sondagem

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O problema dos Maqueiros


Sou contra a designação MAQUEIRO. Ao maqueiro associamos maca, indivíduo no qual o seu trabalho gira em torno de uma maca. É um termo, a meu ver, um tanto ou quanto redutor. Até porque sabemos que, no caso deste SU, para alguns maqueiros, o seu trabalho não fica unicamente confinado a uma maca. Às vezes repõem material, uma vez ou outra, a muito custo, colocam um urinol a um doente e uma vez já vi um maqueiro a limpar um vomitado... minto, duas. Numa das vezes estragou tudo quando, após o elogio de UMA auxiliar de acção médica, disse, "Isto devia ser para vós". Ora, daqui só me ocorre um termo - MACHISMO em bruto.
A ideia de que o maqueiro só serve para desempenhar funções exclusivamente de carga, trabalho de peso, só para homens, já devia ter terminado há muito, até porque a categoria de MAQUEIRO, já há muito foi extinta, agora são todos e muito bem, assistentes operacionais. Pena é que só o são de carreira, na teoria, porque na prática continuam como maqueiros.
Da mesma forma que eu vejo uma auxiliar a "puxar" macas, por que é que não vejo um maqueiro a mudar uma fralda?! Por que é que eu vejo uma auxiliar a ser escalada como maqueira e não vejo um maqueiro a ser escalado como auxiliar?! As mulheres são mais que os homens, é??!
Claro que neste momento não estou a ver muitos maqueiros com perfil para Auxiliar de acção médica na íntegra, capazes de ajudar a prestar cuidados ao doente, participar nas limpezas, esterilizações, etc, mas com formação tudo se consegue.
É evidente que se houvessem mais assistentes operacionais por turno, este problema não se colocaria e as coisas talvez pudessem continuar como estão. Mas não há... Nas circunstãncias actuais e com um serviço atómico, não se justifica perder 5 minutos atrás de uma auxiliar para preparar o doente para o internamento e mais 10 minutos para conseguir um maqueiro para o levar (e no fim desses 10 minutos já não pode porque é a passagem de turno ou a divisão para a refeição). Seria 2 em 1, um elemento assumia estas duas responsabilidades, quer fosse maqueiro, quer fosse auxiliar... o tempo que não se ganharia...
Quando vou ao Porto ou a Braga transferir doentes já reparo noutra cultura, os auxiliares fazem todos o mesmo, quer sejam homens ou mulheres. Em Viana é que mais uma vez continuamos atrasados.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Opiniões - Carreira de Enfermagem


Recebi há dias este email. Trata-se da opinião de dois colegas enfermeiros sobre a Carreira que recentemente foi acordada. É importante salientar desde já que não concordo com algumas ideias dos autores, mas de certa forma entendo-as. Fica aqui o meu agradecimento por participarem, agora seria interessante iniciar-se aqui uma discussão sobre aquilo que mais nos interessa e incomoda - a carreira de Enfermagem. Deixo-vos então com o email:
Caro colega:
Sou leitor diário do teu blog e após reflexão com uma colega da mesma Instituição onde trabalho, gostaria de expor e ver publicado no teu blog a nossa opinião relativamente às negociações da carreira de Enfermagem. Ficamos sinceramente "comovidos" com a ingenuidade de alguns colegas (de enfermagem) quando só conseguem ver aspectos positivos na nova Carreira de Enfermagem... Uma carreira onde ninguém é premiado por ter mais formação, onde a progressão é feita a conta gotas e de forma arbitrária (leia-se não premiando o mérito!) e onde a remuneração nem se imagina o que será! Ficamos realmente, surpreendidos com o argumento (reunião do SEP em Viana do Castelo) de que a formação na área da investigação (mestrados e doutoramentos) nada acrescentam ao exercício, no âmbito de competências técnicas.
Para além de discordar desta posição, por considerar que toda a formação dá contributos para o exercício desde que quem a faça saiba mobilizar e colocar em prática esse conhecimento, parece-me que estamos a assumir a nossa incapacidade (de todos os ENFERMEIROS!) de conduzirmos a enfermagem para uma CIÊNCIA, criando um limite de progressão (os Curso de Pós-Licenciatura em Enfermagem), ou seja, a Enfermagem é uma profissão que não irá evoluir para ciência ficando confinada a um domínio puramente técnico! Face a tudo isto, deixamos a nossa proposta aos colegas do sindicato: Revejam o vosso trabalho, lutem pelo interesse de TODOS aqueles que vocês representam e não pensem somente nos vossos interesses particulares, caso contrário, permitam-me o conselho: "Assumam a vossa falta de visão, DEMITAM-SE e venham para a prática serem vítimas da desgraça que conquistaram!"
Fernando Ricardo Sousa

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Prémio Blog


Fiquei a conhecer esta iniciativa com o reconhecimento dos amigos blogistas do Coguitare em saúde, quando nomearam o PDDSE. Já fiz questão de agradecer internetemente o "louvor". O jogo consiste em premiar cerca de 8 blogs, explicando os motivos. Confesso que visito com pouca frequência outros blogs, (mal tenho tempo para o PDDSE), mas ao que vejo, constato que há por aí grandes artistas. Mas este foi um bom motivo para conhecer melhor alguns blogs que já estavam na mira. Sendo assim,
Nota: Esta escolha não tem nenhuma ordem, são apenas os oito favoritos,
"Kaputodeblog", um blog que nada tem a ver com enfermagem, que descobri por acaso e que algumas vezes faz-me chorar... de tanto rir. Cuidado que é um tanto ou quanto... como direi... pouco convencional talvez.
"Enfermeiro com CIO", despertou-me o título, a guideline assemelha-se muito com o PDDSE, ou seja, o conceito vai de encontro aquilo que eu acho interessante, que são reflexões do nosso dia a dia. Tem posts muito interessantes, aos quais, já tinha feito questão de deixar o meu comment.
Evidentemente o "Doutor enfermeiro", por ser pioneiro (julgo eu), por ser mega conhecido, por ser um dos mais visitados blogs de blogosfera nacional e claro, por ser interessante, polémico e inteligente.
Ao "Coguitare em Saúde", até ficava mal não reconhecer... mas nem é por isso. Excelentemente organizado e pensado. Um dos primeiros blogs ao qual dediquei atenção.
"Esse enfermeiro é..." descobri pelos autores anteriores, é recente e promete. Gostei muito do "Karting"
"Cheirinho a éter", despertou-me também pelo curioso título. Original, um sentido de humor muito interessante, uma escrita acutilante.
"A beira Lethes", o blog que originou, de certa forma, o PDDSE. Apesar de por vezes manter um ligeiro atrito (internetemente) com o seu autor, não posso deixar de reconhecer que por vezes publica posts interessantes, com observações perspicazes.
"Não compreendo as mulheres", o design é do melhor que vi, a temática também. O autor nota-se que tem muita experiência nestas coisas de conseguir atrair grandes audiências, com as suas "conversas" sublimes.
O último louvor vai para o blog de alguém que eu não posso identificar, pelo risco de perder o meu próprio anonimato, mas ela sabe de quem estou a falar. Tem bom gosto, bons conselhos, boa música e observações tal e qual como ela própria.
Agora quem quiser entra no jogo.

domingo, 23 de agosto de 2009

Porque deixei de ser português


Ontem, como sabem, aconteceu uma tragédia numa praia do Algarve, 5 pessoas perderam a vida depois de uma derrocada. É muito provável qualquer um de nós pensar que estes 5 infelizes não deveriam estar naquela zona, pois havia um sinal a avisar o perigo. Muito mais provável será, qualquer um de nós, indo a uma praia no Algarve, nem sequer reparar no sinal, pois o que quer é desfrutar de uma sombra, lá vai imaginar que aquela semi-falésia ou aglomerado de terra e pedras vai ruir.
Decerto que todos nós já fomos às praias do Algarve, não sei se repararam, mas grande parte delas são minúsculas, têm um areal muito limitado e estão repletas daquelas semi-falésias, género aquela que vitimou estas 5 pessoas. Para mim a culpa, ao contrário do que muitos devem pensar, não é destas 5 pessoas, a culpa é das entidades responsáveis!
Por que é que nesta treta de país só se tomam medidas depois das merdas acontecerem??!! Agora já veio pra aí um iluminado qualquer dizer que se vai fazer uma vistoria às praias todas da costa Algarvia. Quer dizer, sabiam do risco, mas estavam à espera que alguém morresse para agir. Porra! Doa a quem doer é mesmo assim!! Faz-me lembrar o episódio da ponte de Entre-os-Rios, em que dezenas de pessoas morreram, quando todos sabiam que aquela ponte estava por um fio. Depois todos se apressaram a remendar a de Viana e outras que tais.
Mas há tantos outros exemplos por esse país fora que me deixam fo#?&do e a desejar "Porque deixei de ser português, ou melhor por que é que às vezes gostaria de deixar de o ser".
Quem é que nunca ouviu nas notícias qualquer coisa deste género: "Criança morre atropelada, após atravessar estrada sem semáforo, junto à escola", "População fartou-se de exigir passadeira e semáforo no local onde idosa foi atropelada", " 3 pessoas morrem em acidente de viação no IP9 numa curva onde os acidentes são comuns", "Casal de idosos é colhido por comboio numa passagem de nível", etc, etc, etc, etc e etc
Vivemos no país da tolerância 0 e já agora da prevenção 0.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Ameaça de Bomba no piso 6


Aconteceu mesmo! Não é brincadeira! Ontem, dia 17, ameaça de Bomba no piso 6, serviço Medicina 1, 2ª fase.
Parece que a notícia foi abafada, mas deixo-vos aqui os pormenores em 1º mão,
Será que foi o Sr. Antunes que se fartou da comida do refeitório e decidiu por uma bomba no hall de entrada?! Ou será que a Al Quaeda anda por ai?! Deve ser o Ulsam Said...
Agora a sério...
A Brigada de Minas e Armadilhas foi chamada, após uma denúncia telefónica anónima. Com eles veio o Rex, o cão polícia (fonix não consigo parar de gozar... é que isto dá-me vontade de rir, desculpem...). Consta que levaram um embrulho e o assunto foi resolvido.
A ver se não é preciso chamar o CSI (lá estou eu...).

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Eduardo, uma criança anorética


Ao longo da nossa curta/longa experiência como enfermeiros decerto que já nos deparamos com situações que mexeram connosco de alguma forma. Umas deitam-nos abaixo, outras engrandecem-nos, umas deixam-nos enfurecidos, outras fortalecem-nos. Mas acima de tudo há situações que marcam, que sensibilizam. Esta é uma delas,
A mãe do Eduardo já o teve fora de tempo, mas não seria por isso que seria indesejado, muito pelo contrário. A mãe teve uma gravidez de risco, o período fértil tinha sido ligeiramente ultrapassado. O Eduardo nasceu prematuro e de saúde débil. Foi a partir desse momento que se tornou o protegido da família. Era o menino querido dos olhos da mãe. Também era o único macho de três irmãos. Tinha os olhos doces, cor de mel, de um sorriso fino e meigo. Tinha 14 anos e costumava ser titular nos juvenis do Fão, jogava a central com número 5 às costas, o do seu ídolo, Fernando Couto. Nos últimos tempos tinha perdido a titularidade, passava os tempos mais nos hospitais. Tinha perdido 12 quilos em 9 meses, sofria de anorexia.
A sua fragilidade e superprotecção tinham alimentado o distúrbio.
Permanecia sereno, deitado numa maca, com sua mãe em pé, a seu lado. O seu coração trabalhava lentamente, era a forma do seu corpo responder ao défice de proteínas. Tinha alturas que batia a 30 pulsações por minuto, mas com o estímulo da conversa que com ele mantínhamos, logo subia para valores razoáveis. A Pediatra adoptou uma postura radical logo desde o início, o que eu não condenei, achei que podia funcionar esta terapia abrupta, Eduardo, tu podes morrer, se o teu coração continua a bater desta forma, podes morrer. Sua mãe chorou de imediato e eu engoli em seco. Ele apenas comunicava com os olhos, dando a entender que percebia a gravidade da situação. A médica também se comoveu e moderou o discurso, Tu não tens amigos? Sim, respondeu. E então não queres continuar a ter?! Olha o mundo lá fora, tens tanta coisa a tua espera. O dia ajudou, amanhecia lá fora, e mesmo dali dava para saborear aquele dia de Verão perfeito.
Os raios de sol penetravam timidamente pela vidraça e o silêncio da manhã reinava quando o Eduardo também chorou. As lágrimas deslizavam pela sua face esguia, a sua expressão permanecia quase inalterável. Aquelas lágrimas poderiam ser a sua salvação, senti-as como o sinal de mudança.

Assim o espero Eduardo, o mundo espera por ti.

Enfermeiros atirados aos leões


Quando comecei a trabalhar recordo que o tempo de integração era sagrado. Aquele mês, mês e meio, ou até mais, consoante o serviço, era cumprido à risca. Nessa altura os tempos eram outros, de certa forma valorizava-se o bem-estar e adaptação do enfermeiro.
Depois chegou a crise, as EPE´s, as perdas de autonomia e poder dos chefes e a gestão anárquica de recursos humanos, porque afinal de contas o que interessa é o $$$$.
Eu quero lá saber que aquele enfermeiro esteja ou não integrado, tem é que começar a trabalhar apartir do momento que eu o contrato, tem o curso, é porque já sabe fazer tudo, preciso dele é agora e não daqui a um mês, (isto sou eu a imaginar o que deve ir na cabeça dos gestores quando atiram um enfermeiro para os leões).
Os leões não são só os doentes, são: os protocolos, os circuitos, os programas, as rotinas, os materiais, os arrumos, as características, as patologias, as terapêuticas, as equipas, a logística etc etc etc, de todo um serviço.
Como é possível alguém estar em integração 2 ou 3 turnos e no seguinte ficar responsável por 20 doentes e uma área de Reanimação?!! De quem é a culpa? Será dos gestores, será dos chefes?! Ou não será de ninguém... é o mais provável, é não ser de ninguém.
Nota: Este post nasce da sugestão de um colega do S.U, não interessa quem.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Crónicas estapafúrdias Vol. VIII - O Cunólogo


As luzes do corredor já tinham sido desligadas, a urgência já andava a meio gás. Pouco passava das 4h da manhã, hora de relativa paz, quando um jovem nos visita com uma ferida feia. Tinha-se zangado com a namorada e decidiu concentrar a sua fúria num copo, partindo-o com a mão. Dr.Q, ortopedista (não sei se se recordam) foi chamado, pois o flexor tinha sido atingido. Acompanhado pelo Dr. J, assiste o jovem azarado. Mais fo#$-se , menos ca%&lho, a história foi mais ou menos assim,
Dr.Q - Então, ca#$lho! Que é que você faz aqui a estas horas?! Questiona enfurecido.
Jovem azarado - Ahh.. Doutor, responde acanhado, Parti um copo com a mão.
Dr. Q - Fo#&da-se... e que é andavas a fazer com o copo, ca&$lho?!
Jovem azarado - Zanguei-me com a namorada.

Dr.J, explorava a ferida, enquanto Dr.Q continuava o interrogatório, cada vez mais minucioso. A revolta de ter sido acordado tinha-se atenuado devido aos contornos interessantes do infeliz episódio.

Dr. Q - A tua namorada deve ser fo%$da! O que é que ela faz?

Jovem azarado - Ahh... Tem um estabelecimento em Valença...

Dr. Q - Um estabelecimento em Valença?! Não me digas que tem uma casa de putas?!

Dr. J e o enfermeiro hesitaram entre a gargalhada e o silêncio, mas não aguentaram. Até o próprio interrogado esboça um sorriso, talvez fosse melhor não levar a mal, afinal de contas era a sua mão que estava em jogo. Responde, por fim, após a risota geral,

Jovem azarado - Ahh.. não.. É uma casa de meninas.

Dr. Q - Meninas... pois. Então o que é que tu fazes lá?

Jovem Azarado - Humm... estou lá...

Dr. Q - Estás lá?! returque pouco convencido. Não me digas que és o cunólogo.

E a gargalhada foi ainda maior... e a história fica por aqui... é melhor

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Crónicas estapafúrdias vol. VII - Às vezes perco-me a tentar perceber a mente humana.


Nota prévia: Há já algum tempo que não editava as crónicas, por isso convém relembrar que todas as crónicas estapafúrdias são histórias reais, com personagens inventadas, para não ferir susceptibilidades.
O Enfº Y tinha recebido a informação, estava prestes a chegar ao SU um doente com o diagnóstico de tuberculose pulmonar, com alto risco de contágio. As medidas de precaução possíveis foram asseguradas e o senhor infectado seguiu directamente para o pseudo-isolamento do SU. Aqui , caros leitores, surge a primeira parte estapafúrdia.
Desde que se ergueu esta Urgência, há mais ou menos 30 anos, que existe uma sala que denominarei de pseudo-isolamento/sala de tratamentos/sala de espera de doentes para PSIQ-ORL-OFT. Tanto funciona para instalar doentes com tuberculose, como para, (em alturas distintas) deixar doentes à espera do psiquiatra ou, por exemplo, fazer um enema de limpeza a um doente ou ainda, mais recentemente, para deixar suspeitas de gripe A. É uma sala multi-usos!
Foi necessário a chegada do H1N1 para se começar a pensar em fazer umas obras a este pseudo-isolamento/sala de tratamentos/sala de espera de doentes para PSIQ-ORL-OFT, para que se torne unicamente (?) um isolamento à seria.
Para que tenham uma melhor ideia do que vos estou a falar, descrever-vos-ei o pseudo-isolamento/sala de tratamentos/sala de espera de doentes para PSIQ-ORL-OFT:
Dirigindo-se pelo corredor principal, encontra na 8ª porta à sua esquerda , a entrada para o pseudo-isolamento/sala de tratamentos/sala de espera de doentes para PSIQ-ORL-OFT, abre a porta, e vê um compartimento talvez do tamanho de um quarto de casal (de um apartamento modesto), no topo superior da parede de fundo, temos umas janelinhas, género as de uma garagem (do mesmo apartamento). Depois temos um lavatório dos anos 20 e um saco branco, e para terminar temos o ar condicionado ou incondicionado, pois mal funciona. Finalmente está em obras! Agora vamos ver é como vai ficar, pelo menos já estão a deitar paredes abaixo. Há males que vêm por bem.
Agora a segunda parte estapafúrdia,
O enfº Z equipa-se segundo as normas estabelecidas, para ir ter com o tal senhor que tinha uma tuberculose. Eis que entra em cena Dr X, (não sei se se recordam) e questiona enfurecido o Enfº Y: Quem é o responsável de turno? Quem é o responsável pelo enfº Z? Recebe a resposta e comenta, de forma a que acompanhantes, doentes e quem estivesse no seu raio de acção ouvisse, qualquer coisa do género: Só lhe falta levar o preservativo! Será que também leva preservativo?! A história foi difundida e pelo que se constou, a intenção não era ter piada, era mesmo criticar e condenar (o que está certo), mas se fosse para ter piada, não teve nenhuma, digo eu.. é por isso que às vezes perco-me a tentar perceber a mente humana.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Factor C ?!


Tenho recebido alguns comentários (que reencaminharei para este post), que mencionam dados estranhos acerca do concurso para entrada de novos enfermeiros na ULSAM. Sinceramente não tenho conhecimento real do que se está a passar, apenas ouvi uns rumores, por isso a exclamação e interrogação.
Convidei um anónimo, que abriu aqui neste blog esta discussão, para criar o post sobre este tema, mas ele(a) desapareceu. Os comentários que se seguem são da responsabilidade dos intervenientes... e minha, mas só acredita quem quer.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Aos meus colegas do SU


Esta é uma carta destinada para a caixa de reclamações/sugestões do SU. Gostava que os enfermeiros do SU a lessem e manifestassem aqui neste blog a sua aprovação ou reprovação. Caso aprovem, refiram se, tal como eu, a assinam. Caso assinem, ela há-de chegar às vossas mãos. (ainda não sei é como, porque eu não vos a posso entregar)

Em qualquer local de trabalho torna-se essencial um ambiente minimamente saudável. Num serviço de prestação de cuidados ao utente mais ainda se tornará, por razões evidentes. Com um ambiente cordial e harmonioso a eficiência será potencializada, assim como o atendimento e bem-estar do utente.
É sabido que o conflito é comum nas relações inter-pessoais, devido à complexidade das diversas situações com que diariamente nos deparamos, o que não é compreensível é o conflito criado sem sentido.
Enumeras foram as vezes em que os enfermeiros desta equipa relataram no seu seio, como forma de descomprimir, situações lamentáveis e evitáveis, criadas nas tais relações inter-pessoais. Quase nunca estas situações, muitas vezes com graves contornos, são expostas a quem de direito, por receio de que o ambiente de trabalho se deteriore ainda mais, ou até porque as pessoas não se querem incomodar ainda mais.
Os enfermeiros encontram-se no meio de uma cadeia de classes, por conseguinte, estabelecem um maior volume de interacções profissionais. Consequentemente, são os que mais sentem a pressão do possível conflito, são os que mais o vivenciam e são os que mais sentem necessidade de uma intervenção exterior.
No nosso meio, a relação médico enfermeiro será indubitavelmente a mais decisiva, porém, lamentavelmente, é a que mais atritos gera. Não se pretende denunciar esta ou aquela situação lamentável, nem se pretende denunciar este ou aquele médico que tiveram atitudes infelizes. Pretende-se alertar as pessoas que têm a capacidade de mudar o rumo da situação, para evitar que estes episódios sejam frequentes e que evoluam para desfechos ainda mais infelizes, como por exemplo, possíveis agressões físicas, (como já aconteceu).
Sendo assim sugerimos:
Formação obrigatória para todos os profissionais, com o tema (p.e.) – “Saber estar, saber respeitar em trabalho em equipa”, ou consulta de psicologia obrigatória para todos os funcionários de (p.e) 5 em 5 anos, ou sempre que o profissional achasse importante.
Poderia ser uma medida inovadora e quiçá pioneira no nosso sistema nacional de saúde.

Os signatários,

Guilherme de Carmo

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Agora é convosco.. leiam, discutam, sugiram, cá vos espero..

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Polémica no Hospital de S. João

Após a controvérsia causada pelo enfermeiro que decidiu, e bem, escrever uma carta ao P.R, queixando-se de injustiça, perseguição e discriminação por parte da chefia de um serviço do Hospital São João, nova polémica acontece nesta imponente instituição de saúde.
Gilson Alves, interno de cirurgia cardio-torácica, está, desde esta 2ª feira, em greve de fome, num gabinete no próprio hospital.
Tal como todo o interno que quer dar mostras da sua dedicação e interesse, pediu inicialmente para assistir a cirurgias, mesmo após longas horas de urgência. A adrenalina, a vontade desmesurada de aprender, falavam mais alto que o bom senso. Depressa estes horários absurdos e desumanos se tornaram um hábito. Gilson Alves começou a ficar saturado, cansado de ser explorado. Ao contrário de muitos, não se calou. Manifestou a sua indignação, apontou os culpados e por isso foi castigado. Permanece desde Março confinado a um gabinete, onde nada mais fez do que magicar o plano que o poderia salvar deste precipício, idealizou a greve de fome, criou um blog onde movimenta todas as suas emoções, através de textos e vídeos. É aqui que recebe as centenas de comentários, maioritariamente a aprovar a sua causa. Poderão visitá-lo clicando neste link. Fiquem a conhecer a discriminação e calúnia a que foi sujeito.
Poderão vos surgir algumas dúvidas quanto à veracidade de tudo o que afirma, só estamos a conhecer a sua versão. Porém, a magnitude dos seus actos merecem no mínimo a nossa atenção. isto não se trata de um problema de um indivíduo, de uma classe, mas sim de um problema geral, que atinge muitos portugueses, das mais variadíssimas classe laborais. Despertem porque amanhã podem ser vós, ou um dos vossos, ou todos vós.

terça-feira, 23 de junho de 2009

O ciclo vicioso


Ainda não tinha feito o meu dever como enfermeiro, colega e blogista - divulgar esta grandiosa petição, (é que às vezes gosto de fazer umas pausas introspectivas).
Duvido que ainda haja alguém que desconheça a Petição das Petições, a Nº 1 e que chega mesmo a ultrapassar a da conhecida menina russa, mas poderá haver um ou outro mais distraído, por isso, se achas que este governo desrespeita os enfermeiros, visita e assina Petição - Todos pela carreira de Enfermagem, se achas que gostas de ser explorado, então não assines.
A ideia foi brilhante, a abrangência está a ser fantástica (últimos dados com 7115 signatários), quanto às repercussões falarei adiante. Na minha opinião, no seu texto de intervenção, há ali apenas um parágrafozito (o antepenúltimo) que não foi muito feliz, acho que está um pouco confuso, a rasar a ameaça, mas também são pormenores.
Confesso que estou um pouco saturado e pessimista, este longo processo tem sido mais troca, menos troca, da seguinte forma:
... Adiamento, adiamento, reunião, retrocesso, impasse, manifestação, adiamento, reunião, avanço, retrocesso, reunião, impasse, adiamento, reunião, impasse, greve, avanço, retrocesso, manifestação, impasse, adiamento, adiamento, reunião, impasse, impasse, greve, retrocesso e depois aconteceu algo fora do normal, que foi um... adiamento, seguido de manifestação, reunião, impasse, avanço, reunião, retrocesso, impasse, manifestação, impasse, reunião, impasse, reunião, greve, e depois se não me falha a memória, acho que houve um impasse, que me corrijam se estiver enganado, a seguir uma manifestação, greve, reunião, reunião, impasse, impasse e... Ah! Foi um impasse, seguido de adiamento, reunião, greve, greve, avanço, avanço (Ui! 2 avanços seguidos!) Retrocesso, retrocesso (bem me parecia...) e depois ou houve uma greve, ou uma reunião, é que já estou um pouco baralhado. Neste momento estamos a atravessar um impasse, aproximando-se uma reunião ou adiamento, ainda não se sabe.
Agora abro aqui um espaço de debate ou reflexão, como quiserem. Depois de tudo isto, quais são as tuas expectativas? Depois de todos os esforços, uns bem, outros menos bem conseguidos, será que vamos cair novamente no buraco da indiferença? Será que a petição vai funcionar? Será que estamos próximos de um final feliz, ou infeliz?
Para terminar, deixo-vos com a não menos importante petição sobre o problema que se passa em Ponte de Lima, visitem e assinem, se assim o acharem, fica aqui o link Hospital Conde Bertiandos, garanto-vos que os motivos são muito legítimos, e tal como na outra fazem a subscrição em 1 minuto.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Musicoterapia



Nina Simone - Ain’t Got No… I Got Life

Ain’t got no home, ain’t got no shoesAin’t got no money, ain’t got no classAin’t got no skirts, ain’t got no sweatersAin’t got no faith, ain’t got no beardAin’t got no mind
Ain’t got no mother, ain’t got no cultureAin’t got no friends, ain’t got no schoolingAin’t got no name, ain’t got no loveAin’t got no ticket, ain’t got no tokenAin’t got no God
What have I got?Why am I alive anyway?Yeah, what have I got?Nobody can take away
I got my hair, I got my headI got my brains, I got my earsI got my eyes, I got my noseI got my mouth, I got my smile
I got my tongue, I got my chinI got my neck, I got my boobsI got my heart, I got my soulI got my back, I got my sex
I got my arms, I got my handsI got my fingers, Got my legsI got my feet, I got my toesI got my liver, Got my blood
I’ve got life, I’ve got my freedomI’ve got the life
I got a headache, and toothache,And bad times too like you,I got my hair, I got my headI got my brains, I got my earsI got my eyes, I got my noseI got my mouth, I got my smile
I got my tongue, I got my chinI got my neck, I got my boobiesI got my heart, I got my soulI got my back, I got my sex
I got my arms, I got my handsI got my fingers, Got my legsI got my feet, I got my toesI got my liver, Got my blood
I’ve got life, I’ve got my freedomI’ve got life, I’m gonna keep itI’ve got life, I’m gonna keep it

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Um dia na vida de um Enfermeiro da Admissão - Último episódio


Cenas do último capítulo,
(...) Tenho que render novamente a colega da Triagem que fica radiante por me ver. Começo a triar,
Episódio IV
Utente ySr Enfermeiro, desde a semana passada, enquanto estava a ver o festival Eurovisão da canção, que tenho um formigueiro neste braço e uma pontada nas costas…
Seguro a gargalhada, a Triagem às vezes também nos proporciona momentos deliciosos. À sexta triagem entra a vmer repentina para a sala de emergência, soa o alarme estridente, dirijo-me à sala e levo já na mão uma pulseira vermelha. Devido a esta hora crítica do jantar, apenas um colega se encontrava na sala, juntamente com a equipa do carro amarelo. Passados segundos tinham chegado os médicos. Senti-me no dever de ficar a ajudar, afinal de contas enfermeiros de urgência são para estas situações. Tratava-se de uma senhora de 80 anos, que de repente, em casa, tinha-se lembrado de deixar de respirar. Durante 20 minutos tentamos reverter o inevitável, o desfecho não tinha sido favorável. Volto à triagem, 20 minutos ausente, 20 utentes em espera.
E.ABoa noite! Então que se passa?
Utente XDoí-me a barriga.
E.ADesde quando?
Utente XDesde ontem, mas hoje já estou melhor.
ENTÃO QUE RAIO ESTÁ CÁ A FAZER??! Imaginei dizer. Aquele principio de que, quando temos uma dor, tentámos resolver em casa, se melhorarmos, tanto melhor, se as coisas piorarem é que começamos a pensar em ir ao médico, a esta (e a outras) pessoa(s) não se aplicava, ou melhor, aplicava-se ao inverso.
Mais umas queixas e regressa a colega da Triagem, não lhe deixo um panorâma muito agradável, explico que aconteceu algo (im)previsto. Preparo-me para o último sprint, 3 internamentos em espera, 2 folhas de terapêutica de doentes que iam ficar em OBS…Macas, ou seja, um “OBS” onde se encostam os doentes em maca a uma parede, que muitas vezes parecia interminável. A cada um destes é atribuída uma letra, seguindo o abecedário, já ia na H. Era comum a competição para ver quem tinha tido mais macas, havia uns tantos enfermeiros que já se gabavam, por ironia, de ter chegado a ter a Maca B’, ou seja, tinham dado a volta ao alfabeto.
Um dos internamentos tinha ficado esquecido na secretária dos cirurgiões somente há 5 horas. Bem achava estranho aquele doente que se encontrava na Twilight Zone, nem num lado, nem no outro, mas também, mea culpa talvez, não me tinha dado ao trabalho de ir ver o que é que se passava com ele, talvez por permanecer calmo, indiferente à confusão em seu redor, talvez fosse daquele tipo de doentes tão crivado de hospitais, que se tornara imune à impaciência da espera. Tratava-se de um doente reencaminhado do Hospital de S. João, nem se justificava por ali passar, nada foi feito por enfermagem, apenas uma nota de circunstância.
Seria uma sorte, com a quantidade de exames em espera, conseguir um maqueiro para levar pelo menos um internamento antes das 23h, hora de passagem de turno. O meu colega continuava tarefeiro, no trinómio análises/soro/medicação, ao mesmo tempo que barafustava com a lentidão dos computadores. Com a impaciência, clicava sucessivamente até que davam o tilt. Esta Admissão mais parecia uma mini-central de computadores arcaicos que bloqueavam sistematicamente devido ao uso ininterrupto, o ruído que emitiam era oco e desgastante. O sistema Alert (programa criado para coordenar todos os procedimentos num SU) anda a 100 rotações por minutos, os enfermeiros da Admissão andam a 200, claro que dariam o pifo.
E.AEntão leva-me este internamento, se faz favor? Está prontinho!
Maqueiro 2Está bem. Onde está o processo?
Uii, estarei a ouvir mal?! Entrego-lhe o processo surpreendido e digo adeus e as melhoras ao senhor que estava esquecido. E assim terminava o tempo dos internamentos, senão ouvíamos das boas dos colegas lá de cima. Pego numa das folhas de terapêutica, escolho a de baixo, provavelmente a primeira a ser deixada na banca. Um senhor que tinha tido um pós-operatório complicado, tinha estado nos Intensivos e depois terá tido uma alta precoce. Continuava a perder sangue sabe-se lá por onde. Onde iria ficar? “OBS” Macas.
Tentámos numa última arfada, deixar o painel menos cintilante. Conseguimos finalmente atingir a meta, desta feita seria um atraso de 20 minutos. Nada mau…
Chega o colega da noite para receber o turno.
E a história termina da mesma forma que tinha começado,
E.AComo é tão bom ver-te! Deixa-me passar o turno que já estou saturado.
Casa, banho, cama… para a minha princesa.
Princesa - Então amor trabalhaste muito?!
E.A - Trabalhei…
Princesa - Também respondes sempre o mesmo, e adormece no meu peito.
FIM
Retiro-me com a escolha do Dj, espero que gostem,

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Um dia na vida de um Enfermeiro da Admissão - Episódio III


Cenas do último Capítulo,
(...) Vejo o Colega de turno com cara de poucos amigos
E.A - Então que se passa?
Episódio III
Colega de turnoAli a tua amiga (médico 1), entrou aí a mandar vir por o doente do AVC ainda ai estar.
Respiro fundo e relembro os ensinamentos do yoga, utilizar as energias negativas, convertendo-as em positivas.
E.ADeixa lá isso, eu vejo a doente, continua tu no painel.
Doente 1Sr. Enfermeiro já chegaram as minhas análises?
E.AIsso é com o médico, respondo áspero.
Volto ao AVC, planeio ver temperatura, tensões e glicemia capilar, só encontro o termómetro, mais uma volta ao serviço para encontrar o aparelho para ver tensões e a maquineta para a picada no dedo, resultado 5 minutos perdidos. Mais 5 a corrigir as alterações, febre, hipertensão e hiperglicemia, ou seja tudo. Deixo a senhora pronta para o internamento, mais uma volta para encontrar maqueiro, desta vez com sucesso.
E.ASr. Maqueiro leve-me aquela senhora ao internamento.
Maqueiro 3Não posso, estou nas fichas.
E.APode, pode, eu falo com o enfermeiro das fichas.
E lá vai ele contrariado, remoendo umas palavras pouco agradáveis. É por isso que nunca se deve dizer “Não posso”, poder, podemos sempre, agora, “Não devo” é mais correcto, de facto não deve, mas pode. Tal como há falta de enfermeiros, também faltam maqueiros, já para não falar de auxiliares. Muitos são aqueles que dizem,
“Seria bom que aqueles que mandam, estivessem cá neste dias, talvez colocassem mais pessoal”.
Pois é caro cidadão (e esta é para ti Ângelo Miguel!) o enfermeiro não se queixa exclusivamente por ser mal pago, queixa-se, entre inúmeros aspectos, das más condições de trabalho, muito devido à falta de pessoal e que têm implicações directas no seu atendimento. Avaliem bem, Senhores gestores, os sítios onde não se faz nenhum – onde o pessoal poderia ser reduzido e transferido para onde efectivamente se faz. Bom… isto era um pequeno desabafo, já me estava a perder… voltando à série,
Nem tudo era mau na Admissão, este era o momento em que efectivamente estavam dois enfermeiros, onde se conseguia ter um pouco mais de controle da situação.
Colega de turno - Só análises, só análises!... A todos os doentes pedem análises.
E.AÉ mesmo! É impressionante!
Qualquer utente que queira uma análise de rotina, basta ir ao Serviço de Urgência e dizer que sente… qualquer coisa, é garantido que faça umas análises ao sangue, até mesmo que diga que sente que o futuro dos portugueses vai melhorar! Bom… aí é mesmo melhor pedir umas análises, pesquisa a opiáceos..
Várias são as vezes em que vejo esta urgência como um laboratório de análises. Por falar nisso, colho sangue a mais dois utentes, é melhor deixar um cateter, o mais provável é daqui a pouco estarem a pedir medicação.
Já não há macas para deitar doentes, nem muito menos cadeiras. Uma equipa de bombeiros espera há largos minutos, à entrada do corredor, uma vaga para deixar um doente. Mais duas corporações estão lá fora, se esses doentes precisarem de maca, vai haver engarrafamento, ou melhor, já há.
E.ASr. Amílcar, não se importa de levantar um pouco, para sentar esta senhora, para fazer umas análises? O Sr Amílcar era um velhote todo janota, marido da Dona Zulmira, tinham vindo à urgência por razões pouco específicas.
Sr. AmílcarCom certeza, com certeza, Sr. Enfermeiro .
Finalmente subia para o internamento a senhora do lenço na cabeça, não sei se recordam, pelo menos era paciente. Volto-me para um doente que estava sob a responsabilidade de Neurologia, estava suado, com o pulso oscilante. Reúno o material, abro o armário, já não havia o soro pretendido, mais uma volta ao outro extremo para buscar. Tenho que falar com o médico sobre este doente. Onde está?! Não está… Neurologia tinha saído às 20h. Vou ter com o médico de Medicina interna.
E.ADoutor, está ali um doente de Neurologia que está mal.
Médico 3 – NÃO QUERO SABER! SE É DE NEUROLOGIA! Responde, mais uma vez aos berros, como se eu fosse o culpado.
E.A – Pois, mas Neurologia não está.. Só lhe estou a comunicar, faça o que entender.
Médico 3 – ISTO É INSUPORTÁVEL, AMANHÃ VOU FALAR COM O DIRECTOR CLÍNICO! Desabafa, um pouco menos irritado.
E.AMeta-lhe uma cunha para ver se metem mais enfermeiros, acrescento, a tentar descongestionar o ambiente.
E lá foi ele, a ferver, ver o doente…
Aproximava-se a hora do jantar e com ela o tormento da colega de Pediatria que teria que se tornar omnipresente, estando em dois sítios ao mesmo tempo – Pediatria e Admissão. Em dias de caos, dificilmente alguma área escapava, como é habitual Pediatria estava recheada, para passar por lá era preciso fazer uma gincana. Encontro a colega no meio de uma miscelânea de brufens, brinquedos, sondas, pais, seringas, tabuleiros, biberons, desenhos, enfim numa encruzilhada. Digo-lhe com lamento,
E.ATemos que dividir para ir jantar…
Colega da PediatriaPodem ir, é certo que não vá lá, isto está impossível.
Volto costas e com o colega da Admissão, tentamos limpar um pouco mais o painel, ao fim de 5 minutos percebemos que era impossível, tínhamos que ir, continuavam a chover pedidos.
Fomos jantar, desta vez não numa hora, mas em meia. O tema de conversa eram as aventuras e dissabores durante este e outros turnos, o costume, conversa de enfermeiro.
Voltamos ao Vietname, país muitas vezes designado em tempos de crise. Passo uma olhadela pelo painel, atraso superior a uma hora, 3 painéis repletos de pedidos, podia ser pior, naturalmente a colega de Pediatria mal tinha conseguido vir à Admissão, ou seja, 37 doentes tinham sido vigiados por uma equipa de… fantasmas. Tenho que render novamente a colega da Triagem que fica radiante por me ver. Começo a triar,
Final do episódio III

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A quebra de confiança


Parece que circulou pelos lados do reino ULSAM, uma Circular, passando o pleonasmo, que destituía um certo enfermeiro chefe do seu cargo devido a quebra de confiança perante os elementos da Direcção. Parece também que esta reforçou bem a ideia de que a Direcção de Enfermagem está em 2º plano, numa posição subalternizada.
Este novo nome para o nosso hospital - ULSAM, só me faz lembrar o nome de um Sultão árabe ULSAM SAID, por exemplo. Na maioria dos países árabes, ou reinos/monarquias/ditaduras, como lhe queiram chamar, não impera a democracia, o diálogo, nem muito menos o bom senso.
Bom senso foi o que faltou ao senhor que teve a brilhante ideia de distribuir esta circular pelo hospital. Como é possível?!
Não estou aqui a defender chefes, não faz parte das minhas prioridades, estou a atacar a falta de respeito e a falta de consideração entre indivíduos.
Enfermagem cada vez mais perde a sua autonomia. Vejo nos chefes autênticas marionetas que dançam pelos serviços ao dispor das direcções, mediante pressões exercidas por médicos, que não vão com a cara de determinado enfermeiro. Onde é que chegamos?!
Vou mas é escrever o 3º episódio de um dia na vida de um enf. na admissão, para me acalmar...

domingo, 17 de maio de 2009

Um dia na vida de um Enfermeiro da Admissão - Episódio II


Cenas do último capítulo,
Médico 1 – ENTÃO O DOENTE AINDA NÃO ESTÁ EM OBS ???!!!
Final do Episódio I

Episódio II (O post anterior é o 1º episódio)

E.AJá comuniquei ao maqueiro, mas está ocupado.
Médico 1Não quero saber, quero o doente em OBS já!
Ouvindo a gritaria, lá aparece outro maqueiro para levar o senhor. E assim se ocupa a única vaga em OBS, com mais 2 ou 3 candidatos.
Colega de turnoSão 18 horas, convém lanchar, já tou a desfalecer.
E.AVai lá, rápido, e pede pra me reservarem 2 croissants e uma empada de marisco.
Colega de turnoA sério?!
E.ANão! Tou a brincar! Duas empadas antes.
Familiar 1Sr. Enfermeiro, já chegaram as análises do meu pai?
E.AVá ao gabinete do médico e pergunte, as análises são com ele.
NeurologistaSr Enfermeiro preciso fazer não uma, mas duas P.L’s.
E.ADoutor, estou sozinho aqui, quando puder…
NeurologistaEu fico à espera na sala do chefe de equipa.
Vai ser bonito… Vou adiantando o painel, atraso passa uma hora.
Avio 5 utentes, lombalgias, cólicas abdominais, dor de garganta, etc.. poderei dizer aviar, porque actuo em série, como nas fábricas, mal dá pra falar com as pessoas. Chega a senhora da Gastro, não tenho lugar para ela em OBS, não está muito estável, e agora?! Tenho que passá-la para a frente, os colegas vão me comer vivo. Vejo uns sinais vitais, confirma-se. Faço uma nota à pressa, ponho o soro mais pingado, inicio uma transfusão de sangue e levo eu mesmo a senhora para a frente, pois tinha conseguido finalmente o maqueiro para me fazer o internamento que agora já deveria estar pronto há 4 horas, o da peixeira terá que esperar. Rezo para que o doente não leve nenhuma surpresa desagradável para os colegas lá de cima, senão serei trucidado.
E Rezo, Avé Maria, cheia de graça, livrai-nos dos nossos pecados e fazei com que as onze horas cheguem depressa, obrigado e Amén!
Durante a reza, chega mais um internamento, este de cirurgia, tratava-se de uma senhora que estava apenas há 9 horas na admissão, vestida de negro, lenço à cabeça, permanecia sentada, imóvel, num cadeirão. Tinha pedra na vesícula.
NeurologistaEntão enfermeiro! As minhas PL’s?! Não posso esperar mais!
E.AOlhe vamos lá… Seja o que Deus quiser, Ele Olhará por os doentes que cá ficam!
Começamos a P.L, não era fácil. Estávamos na Sala de Agudos (fora da Admissão), até que alguém interrompe,
Médico 2Onde está o enfermeiro da Admissão?
E.A Está a olhar para ele.
Médico 2Preciso de um enfermeiro na Admissão!! O seu colega?
E.AFoi lanchar.
Médico 2Então vocês entram às 16h e vão lanchar!?
Pensei em fazer ao senhor um ensino sobre a necessidade de uma alimentação saudável e intervalada, a importância do lanche na dieta do indivíduo, designadamente naqueles que trabalham a sério, mas apenas respondi,
E.ANão Doutor, entrámos às 15:30. O meu colega já deve estar na Admissão.
Lá se conseguiu a P.L, corro pró lanche, já estou atrasado, engulo as empadas em dois minutos e sigo para cima. Ao contrário da fama conhecida, os enfermeiros da urgência também comem em dois minutos.
Regresso, tenho que ir prá Manchester, apenas 1 utente para triar. A colega que lá estava ainda não tinha parado de atender pessoas, foge num ápice e em silêncio, talvez tivesse em transe.
Trio dois, trio três, tiro liro, . Aproveito e levo um doente para Ortopedia, o maqueiro das fichas estava a fazer outro serviço, ou não. Passo pela Admissão, o colega continuava na correria, o atraso surpreendentemente era de 30 minutos. Vou picar um jovem, tinha dores de cabeça. Plano tipo: Análises, paracetamol na veia e soro. Dilema: perco o meu precioso tempo a questionar o médico sobre a necessidade das análises, paracetamol na veia e soro, ou seja, todo o plano?! Para isso teria que questioná-lo 40 vezes, não podia ser… Se calhar tem tido vómitos, será esse o motivo.
E.AVou-lhe dar uma pica, tiro um pouco de sangue para análises e ao mesmo tempo deixo um soro, pode ser?
JovemSim, responde franzindo o sobrolho, como que a estranhar a necessidade.
E.AEntão também tem vómitos?
JovemEu não… Só me dói a cabeça… há dois dias.
Questiono-me, revoltado, se este e outros médicos saberão da existência da “circular” que diz que neste tipo de situações, sem que o doente tenha tido vómitos, é preconizado dar paracetamol comprimidos. Abro a gaveta, já não há sistemas de soro, vejo o maqueiro, peço delicadamente para me ir buscar. Espero 10, 20, 30 segundos, como diria a minha mãe, “manda e faz serás servido”, lá vou eu então procurá-los. Volto a Manchester, mais valia Londres, cinco doentes em espera. Ao terceiro regressa a colega, volto para a frente da batalha. Vejo o meu colega da admissão com cara de pouco amigos,
E.AEntão que se passa?
Final do episódio II

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Um dia na vida de um Enfermeiro da Admissão - Episódio I


Nota prévia,

Para quem não sabe, o enfermeiro da Admissão, actua numa sala minúscula, com 4 cadeirões, 1 marquesa, 4 macas mais o amontoado de macas e cadeiras que se emparelham numa parte de um corredor, que se estende talvez por 10 metros. Escusado será dizer que os cadeirões e macas são ocupados por utentes. Utentes que advêm das diversas especialidades médicas: Medicina, cirurgia, clínica geral e às vezes também Neurologia. Fazendo contas e alguém que me corrija se estiver enganado, passam pela admissão cerca de 60 a 70% dos utentes que fazem “ficha” no nosso serviço de urgência, isto para um enfermeiro e meio. Meio porque quase nunca estão lá dois enfermeiros permanentemente, pois têm que assegurar outras áreas e têm que comer… sim, porque ao contrário do que alguns médicos acham, os enfermeiros comem (mas comem no hospital, se houver uma catástrofe estão lá e não num Restaurante tipo Camelo).
Apetecia-me estender aqui em cálculos do número aproximado de utentes que passam pela admissão, para este 1,5 enfermeiro, mas convido alguém mais entendido em números a fazê-lo. Tenho ideia que diariamente fazem ficha de urgência 400 a 500 utentes, é só fazer as contas.
E agora a aventura propriamente dita,

15:40 Chego à Admissão
Que é isto?! Mais parece o Kosovo em tempo de crise.
Colega - Como é tão bom ver-vos! Deixem-me passar o turno que já estou saturada.
Enfermeiro da Admissão (E.A)Força!
ColegaCadeirão 1 temos o Sr. Costa, cadeirão 2 Sr. Fernando, dor abdominal, colheu, medicação, triagem, cadeirão 3 Susana, reacção alérgica, medicação…
E.AEi, ei, ei! Parou! Não nos vais passar 50 doentes, pois não?! Passa aquilo que está pendente.
ColegaPois… É capaz de ser melhor. Maca 3, Sr. Euclides aguarda urina, talvez seja preciso algaliar, maca 4 está pronta para subir para o internamento, espera um maqueiro há 2 horas. Passando para o corredor, ali na 3ª maca à esquerda à beira do carrinho está um senhor pronto para o Bloco. Sentada naquela cadeira à saída do wc está uma senhora que aguarda um enema, não se conseguiu, desculpem lá… temos um senhor no wc lá ao fundo que está a fazer um, chama-se Aníbal… quando sair… hoje temos feito fila prós enemas. Na 2ª maca à esquerda está a Dona Joaquina, por hemorragia digestiva, tem que ir a Gastro e depois OBS. Aqui esta maca em frente já devia ter ido para OBS, dor torácica, medicina, tudo feito, ainda faço uma nota antes de sair. Ali na 2ª maca à direita está um jovem, Pedro, por convulsões, consciente, assintomático, aguarda Neurologista. Na 3ª maca à direita está a Dona Prazeres, por febre e prostração, precisamos de um sítio para lhe fazer uma P.L. À entrada da Pediatria está o Jaime, e… acho que é tudo… Tudo o resto ou ainda não foi visto, ou espera. No painel chegamos a ter uma hora de atraso, agora temos 50 minutos, menos mal.
E.AOk… Bom descanso, vai lá. Bom, bora lá, vou tratando destas coisas pendentes, vais vendo o painel?! Dirigindo-me para o colega de turno.
Colega de turnoSim… Coragem, bora lá!
Ao telefone,
E.AOBS? Boa tarde! Vagas?
OBSTemos uma vaga, cama 13
Uii, azar… Vou ter seleccionar bem…
E.A - Sr. Maqueiro!! Chamo no corredor, Leve-me este senhor para OBS!
Maqueiro 1Estou de RX, tou com muito serviço.
E.AQuem pode então?
Maqueiro 1É o meu colega, mas foi à morgue com uma auxiliar.
Ok… começa bem. Bem vou algaliar ali o Sr Euclides que espera uma colheita há 3 horas. Auxiliar, onde estará?
E.ASr. Auxiliar?! Procuro pelo corredor
Maqueiro – Foi à morgue com o meu colega.
Óptimo! Bom, lá terei que algaliar sozinho… Algálias n.14?! Procuro na gaveta, não encontro, está aqui uma 12, siga. Água bidestilada? Não há, Sacos colectores?! Não há… lidocaína, compressas , ba lá temos aqui. Sigo para a Sala de Agudos, procuro o material em falta, não encontro água bidestilada, sigo para OBS, remexo no “armazém dos soros” Eureka! Encontrei um, finalmente vou conseguir algaliar! No caminho vejo um maqueiro,
E.A - Preciso que me leve aquele senhor para OBS!
Maqueiro 2Já me pediram aquele senhor pró Bloco, só tenho dois braços!
E.AOk! Não se enerve! Vá lá, depois não se esqueça.
Médico 1Sr. Enfermeiro, deixo aqui um internamento para Unidade AVC.
E.AOk… deixe ficar.

Vou mandar este jovem das convulsões pra frente. Maqueiro?! Não encontro… bom, levo eu senão fico sem espaço para por doentes. Passa por mim a voar o colega de OBS MACAS, passo-lhe o doente de soslaio. Regresso à base, vou preparar a senhora para a Unidade de AVC, vislumbro a Auxiliar, mudo de estratégia.
E.AVenha comigo, vamos ver um senhor que está a fazer um enema há x horas
Encontro o doente revoltado, indignado, queixava-se que já estava há mais de uma hora com a sonda no intestino.
E.APois… Tem toda a razão… tem que se queixar ao Administrador do Hospital a ver se contrata mais enfermeiros.

Volto e preparo a doente para o internamento, aproveitando a sorte de ter a Auxiliar comigo (encontrar uma auxiliar disponível é um achado nestes dias), vejo entretanto o meu colega da Admissão corado e já a bufar. Passados 5 minutos, consigo encontrar o maqueiro.
E.AEntão já me leva o senhor para OBS?!
Maqueiro 2Agora já não posso, pediram-me urgentemente a senhora para a Gastro, posso levar?!
E.ATou… ok vá lá, volte rápido, já começamos a ficar entupidos com internamentos.
Ajudo entretanto o colega nos cuidados que se multiplicam no painel do computador, parece uma árvore de Natal com tantas luzinhas vermelhas. O atraso voltou para uma hora.
Aparece de repente o médico 1 aos berros, à entrada da Sala de Admissão, perante todos os espectadores,
Médico 1 – ENTÃO O DOENTE AINDA NÃO ESTÁ EM OBS ???!!!
Final do Episódio I